A população de Criciúma vivenciou a madrugada mais aterrorizante de toda sua história. Das 23h30 de segunda-feira (30) até 3h da manhã de terça-feira (1º), mais de 30 criminosos, fortemente armados, espalharam pânico na cidade para roubar uma agência do Banco do Brasil, localizada na rua Getúlio Vargas, no Centro de Criciúma.
Os comerciantes de Criciúma ainda calculam os danos após a noite de terror e pânico na cidade – Foto: Anderson Coelho/NDA ação dos criminosos não tem precedentes no Estado. Para obter sucesso, a quadrilha pensou em diversas formas de neutralizar a resposta policial.
Nas proximidades da agência do Banco do Brasil, fizeram uma série de reféns, entre populares e funcionários da prefeitura. Na entrada do túnel do morro do Formigão, em Tubarão, acesso a Criciúma, um caminhão foi incendiado e posicionado no meio da pista, servindo como barricada.
SeguirAlém disso, os criminosos alvejaram a sede do 9° Batalhão da Polícia Militar, queimaram outro caminhão em frente ao batalhão e armaram um artefato explosivo que falhou.
Eles também silenciaram, com ameaças, até mesmo uma rádio local de Criciúma, a Eldorado, que realizava a cobertura inicial dos acontecimentos.
Batalhão alvejado – um ferido e fuga
O comandante do 9° batalhão disse que o assalto no banco de Criciúma foi muito bem projetado e orquestrado. Ele também reforçou que não há precedentes da magnitude desse crime em Santa Catarina. O batalhão foi alvejado depois das 23h, quando foram chamados reforços.
O comandante do 9º batalhão da PM de Criciúma, alvejado na madrugada, enfatizou a ação sem precedentes dos criminosos – Foto: Anderson Coelho/ND“Quando o ataque começou, as viaturas rumaram aqui para o batalhão e uma delas, do bairro Próspera, foi atacada por marginais que estavam na espreita”, disse o tenente coronel Cristian Dimitri.
Foi nesta movimentação da Polícia para proteger o 9º batalhão, que o policial Jeferson Luiz Esmeraldino foi baleado. Ele foi o único ferido no assalto ao banco de Criciúma e segue hospitalizado em estado grave.
Em relação à fuga dos criminosos, Dimitri disse que há diversas possibilidades. Segundo ele, os assaltantes podem ter fugido com outro veículo, mas também podem estar refugiados em algum sítio. A investigação também não descarta que eles tenham fugido utilizando embarcações.
Prejuízos e pânico no comércio
Os criciumenses que conseguiram dormir nesta madrugada de terror amanheceram ainda tentando entender o que ocorreu no Centro da cidade.
A lojista Lucimara Benedet estava preparando, com uma colega, a vitrine de uma das unidades da loja onde trabalha na noite do crime. Minutos antes do início do tiroteio, elas se deslocaram para outra unidade da empresa e lá ficaram até a situação normalizar.
Lucimara Benedet mostra os estragos na loja em que ela trabalha, após o tiroteio – Foto: Anderson Coelho/ND“Só deu tempo de colocar a chave na fechadura da porta que começou o tiroteio. Entramos correndo e fomos para os fundos, desesperadas. Nos trancamos lá e ficamos até passar. Era umas 3h. Quando vimos que tinha acabado, descemos para ver os estragos. Foram momentos de tensão e terror”, relembra.
A loja de roupas onde Lucimara trabalha teve vidraças quebradas e também foram registrados danos nos manequins e em algumas peças.
O dentista Maurício Costa também teve prejuízos por causa do assalto ao banco. Ele se mudou há dois meses para o novo endereço da clínica, que fica a metros do local do assalto. Ao chegar ao local, na terça de manhã, encontrou a fachada atingida por dois tiros.
