‘Infindáveis dias’: Policial conta como é ser a única mulher em treinamento do Tático da PMSC

Viviane Macari conta com exclusividade ao ND+ como foram suas experiências nos 30 dias de curso

Foto de Ana Schoeller

Ana Schoeller Florianópolis

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Viviane Macari, de 34 anos, passou por uma experiência recente na PMSC (Polícia Militar de Santa Catarina). Entre os dias 1° de agosto e 2 de setembro deste ano, a policial participou do curso de táticas policiais, popularmente chamado de “tático”. Na Polícia há nove anos, Macari contou com exclusividade ao ND+ como foi a experiência do que definiu como “infindáveis dias”.

Viviane foi a única mulher no curso junto com 49 homens – Foto: PMSC/Divulgação/NDViviane foi a única mulher no curso junto com 49 homens – Foto: PMSC/Divulgação/ND

A seleção, segundo Macari, começou com teste físico e prova técnica. A policial era a única mulher no curso que contava também com 49 homens. Porém, ela afirma que foram todos tratados da mesma forma.

Polícia Militar foi criada em 5 de maio de 1835 mas somente em 1983 o primeiro Pelotão da Polícia Militar Feminina em Santa Catarina foi criado – Foto: PMSC/Divulgação/NDPolícia Militar foi criada em 5 de maio de 1835 mas somente em 1983 o primeiro Pelotão da Polícia Militar Feminina em Santa Catarina foi criado – Foto: PMSC/Divulgação/ND

A Polícia Militar foi criada em 5 de maio de 1835, e na época era chamada de “Força Policial”. No entanto, foi somente em 1983 que o primeiro Pelotão da Polícia Militar Feminina em Santa Catarina foi criado.

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De acordo com a PMSC, dos 10 mil policiais na ativa, apenas 951 são mulheres. Atualmente, a corporação mantém a média prevista na Lei N° 587, de 14 de janeiro de 2013, que prevê um percentual de 10% do total de policiais.

Pouco tempo para dormir e pouca comida

Macari começa contando sobre os primeiros dias de treinamento. Neles, os policiais são divididos por números. Ou seja, seus nomes “vão embora” e adotam a identidade numérica.

“A primeira semana é a mais difícil”, conta. Ela e os colegas tinham uma barraca e uma fogueira para se aquecer. No lugar de camas, lonas. O sono era escasso com o que definiu como “poucas horas”.

A alimentação é outra mudança durante o treinamento. Macari diz que durante o dia pouca comida era servida. O combo de acontecimentos gerava “muita exaustão durante os dias e madrugadas”.

“O curso conta com muita resiliência, muito desgaste físico e psicológico. Sentimos frio, exaustão e a comida é racionada. Como mulher não teve nenhuma distinção, todos passaram pelas mesmas situações, não tem diferença alguma”, expõe.

Macari conta que o curso exige resiliência devido ao desgaste físico e mental – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/NDMacari conta que o curso exige resiliência devido ao desgaste físico e mental – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Após a primeira semana, os policiais tiveram treinamento com o BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) e a Polícia de Choque (unidade ou corpo policial especializado em controlar e dispersar multidões em manifestações, por exemplo).

Desistência

Ao longo dos dias as situações ficam ainda mais difíceis. Lutando contra o corpo e mente, alguns colegas optaram por desistir. Para desistência era necessário “tocar um sino” que ficava no local durante todo o tempo, no entanto, ninguém queria tomar a decisão.

Durante os 30 dias, 24 pessoas desistiram do curso, segundo Macari. Os motivos são os mais variados, mas todos lutam antes de efetivamente decidir dar “um fim” no treinamento.

“Em nenhum momento pensei em tocar o sino, por mais difícil que estivesse. Sempre pensei em mais um dia. Amanhã talvez, mas hoje não”, lembra.

“Precisamos um do outro”

Os policiais estavam juntos quando um ciclone atingiu Santa Catarina em 10 de agosto. Em 24 horas as chuvas passaram dos 100 milímetros em alguns municípios.

Para combater o frio e a chuva forte os colegas aprenderam “na marra” que precisavam um do outro. Com isso, um dos conceitos mais conhecidos da ciência ao redor do mundo para combater o frio foi usado: o abraço.

“A gente costumava se abraçar e ficar muito próximos para não perder o calor do nosso corpo. Isso só nos ensinou o quanto precisamos um do outro. Agosto foi um mês de baixa temperatura, muita chuva e mau tempo e precisávamos ficar aquecidos”, fala.

Segundo a policial, as situações exalavam “muito respeito” entre ela e os colegas que a enxergavam como um deles.

Macari explica que os colegas sempre a respeitaram muito – Foto: PMSC/Divulgação/NDMacari explica que os colegas sempre a respeitaram muito – Foto: PMSC/Divulgação/ND

“Não tem diferença alguma. Dormíamos sempre muito juntos para não passar tanto frio também. A única diferença da mulher é a logística na higiene pessoal que é um pouco maior. Temos que nos virar como conseguimos e não tem jeito”, informa.

Macari diz que entende que as mulheres não são iguais aos homens e que precisam de mais dedicação nos treinos para conseguir chegar ao nível dos testes e do curso. No entanto, faz um alerta.

Viviane faz o alerta: nada é impossível quando se tem vontade! – Foto: Reprodução/@taticosantacatarina/NDViviane faz o alerta: nada é impossível quando se tem vontade! – Foto: Reprodução/@taticosantacatarina/ND

Para participar do curso tático é necessário já estar na Polícia e passar por uma série de testes teóricos e práticos para então poder começar as aulas e enfim atuar na área.

As equipes de Força Tática são responsáveis pelo patrulhamento tático ostensivo nas áreas onde o nível de criminalidade é mais elevado, realizam operações especiais dentro da Polícia – entre elas o resgate de reféns, sequestros, execução de mandados de prisão e manutenção da ordem pública.

Confira o vídeo de uma das cerimônias da formatura:

Uma das cerimônias da formatura foi gravada por colegas – Vídeo: PMSC/Divulgação/ND

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