Mais uma situação de assédio, em plena luz do dia, foi registrada na Avenida Beira-Mar Norte, em Florianópolis, na quinta-feira (24). Beatriz Dutra, de 23 anos, filha da apresentadora Márcia Dutra, da NDTV, contou que tudo começou quando saía do prédio onde mora para entrar no carro que a levaria até a Faculdade Cesusc, às 9h20. Foi então que um homem a abordou.
Homem abordou Beatriz quando ela saía de sua residência – Foto: Divulgação/NDDe acordo com relatos dela, em um primeiro momento ele começou chamando-a de “ei gostosa, ei linda, ei de vermelho”, fazendo referência à calça que Beatriz estava usando. A mulher conta que ignorou, mas que o homem não desistiu, e começou a persegui-la, até chegar no extremo: a puxou pelo braço, tentando entregar um cartão.
Ela conta que na mesma hora ele pediu para que ela o chamasse pelo WhatsApp, ainda segurando-a pelo braço. “Olhei assustada e falei obrigada, querendo recusar o cartão. Ele me olhou de um jeito ameaçador, querendo que eu pegasse o cartão de qualquer maneira. Eu, sem escolha, peguei o cartão, apenas para que ele seguisse seu rumo”, conta em depoimento ao ND+.
SeguirNa sequência, ela conta que entrou no carro do motorista que a levaria para a Cesusc. Ainda em choque com os acontecimentos, Beatriz foi para a universidade sem saber como reagir ao acontecido: “fiquei muito tonta e abalada”.
Ela assistiu sua primeira aula do dia e na sequência foi para a DPCAMI (Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso) de Florianópolis, localizada na rua Delminda Silveira, no bairro Agronômica.
Lá, Beatriz registrou um boletim de ocorrência, mas conta que não se sentiu acolhida na delegacia. “Não esperava ser atendida por um homem. Tudo bem que a delegacia não é só para mulheres, mas se o homem fizesse seu trabalho de forma eficiente, tudo bem”, diz.
Registro de BO
Beatriz conta que chegou na hora do almoço na delegacia, e que não se sentiu bem ao falar sobre o assunto com um policial do sexo masculino, por achar que o agente estava tratando a situação como algo banal.
“Tinha momentos em que eu pensei: será que realmente foi tão sério assim? Eu estou exagerando? Porque ele tratou como uma questão tão normal e boba”, conta Beatriz. Antes de ela ir para a delegacia, uma amiga da mulher havia chamado o suspeito pelo número em seu cartão, e ele respondeu no mesmo momento em que Beatriz estava depondo.
Áudios e fotos foram enviados pelo suspeitoNo primeiro áudio, o homem respondeu que “sim senhor, MG Construção, é só você falar que vou até onde você está”, continuando no segundo áudio com “é só falar onde você mora. Apenas não trabalho com forro de gesso”.
Por fim, no terceiro áudio, ao perceber que quem o chamou era uma mulher, o tom da conversa mudou: “Como é seu nome? Onde você mora? Como se chama essa graça? É só falar o que você precisa minha querida. Um beijo, um abraço”.
Na sequência, 41 fotos foram enviadas para o WhatsApp. Entre elas, estavam fotos de comida, do próprio homem, de motocicletas, praias etc. Beatriz tentou mostrar todos arquivos para o policial, mas ela conta que ele os rejeitou. “Eu estava dando todas as provas”, comenta.
Algumas das imagens enviadas pelo assediador – Foto: Divulgação/NDNesse momento, ela diz que começou a duvidar de si mesma. “É aí que você vê que tem algo de errado. Ele [o policial] não entendeu a gravidade do negócio”, explica Beatriz sobre o que sentiu naquela hora. Após isso, o policial pediu para ela enviar os arquivos, mas naquela hora o agente passou seu contato próprio, ao invés do da delegacia, e Beatriz estranhou.
“Meu pai me buscou depois e pediu o que iria acontecer. Saí de lá realmente pensando ‘pois é, o que vão fazer? Eu não sei’. Eu saí da delegacia me sentindo tão mal. Eu sou uma mulher de voz e posição, mas ontem eu não reagi duas vezes”, relatou, no dia seguinte ao assédio.
“Não me arrependo de não ter reagido para o homem, vai saber o que ele poderia ter feito. Prefiro nem imaginar. Mas na delegacia também, falava manso, eu devia ter reagido e perguntado se ele [o policial] não tinha entendido como era grave a situação”, se questionou.
Delegada esclarece situação
De acordo com a delegada Michele Rebelo, que assumiu o caso de Beatriz, a DPCAMI auxilia vítimas de diversos delitos, e que o boletim de ocorrência é só um relato superficial dos fatos, pois são poucos policiais para atender todas as demandas.
Michele comentou que, no decorrer da investigação, outro depoimento será tomado de Beatriz, e que será neste momento, na frente de um escrivão, que ela poderá contar todos os detalhes da ocorrência, em uma sala mais privativa, onde poderá também mostrar as fotos e os áudios recebidos.
“A gente orienta que seja mais superficial os detalhes no boletim porque ela vai ter que repetir tudo de novo num segundo momento, até mesmo para as outras pessoas não ficarem esperando”, comenta.
Quanto a o fato do policial ter repassado seu número pessoal para Dutra, a delegada diz que não é praxe, mas que ele pode ter feito isso para inserir os arquivos no sistema de maneira mais ágil.
Constrangimento ilegal/consumado
Ao salvar o boletim de ocorrência, o policial classificou como crime de “constrangimento ilegal/consumado”, e não assédio. A delegada esclareceu que o policial insere no BO o que ele acha ser correto, mas que quem instaura legalmente o a tipificação do crime é o delegado.
“É bem comum essa mudança de delito após o despacho”, resume a delegada. Agora, a investigação segue para encontrar o autor do crime, visto que outra ocorrência na mesma região já foi registrada na DPCAMI, e pode se tratar do mesmo indivíduo com tal modus operandi.
“Eu acho que ele entrega o cartão como um passo para cometer um crime”, defende Beatriz. Nesses casos, a delegada orienta que as vítimas podem se dirigir para qualquer delegacia, ou fazer o BO de sua residência, por meio da delegacia virtual.
A delegada finaliza lembrando que a orientação é para que “o atendimento da Polícia Civil seja feito com cautela e acolhimento. Temos uma ouvidoria para os casos de mau atendimento”. Os canais são os seguintes: pelo telefone (48) 3665-8097, pelo e-mail ouvidoria@pc.sc.gov.br ou pessoalmente, na Avenida Governador Ivo da Silveira, 1521, Florianópolis.
Denúncia nas redes
Para denunciar o caso e para que outras mulheres também não se calem diante da situação, Beatriz e sua mãe, a apresentadora da NDTV, Márcia Dutra, fizeram um vídeo para contar a história. Ele foi compartilhado nas redes sociais de Márcia.