O olhar fixo ao chão, o rosto pálido comunicando vergonha e a fala inquietante são algumas das características e expressões demonstradas por homens autores de violência que acompanham as palestras de um grupo reflexivo para agressores de mulheres em Santa Catarina.
Nenhum deles parecia confortável com a situação e a maioria demonstrava dificuldade em afirmar a agressão. Ao mesmo tempo, agradeceu a oportunidade de rever seus crimes pela ótica da conscientização. De maneira geral, para todos os presentes, dividir suas experiências com outros homens e refletir sobre a forma violenta com a qual tratava suas companheiras é um exercício importante.
Naturalmente não há como compensar a dor de mulheres que sobreviveram à violência doméstica. Da culpa à falta de autoconfiança e autoestima, os sentimentos se misturam e por isso é tão difícil apostar em uma só iniciativa que faça a diferença em suas vidas. Embora a vítima seja o centro do acolhimento e das políticas públicas quando o assunto é violência doméstica, o autor de violência também precisa ser, uma vez que apenas a punição ou o afastamento da vítima não resolverão anos de machismo estrutural, misoginia e violência.
Seu Luiz* está entre os frequentadores de um grupo reflexivo. Ele conta que perdia o controle facilmente e partia para a agressão. Hoje se diz arrependido:
“Se eu pudesse voltar atrás, nada teria acontecido. Que bom que ela está viva!”
Mais leve e aliviado após começar a frequentar os encontros reflexivos, ele destaca que trata a mulher de outra forma atualmente. Esse saldo positivo vem alimentando estudos que apostam no acolhimento também para os autores de violência como forma de combate.
Os grupos Reflexivos
Quando falamos em agressão contra a mulher, é natural pensar no apoio que deve ser dado à vítima. Mas se o comportamento do autor de violência não for elaborado, como romper o ciclo? Essa é uma pergunta que os grupos reflexivos espalhados pelo Brasil tentam responder. Segundo estudo das Coordenadorias Estaduais da Mulher em Situação de Violência Doméstica, há 312 grupos reflexivos para autores de violência no país. De 2012 a 2020: 62.554 Homens participaram desses encontros no Brasil – (Arte)
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grupos reflexivos no Brasil.
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homens participaram dos grupos no Brasil
Em geral, o encaminhamento desses homens integra o conjunto de medidas protetivas de urgência da Lei Maria da Penha. São reuniões que acontecem por meio de Organizações Não Governamentais, Núcleos Municipais de Assistência Social, Centros Comunitários ou setores dos Tribunais de Justiça. A maioria dos coordenadores é voluntária.
A psicóloga Ana Carolina trabalha no Grupo Ágora e explica porque escolheu um Grupo Reflexivo que lida com Autores de Violência contra a mulher. “ A gente tem diversas políticas públicas e profissionais de psicologia, inclusive mulheres. Mas quando a gente vai para o campo de ação isso não é realidade. Então, é importante ocuparos diversos espaços para termos amplitude de diálogo”, ressalta.

Ricardo Mansur é responsável por um Grupo Reflexivo que existe em Blumenau há 18 anos. A unidade atende uma média de 350 homens ao ano com 12 encontros por encontro. “ A gente discute em conjunto o que gerou essa violência, bem como questões relacionadas à paternidade, à Lei Maria da Penha, à sexualidade e aos micromachismos que muitas vezes não chegam até as delegacias.
A importância da Casa da Mulher Brasileira
Quando a virada de chave acontece e o ciclo de violência doméstica é rompido, um universo de possibilidades se abre para mulheres vítimas de violência. Para isso, as redes de apoio – familiar e profissionais – são peças fundamentais.
Em geral, o encaminhamento desses homens integra o conjunto de medidas protetivas de urgência da Lei Maria da Penha. São reuniões que acontecem por meio de Organizações Não Governamentais, Núcleos Municipais de Assistência Social, Centros Comunitários ou setores dos Tribunais de Justiça. A maioria dos coordenadores é voluntária.
- Flávia* foi expulsa de casa a pancadas após levar uma surra do companheiro por causa da roupa que estava usando. Hoje, após 7 meses vivendo em uma casa de acolhimento, já fala em esperança e autoestima. Está feliz criando a filha.
