Morador de Joinville denuncia racismo após compra em posto de combustíveis: ‘estamos cansados’

Rhuan Carlos Fernandes denunciou racismo após funcionária entrar em contato com a companheira na madrugada de segunda-feira (23)

Foto de Drika Evarini

Drika Evarini Joinville

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“Estamos muito cansados. As coisas no Brasil só acontecem quando alguém faz uma denúncia como essa. A postura da empresa, da gerência, da funcionária é a postura que combatemos todos os dias, de quem não acredita que uma pessoa negra possa sair de um lugar sem que alguém desconfie de algo, é uma postura que reflete como nossa sociedade é racista”.

Rhuan Carlos Fernandes registrou boletim de ocorrência após ser vítima de racismo em posto de combustível de Joinville – Foto: Reprodução/NDRhuan Carlos Fernandes registrou boletim de ocorrência após ser vítima de racismo em posto de combustível de Joinville – Foto: Reprodução/ND

O cansaço e a luta são do historiador Rhuan Carlos Fernandes, que denuncia ter sido vítima de racismo no dia do seu aniversário de 31 anos, na segunda-feira (23), em Joinville, no Norte de Santa Catarina, depois de ser indevidamente cobrado após abastecer em um posto de combustível.

Rhuan e a família estavam indo para a praia, mas antes de pegar a estrada, pararam em um posto de combustíveis para abastecer o carro. Por volta de 5h, Rhuan passou no caixa após abastecer R$ 50 e pagou a conta. O total era de R$ 54,50 porque, além da gasolina, comprou uma bolacha para o filho.

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A família continuou viagem, aproveitou o fim de semana e, na segunda-feira, ocorreu a situação que Rhuan reviveu como homem negro: foi acusado de sair sem pagar. Uma funcionária do Auto Posto Monsenhor, no bairro Jarivatuba, entrou em contato com a companheira de Rhuan, por volta de 1h30 e como ela não atendeu, voltou a ligar às 5h47.

Do outro lado da linha, a funcionária acusava o casal de ter saído do posto no sábado sem pagar uma conta de R$ 188 e cobrava que os dois voltassem ao local para “se explicar”. “Ela foi irredutível. Para ela eu tinha passado lá e não tinha efetuado o pagamento, ela foi irredutível e disse que já tinha até acionado a polícia”, conta.

No momento em que entrou para efetuar o pagamento, Rhuan recorda de ter outras pessoas, brancas, no local. No entanto, ele foi acusado. “Havia outros clientes, mas o homem negro é o acusado”, fala.

Rhuan questiona acesso a dados pessoais

Além do racismo, Rhuan questiona o acesso aos dados pessoais da família, uma vez que, de acordo com ele, a própria funcionária afirmou que “a polícia havia fornecido os dados a partir da placa do carro”. “Como a polícia fornece os dados pessoais para uma empresa privada? Tem o racismo institucionalizado de  vazar dados de uma pessoa, da minha companheira, a polícia fazendo segurança privada, olha o perigo que estamos correndo”, fala.

Ele conta, ainda, que a funcionária só amenizou o tom acusatório depois que a companheira encaminhou, via WhatsApp, o cupom fiscal comprovando o pagamento. Apesar disso, o casal foi até o estabelecimento.

“Fomos lá ontem, eles começaram a negar dizendo que não teve racismo, que nunca foi essa a intenção. Nós falamos, mostramos a questão. Primeiro eles viram no vídeo que não tinha sido eu, no segundo momento conversando com eles, falaram que não tinha como me entregar o vídeo porque estava quebrado, mas como viram?”, diz.

Ele conta, ainda, que recebeu mensagens da gerência do posto com um pedido de desculpas. “Eles colocaram a culpa na funcionária, como se institucionalmente eles não tivessem culpa nenhuma”, diz.

O boletim de ocorrência foi registrado na tarde de segunda-feira como “injúria qualificada como preconceito” e Rhuan garante que dará andamento ao processo.

