Uma mulher em situação de rua teve seus pertences queimados na tarde dessa segunda-feira (24), em Florianópolis. A mulher de 46 anos, que é conhecida como Drika, habitava um recuo utilizado como ponto de táxi na Rui Barbosa, no bairro Agronômica.
O cenário chamou a atenção de moradores da região. Roupas, brinquedos, livros e outros objetos que compunham o “cantinho” de Drika, organizado com zelo, viraram cinzas.
A Polícia Militar informou que não foi acionada para atender o caso. Até a tarde dessa quarta-feira (26) nenhum boletim de ocorrência havia sido gerado.
SeguirContudo, imagens de câmeras de monitoramento instaladas na região revelam o que aconteceu. Uma investigação foi aberta pela Polícia Civil, que já identificou a autoria do crime. Até a manhã desta quinta-feira (27), porém, ainda não havia sido efetuada nenhuma prisão.
Incêndio intencional
Segundo o Centro de Comando e Controle de Imagens do 4° BPM (Batalhão de Polícia Militar), os registros recuperados da tarde de segunda-feira apontam que o incêndio foi criminoso.
As imagens descritas pela PM mostram uma mulher caminhando pela rua Rui Barbosa na direção Centro/Bairro por volta das 15h40. Ela ateia fogo nos pertences de Drika e, a poucos metros do local, encontra um homem. Ambos seguem juntos em direção ao Morro do 25.
Ainda de acordo com a PM, a proprietária dos pertences queimados estava próxima ao local, em um estabelecimento comercial de alimentos. Populares se uniram para apagar o fogo. Toda a ação durou cerca de 30 minutos.
O Corpo de Bombeiros Militar e a Guarda Municipal de Florianópolis afirmaram que não foram acionados.
Polícia Civil investiga o caso
A delegada Michele Alves Correa Rebelo, diretora de Polícia da Grande Florianópolis, informou à reportagem que a 5ª Delegacia de Polícia Civil da Capital apura o caso a partir das imagens recuperadas.
A delegada revelou que a autoria do crime já está praticamente definida. Trata-se de um casal que também vive em situação de rua.
“A Polícia Civil investiga independentemente de quem é a vítima. O caso está bem adiantado. É um crime de incêndio e estamos apurando se poderia ter gerado algum risco a mais para as pessoas, além dos danos causados aos objetos”, disse Rebelo.
Ainda segundo a delegada, Drika deve ser ouvida pela Polícia Civil nesta quinta-feira (27). O delegado Attílio Guaspari Filho, da 5ª DP, informou que o crime foi motivado por um desentendimento entre a vítima e o casal.
Caso foi parar na internet
A história de Drika foi parar na internet. Moradores que frequentemente esbarravam com a mulher na região da Agronômica ficaram revoltados com o fato.
“Que crueldade!”, comentou uma usuária. “Sempre todo arrumadinho o ‘cafofo’ dela” e “Não acredito. No domingo passei por ali e me chamou a atenção a organização dela. Que horror!”, disseram outras usuárias.
Veja fotos de como era o espaço:
Internautas também associaram a queima dos pertences de Drika ao caso do turista negro incendiado na avenida Beira-Mar Norte, em Florianópolis, no dia 15 de janeiro.
“Fico pensando na relação deste caso com o rapaz que teve o corpo queimado enquanto dormia na Beira-Mar. Que loucura!”, diz um comentário. “Isto é uma ação organizada, não é coincidência, não. Colocar fogo no turista negro e queimar as coisas da moça é organizado”, avalia outro.
A delegada Michele Alves Correa Rebelo, por sua vez, afirmou à reportagem que não há relação entre os casos da mulher em situação de rua e do homem que teve o corpo queimado.
O que diz a Secretaria de Assistência Social
Em nota, a Secretaria de Assistência Social disse à reportagem que recebeu a informação sobre o caso de Drika de forma não oficial e destacou que a investigação está a cargo da Polícia Civil.
“A administração municipal irá auxiliar no que for preciso, entendendo que este trabalho de investigação cabe às forças policiais”, diz o texto.
A pasta também lamentou o ocorrido com a mulher em situação de rua e afirmou que segue amparando “todos os mais vulneráveis”.
Políticas públicas de amparo
Entre os serviços disponibilizados pela Secretaria de Assistência Social está o espaço Passarela da Cidadania, que oferece cursos profissionalizantes, refeição, pernoite e atendimento socioassistencial.
Outros seis abrigos municipais estão disponíveis para pessoas em situação de rua, segundo a Secretaria.
O projeto Resgate Social, disponível 24h por dia, 7 dias por semana, desloca pessoas em situação de rua até um abrigo ou hotel disponível para que possam pernoitar. O serviço conta ainda com enfermeiro, psicólogo e assistente social.
Há, ainda, o Centro Pop, estrutura pública no Centro da Capital especializada no atendimento de pessoas em situação de rua. O local auxilia na realização de documentação, contato com a família, concessão de passagens para cidades de origem ou para onde possuem vínculo.