Aos poucos a pacata Saudades tenta voltar à rotina de antes da tragédia que ocorreu nesta semana na cidade. Dois dias após o ataque brutal em uma creche, onde cinco pessoas foram assassinadas, entre elas três crianças, quase todo o comércio já reabriu no município de 10 mil habitantes. Nas ruas, no entanto, ainda poucas pessoas se atrevem a sair de casa por medo após a tragédia.
Cidade segue com movimento fora do normal em dias de semana – Foto: Willian Ricardo/NDApesar da proximidade com o Dia das Mães, uma data considerada como ponto-chave para o lucro dos lojistas no primeiro semestre, alguns comerciantes da cidade já sentem uma retração da população na procura por presentes.
“Estamos retornando com bastante tristeza, pois, precisamos voltar. A batalha vai continuar, mas precisamos ter forças para isso. A cidade é pequena e não tem como ficar sem se envolver com a situação. Nos meus 25 anos de profissão foi o dia [3 de maio] mais difícil para trabalhar”, conta Célia Hoehn que é dona de uma floricultura na área central.
Celia está há 25 anos no ramo e relata a dificuldade de trabalhar em meio ao luto – Foto: Willian Ricardo/NDA empresária diz que sentiu queda nas vendas de flores e atribui isso ao medo dos moradores em sair de casa. “Já temos reflexos, pois, o pessoal só vai à rua se realmente precisa. Estava todo mundo empolgado com a data. Alguns clientes chegaram aqui com um pouco de ansiedade e nervosismo. Ontem (quarta-feira) uma cliente disse que nunca teve problema de ansiedade e medo, mas agora tem até medo de andar e olhar para os lados. Tomara que esse reflexo passe, mas é um pouco complicado”, comentou.
Na tarde chuvosa desta quinta-feira (6) poucos veículos transitavam pelas principais ruas da cidade que é considerada a Capital da Hospitalidade. Aos poucos, ainda incrédulos com a tragédia e amedrontados com tanta brutalidade, os moradores parecem se revezar ao caminhar pelas ruas.
Se protegendo da chuva, embaixo dos toldos das lojas, estava a jovem Gabriela Sales. Ela trabalha na mesma empresa que o autor da tragédia Fabiano Kipper Mai, de 18 anos, e ainda se emociona ao lembrar das cenas que presenciou na última terça-feira.
Gabriela relatou que sente medo ao deitar na cama para dormir – Foto: Willian Ricardo/ND“Eu ainda não consigo dormir direito à noite, parece que passa um filme na minha cabeça que isso poderia ter acontecido em vários outros lugares. Eu não era muito próxima dele, mas o conhecia como um rapaz quieto que parecia nunca ser capaz de fazer isso”, contou.
Fabiano praticou o ataque no intervalo do horário de trabalho, por volta das 10 horas. Os colegas dele ainda buscam por respostas sobre a atitude do colega.
“As pessoas estão em choque, ainda não acreditam que isso aconteceu. É uma tristeza enorme para quem conhecia às famílias, às crianças, às professoras. É muito triste. Temos que pedir para Deus que a justiça seja feita porque é uma coisa inacreditável”, detalhou Gabriela.
Enquanto na fachada da creche Pró-Infância Aquarela muitas flores, cartas e velas deixadas por moradores e amigos das vítimas ainda mudam o cenário do local que foi palco de uma brutalidade imensurável. Entre elas uma carta escrita à mão: “Nossos sentimentos diante de tamanha dor. Manifestamos pesar e solidariedade por tão grande perda. Fraternamente”.
Carta deixada na frente da creche – Foto: Willian Ricardo/NDA tragédia
Às cinco vítimas da tragédia foram sepultadas no fim da manhã de quarta-feira (5) no cemitério da cidade. As crianças foram enterradas uma ao lado da outra.
A única criança ferida que sobreviveu aos ferimentos, um menino de um ano e oito meses, está internado em um hospital infantil de Chapecó. Segundo o último boletim desta quinta-feira, atualizado às 18 horas, o pequeno deixou a UTI e está em recuperação.
Drama: tragédia na creche em SC ganhou dimensões nacionais – Foto: Willian Ricardo/NDJá o autor da crueldade permanece sedado na UTI do Hospital Regional do Oeste. O médico Jonathan Caon de Souza detalhou que Kipper Mai passou por uma segunda cirurgia e se recupera bem. “Ventila espontaneamente, responde a estímulos, e está saindo da sedação pesada. Provável alta da UTI nos próximos dias, caso mantenha essa evolução satisfatória”, diz o boletim médico.
O jovem ainda deverá permanecer em enfermaria de recuperação cirúrgica no decorrer da evolução devido às cirurgias que envolverem pescoço, tórax, abdômen e membros inferiores. Ele teve a prisão em flagrante convertida em preventiva pelo Judiciário.
A PC (Polícia Civil de Santa Catarina) ouviu mais dez testemunhas até o começo da tarde desta quinta-feira, sendo que outras cinco foram intimadas para prestar depoimentos.
Segundo o Delegado de Polícia Jerônimo Marçal, o jovem será interrogado assim que o seu estado de saúde permitir. Após decisão do Judiciário autorizando a quebra de sigilo de dados, a Polícia Civil também está realizando a extração de dados de dispositivos eletrônicos (computador e pen drive) apreendidos para a investigação.
Delegado acompanha o caso desde os primeiros momentos – Foto: Willian Ricardo/ND“Os investigadores da Polícia Civil estão debruçados fazendo varreduras nos dispositivos apreendidos para angariar mais elementos de interesse da investigação e esclarecer ao máximo possível esse crime horrendo”, afirmou Marçal.