Faz uma semana que os feirantes do Largo da Alfândega, no Centro de Florianópolis, convivem com um vazio. Colega há mais de oito anos, o professor Claudio Cesar da Rosa, de 50 anos, foi assassinado no último dia 12, um sábado. Recentemente, ele passou a viver em situação de rua.
O crime ocorreu a poucos metros das barracas onde trabalhava, no Terminal Urbano Cidade de Florianópolis – também conhecido como Terminal Velho. A motivação e autoria do crime ainda são desconhecidas.
Claudio foi assassinado com um golpe de faca no peito. Motivação e autoria ainda são desconhecidas – Foto: Reprodução/Redes SociaisNa manhã de sábado, quando ocorreu o crime, uma cliente foi até a feira e contou aos comerciantes que um dos rapazes que trabalhava no local fora esfaqueado no terminal. Quando chegaram lá, os trabalhadores viram Rosa estirado no fim do terceiro corredor próximo a uma cama. Ele tinha levado uma facada no peito.
SeguirQuando o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e a Polícia Militar chegaram ao local, por volta das 8h, Rosa estava vivo. Ele contou aos PMs que haviam roubado seu celular, mas que não conhecia os criminosos, detalha o tenente-coronel Dhiogo Cidral, comandante do 4º BPM (Batalhão da Polícia Militar).
Ele deu entrada no hospital Governador Celso Ramos, mas morreu pouco tempo depois, por volta das 12h. Para a Polícia Civil, a suspeita é de que o crime ocorreu em função de “uma briga de moradores de rua”, afirma o delegado Ênio Matos, titular da DH (Delegacia de Homicídios de Florianópolis).
Câmeras mostram momento que corpo de Cesar é retirado do Terminal – Vídeo: Arquivo/ND
As investigações seguem em andamento, ressalta o delegado. Não há previsão para a conclusão do inquérito.
No dia 16 de janeiro um turista de São Paulo teve o corpo incendiado enquanto dormia em um ponto de ônibus na Avenida Beira-Mar Norte.
‘Sempre alegre’
Cesar, como é mais conhecido entre os feirantes, ajudava na montagem e desmontagem das barracas. Ele chegava na praça da Alfândega por volta das 6h30 para erguer quatro das cerca de 15 tendas que habitualmente são instaladas no local.
Em troca, recebia cerca de R$ 30 de cada comerciante. Depois voltava no fim da tarde para fazer o trabalho inverso.
Quando a feirante Valdete da Conceição começou a trabalhar no Largo da Alfândega, há oito anos, Cesar já auxiliava os então novos colegas. Na noite da véspera do crime, ela esteve com ele.
“O César disse que teria um baile funk no morro e daí brinquei que iria junto. Ele riu, sempre estava de bom humor”, lembra a amiga, com carinho.
A discrição era outra marca dele, que não falava da vida pessoal e pouco dizia da relação com a família. A homossexualidade e a naturalidade de Bom Retiro, na região serrana catarinense, eram alguns dos poucos detalhes conhecidos pelos amigos.
Acolhimento em Florianópolis
Ele era assistido há cerca de quatro anos pela Secretaria Municipal de Assistência Social, e já foi acolhido em diversos serviços – dentre eles a Passarela da Cidadania.
Recentemente, passou a viver no Morro do Mocotó. Quatro dias antes da sua morte ele realizou exame de tuberculose, com o objetivo de retornar ao abrigo.
“A equipe da Assistência Social lamenta profundamente o ocorrido e irá apoiar a Polícia Civil no que for preciso para auxiliar nas investigações”, informou a pasta.
De acordo com os colegas, Cesar queria parar com o uso de cocaína e voltar a lecionar. Ele já foi professor de Matemática e chegou a dar aulas informais para alguns feirantes.
Desde segunda-feira (13), a Barraca do Francisco tem dois braços a menos para montar e erguer a tenda onde são vendidos queijos, mel, charque, doces e geleias. Era lá que Cesar também tomava o café da manhã, lembra a feirante Rita Heinz.
“Hoje encerramos por conta. É triste. Sentimos saudades”.