“Estamos cansados e nós vamos até o final, vamos acionar o Ministério Público, a Justiça, entrar com todos os processos. É muito ruim imaginar que essa é uma prática que está na memória coletiva do país. Eu não queria estar em uma rede social compartilhando isso, mas infelizmente sabemos que só assim para as coisas se resolverem. O racismo é uma máquina de moer gente, mas nós estamos fazendo movimentos de autoproteção há muito tempo”, ressalta.

Além do racismo sofrido, Rhuan também questiona o vazamento de dados e garante que esse é outro viés que será cobrado da Justiça. “Não temos proteção e o Estado também não garante, nesse caso eles estavam na garantia de proteção do posto, o que é mais grave nisso tudo”, diz.

O que diz o posto de combustíveis

O Auto Posto Monsenhor se manifestou por meio de nota oficial alegando que a conduta não é a adotada pelo estabelecimento, reforçando, ainda, que a funcionária agiu “por livre e espontânea vontade”.

Confira a nota na íntegra:

“A Direção da empresa Auto Posto Monsenhor, vem por meio deste comunicado esclarecer alguns fatos, após constatar a veiculação de vídeos, áudios, e demais publicações em redes sociais, que alegam conduta criminosa de cunho racista, por parte da equipe da empresa contra um de seus clientes.

Em um vídeo publicado nas redes sociais, um homem afirma que foi contatado na madrugada do dia de hoje, 23/01/2023, por alguém da equipe do Posto, e que nesse contato, foi acusado de não pagar pelo combustível abastecido em seu veículo na manhã do sábado, 21/01/2023. Além disso, alega que sofreu racismo, pois segundo o próprio, estaria sendo acusado em decorrência de sua cor de pele.

Diante da gravidade dos fatos, a direção da empresa, que só tomou ciência de todo o ocorrido as 12:30h do dia de hoje, buscou entender o ocorrido junto a sua equipe, pois nenhuma das ações, supostamente praticadas pela pessoa que o contatou, condizem com a conduta e os ideais, tanto da direção quanto de todo o quadro de colaboradores da empresa.

Após conversar com toda a equipe que estava trabalhando durante aquele turno, uma das Operadoras de Caixa apresentou a sua versão dos fatos, na qual ela admite que acabou se perdendo durante seu trabalho no Caixa na manhã de sábado, e que ciente de que eventuais prejuízos no Caixa do Posto, por sua responsabilidade, acarretariam em desconto de sua remuneração. Por esse motivo, tentou por livre e espontânea vontade, através de recursos próprios, contatar o cliente que ela pensou ter cobrado a menos.

Ainda, alega que não agiu com intenção racista, e que decidiu contatar o cliente exclusivamente pelo fato de ser o único veículo abastecendo naquele determinado bico da bomba, (nº 7), naquele horário, aproximadamente as 5:30hrs da manhã de sábado. As imagens das câmeras confirmam o fato de que naquele horário, realmente só havia um único veículo em abastecimento naquele bico.

Ao ser questionada pela gerência do Posto sobre o conteúdo da conversa que ela teve com o cliente através de seu próprio celular, ela alega utilizar mensagens temporárias e não disponibilizou nada da conversa para que a gerência pudesse avaliar sua conduta.

Diante do ocorrido, não sendo possível de fato constatar a forma como ocorreu o diálogo entre a Operadora de Caixa e o cliente, a direção entendeu que a melhor alternativa seria se reunir juntamente com ambas as partes envolvidas no episódio, a fim de sanar qualquer diligência.

Providências legais necessárias serão devidamente tomadas após a elucidação dos fatos em conjunto por ambos os envolvidos. Por final, mas não menos importante, a Direção ratifica a mensagem de que repudia veementemente qualquer atitude, manifestação ou pensamento de cunho racista ou preconceituoso. E se coloca à disposição para quaisquer outros esclarecimentos”.

A reportagem entrou em contato com a Polícia Civil, que está investigando o caso, mas até o momento, não recebeu retorno a respeito do andamento do caso. A Polícia Militar preferiu não se manifestar a respeito do caso. “Não vemos necessidade, nem sabemos se há algo relacionado à PM”.

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