Impotência. É assim que Pricylla da Costa Bianchi resume o que vem sentindo desde a última segunda-feira (25) quando a filha, uma adolescente de 16 anos, foi xingada e agredida em uma escola de Joinville, no Norte de Santa Catarina, em um episódio que ela denuncia como racismo religioso.
Caso aconteceu no Cesita, na zona Sul de Joinville – Foto: Google Maps/ReproduçãoPricylla conta que a filha havia mudado de turno – da noite para a manhã – há três dias no Cesita (Centro Educacional e Social do Itaum), na zona Sul da cidade.
Segundo ela, a filha e um aluno conversavam sobre Umbanda, religião de matriz africana que ambas seguem, durante uma aula de educação física e, em determinado momento, uma estudante se aproximou e interrompeu a conversa.
Seguir“A menina começou a xingar ela dizendo que a Umbanda cultua o demônio e que se ela é umbandista também cultua. Minha filha tentou explicar, mandou ela calar boca e, então, ela foi pra cima da minha filha e bateu nela até separarem as duas”, conta Pricylla.
A mãe reclama que, após a briga, a escola teria negligenciado o caso. “Uma das pessoas que trabalham lá disse que a minha filha teria que voltar para o turno da noite porque é um absurdo discutir sobre religião”, conta. As duas alunas foram suspensas, mas só a filha de Pricylla teve de esperar pelos pais para ser liberada da escola, conforme a mãe.
A adolescente ficou com várias marcas pelo corpo. “Ela tem calombos na cabeça, os olhos ficaram bem inchados e roxos e teve os braços cortados”, destaca a mãe. Ainda assim, de acordo com Pricylla, nenhum profissional de saúde foi acionado pela escola para avaliar o estado de saúde da estudante.
Filha de Prycilla ficou com vários ferimentos após a agressão – Foto: Prycilla Bianchi/Arquivo pessoalA mãe conta que procurou a unidade no dia seguinte, mas não recebeu a devida atenção mediante a gravidade do caso.
“Se eximiram de qualquer culpa, disseram que não sabiam que a briga tinha sido por intolerância religiosa, que desconhecem qualquer profissional que poderia ter falado que ela estava errada e que não chamaram ajuda porque só podem chamar o Samu, que não viria por isso”, fala a mãe.
Pricylla abriu um boletim de ocorrência por agressão e intolerância religiosa e a adolescente passou por exame de corpo delito. Ela também denunciou o caso à Procuradoria e está acionando a Justiça contra o município e contra a aluna que agrediu a filha.
A situação foi denunciada pelo Movimento Negro Maria Laura na internet:
Impotência diante de uma luta de anos
Pricylla é integrante do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Joinville e há anos participa de ações contra o racismo. Esta, aliás, não é a primeira vez que ela e a família sofrem com a intolerância religiosa.
“Isso é recorrente. Minha vida inteira as minhas filhas sofreram com intolerância religiosa, eram chamadas de filhas de macumbeira, diziam que tinham pacto com o diabo”, conta. Uma delas, inclusive, deixou a religião por causa dos ataques, segundo Pricylla.
Ainda de acordo com a mãe, a menina não quer voltar para a escola onde sofreu a agressão e será matriculada em outra unidade.
“Parece que toda a nossa luta nunca serviu de nada porque tudo o que vem do povo preto, nossa cultura e nossa religião, é minimizado. Tudo é ‘mimimi’. É um sentimento de impotência”, desabafa.
O que diz a prefeitura de Joinville
Questionada pela reportagem do ND+, a prefeitura de Joinville, responsável pelo Cesita, falou sobre o caso em nota:
“A Prefeitura de Joinville, por meio da Secretaria de Educação, informa que foi notificada na última terça-feira (26/4) sobre uma situação envolvendo duas estudantes da Escola de Jovens e Adultos (EJA).
A direção da unidade prestou assistência à aluna que teve ferimentos e comunicou a mãe da jovem sobre a situação logo após o ocorrido. No mesmo dia, a mãe da aluna e a diretora da EJA tiveram uma reunião sobre o ocorrido.
A conversa faz parte da apuração dos fatos para que se possam determinar os próximos passos a serem adotados pela gestão da Secretaria de Educação. A Prefeitura de Joinville reforça que defende o respeito à diversidade e que a propagação deste princípio em todas as suas unidades, inclusive de forma multidisciplinar como tema transversal”.