- Laís*, que teve o braço quebrado após uma discussão seguida de chutes e ponta-pés, diz que não é uma luta fácil. Ela afirma que vale a pena dar um primeiro passo para deixar a relação violenta, embora não visse uma luz no fim do túnel de início.
- Claudia* vivia uma relação abusiva composta por humilhação, ofensas, traições e agressões. Hoje tem acompanhamento psicológico amparado pelo município e se diz aliviada.
- Paula* viveu um ciclo abusivo na infância quando era molestada pelo pai. Hoje afirma: “Quando alguém te trata bem, te respeita, tem amor por você, existe uma grande possibilidade de romper este ciclo vicioso de violência”.
Em todos os casos relatados, a perspectiva de recomeço só foi possível por meio do acolhimento. É aí que entra o projeto Casa da Mulher Brasileira. Infelizmente, no cenário nacional existem muitas barreiras burocráticas que dificultam ao Estado acessar benefícios relacionados ao tema, como a tão esperada Casa, concebida como um centro de atendimento humanizado especializado no atendimento à mulher em situação de violência doméstica.
Em Florianópolis, em 2015, o governo do Estado cedeu à União um terreno com área total de quase nove mil metros quadrados perto de uma das principais delegacias direcionadas. Mas impasses burocráticos fizeram o projeto emperrar e até hoje não saiu do papel.
A então Secretária Adjunta Nacional de Políticas para Mulheres esclareceu que a expectativa era juntar a bancada catarinense para que pudesse haver recursos na ordem de R$13 milhões. Vencendo esta etapa orçamentária. Já em Tubarão, a união dos poderes legislativo e executivo fez essa possibilidade se tornar real. O terreno já foi comprado e a meta é iniciar as obras ainda este ano.
Embora Santa Catarina seja referência em mobilizações para mitigar as agressões domésticas, os entraves são inúmeros. Os órgãos públicos ainda realizam tarefas independentes. Uma auditoria feita pelo Ministério Público de Contas e o Tribunal de Contas do Estado no fim de 2021 recomendou que os órgãos públicos criem um plano de ação de combate a violência contra a mulher.
A intenção é evitar, entre outras coisas, o desperdício de campanhas e, consequentemente, de dinheiro público. Segundo a procuradora-geral de Contas do Estado, Cibelly Farias, passado o prazo estipulado que venceu recentemente, a maioria dos órgãos públicos envolvidos já apresentaram suas manifestações, que estão sendo avaliadas pela área técnica do Tribunal. A partir daí determina-se novas orientações.

Onde pedir ajuda:
Por fim, não é normal ser subjugada, ameaçada, humilhada e agredida em uma relação. Por isso, ao notar os primeiros sinais, busque ajuda para deixar essa relação abusiva e denuncie. Sempre haverá uma rede de apoio a postos. Palavra de mulher!
Anne Teive Auras, Defensora Pública e Coord. Núcleo de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres da Defensoria Pública SC (NUDEM)
Giovana Ribeiro, Reumatologista e Fundadora Projeto VIDA MULHER
Quando a virada de chave acontece e o ciclo de violência doméstica é rompido, um universo de possibilidades se abre para mulheres vítimas de violência. Para isso, as redes de apoio – familiar e profissionais – são peças fundamentais.
Serviços gratuitos para denúncias de violações de direitos humanos e de violência contra a mulher
Disque 190 e Rede Catarina (busque informações no batalhão de sua cidade).
Procure a DPCAMI de sua cidade.
Oferecem serviços para a prevenção de casos de agressões, além de cursos e acesso a benefícios sociais. Endereços e horários podem ser consultados através dos sites.
Centros de referência de atendimento às mulheres
Atendimento semelhante aos Creas, mas apenas para casos de violência contra as mulheres.
Presta atendimento jurídico às vítimas de violência. Veja endereços e telefones por município no site da Defensoria Pública do Estado
Atende pessoas em situação de vulnerabilidade. Busque informações e endereços no site.
Atende pessoas em situação de vulnerabilidade. Busque informações e endereços no site.
REPORTAGEM e produção: AMANDA SANTOS • Pré Produção: Vitorya Navegantes • IMAGENS: MARCELO FEBLE e JACSON BOTELHO • Edição de texto: Reginaldo de Castro • EDIÇÃO DE VÍDEO: MARCOS OLIVEIRA • Edição de arte: Lucas Rezende • EDIÇÃO DIGITAL: LUIS DEBIASI e LUCIANA BARROS