O consultório do dentista Maurício Costa também ficou com marcas de tiro após o assalto a banco em Criciúma – Foto: Anderson Coelho/ND“Foi uma cena de terror. Começou meia-noite e não sabíamos o que estava acontecendo. Meu pai me acordou ‘filho, é tiro, é tiro!’ e aquela preocupação. Daí comecei a olhar as câmeras, vi uma movimentação, mas ficamos intrigados que não tinha barulho de sirene da polícia”, contou.
Natural de Criciúma, Valéria José Fraga tem 63 anos e achou que a troca de tiros era entre traficantes. Depois, imaginou que fossem fogos de artifício. Ela foi dormir sem saber o que estava acontecendo e foi acordada cedo pelo marido, com as notícias do crime que chocou o país.
Valéria José Fraga contou que nunca viu nada parecido em seus 63 anos de vida sempre em Criciúma – Foto: Anderson Coelho/ND“Achei que vinham de um bar perto do morro. Uns 20 tiros depois deu uma parada. Por volta da 0h30 começou de novo e achei que era foguete. Impressionante. Meu marido me acordou às 6h com a notícia do que tinha acontecido”, disse.
Transmissão da rádio interrompida
O radialista Dante Bragatto Neto está na sua terceira passagem pela rádio Eldorado. Ele tem um programa que vai até a meia-noite na rádio, mas foi madrugada adentro transmitindo as primeiras informações do assalto, com a ajuda de profissionais que estavam em casa, no Centro, perto do local do crime.
Dante Bragatto Neto, radialista da Eldorado, relatou o momento em que interrompeu sua programação – Foto: Anderson Coelho/NDDante disse que foi informado por amigos que os criminosos ameaçaram ir até a sede da rádio para “acabar com a transmissão” ao descobrir que os radialistas estavam repassando os primeiros detalhes do assalto.
Por precaução, os profissionais da rádio interromperam o trabalho. Segundo Dante, ele e o sonoplasta Joel Pereira ficaram escondidos na rádio. Ele relata, ainda, que dois carros se aproximaram do local, rondaram o entorno, mas não chegaram a oferecer ameaça.
Desova de carros em Nova Veneza
Depois de concluir a ação criminosa, os bandidos deixaram Criciúma em um comboio. Eles espalharam dinheiro na fuga – aproximadamente R$ 800 mil – o que fez alguns populares sair de casa para recolher o dinheiro.
Após o crime, os bandidos se dirigiram para o município de Nova Veneza, que fica a cerca de 20 Km de Criciúma. Eles foram até um milharal, cujo acesso é por uma estrada de chão. Neste local, abandonaram dez veículos usados no crime e fugiram com o dinheiro em um caminhão, segundo populares.
O agricultor Maurício Varmelin conta que na noite de sábado (28), por volta das 22h, viu um carro “estranho” no local de desova dos veículos. Ele acredita que criminosos avaliavam o local naquele dia.
Maurício Varmelin viu um carro na plantação três dias antes do assalto – Foto: Anderson Silva/ND“Eu estava olhando o caminhão de energia, que estava arrumando uma rede em casa e, nisso, veio um carro, chegou e entrou ali perto. O carro ficou uns 10 minutos observando e foi embora”, lembra.
Indo para o trabalho pela manhã, o filho de Maurício estranhou que parte da plantação estava danificada. Ele foi checar o que havia no local e se deparou com os carros abandonados. Em seguida, fez contato com a polícia. Os agricultores estimam prejuízo de R$ 2 mil na plantação.
Carros utilizados no crime foram abandonados em uma plantação em Nova Veneza, a 20km de Criciúma – Foto: Anderson Coelho/NDDurante todo o período da manhã desta terça-feira, até as 14h30, os veículos foram recolhidos pela polícia, com apoio de guinchos. Um deles, inclusive, estava coberto de sangue, indicando que ao menos um dos assaltantes foi baleado.
Nenhum dos criminosos foi preso e a Polícia Civil, em parceria com o IGP (Instituto Geral de Perícias), está investigando o crime e seus possíveis autores.