Em entrevista exclusiva ao ND+, o companheiro da mulher russa, que vivia em uma casa abandonada em Jaguaruna, no Sul catarinense, revelou como conheceu a estrangeira, a relação dela com os três filhos, de 4, 7 e 10 anos, e o suposto motivo pelo qual ela veio para o Brasil. O homem preferiu não ser identificado.
Companheiro de mãe russa fala como era a relação dela com filhos em SC e chegada ao Brasil – Foto: Pedro Garcia/NDTVSegundo ele, os dois se conheceram há cerca de um mês em Criciúma, onde morava. “Descobri que ela estava vivendo em uma casa com os filhos em Jaguaruna. Conversei com o amigo do dono da casa para ficarmos até o dia 5, até arrumarmos um lugar. Prestava todo apoio. Levei as crianças para unidade de saúde para avaliar, estava vendo para matriculá-las na escola ”, contou.
Questionado se a mãe maltratava os filhos, o companheiro indaga a hipótese. “Está havendo um conflito cultural. Não compreendem a forma com que ela educa as crianças. Por exemplo, se você for para uma aldeia e querer colocar uma calça no cacique, vai levar flechada”, comparou.
SeguirA Polícia Civil instaurou um inquérito para apurar a denúncia de maus-tratos, bem como a denúncia de furto. As crianças estão sob os cuidados de uma família acolhedora e recebendo assistência do município. Já a mãe está vivendo em um quarto de hotel, custeado pela prefeitura, conforme o companheiro.
“Psicologicamente vulnerável”, diz companheiro
Ele relatou, porém, que a cidadã russa está bastante abalada com a situação. “Está psicologicamente vulnerável”, explicou. O homem conta que ela tem visto as crianças com frequência, após a autorização da Justiça, mas os dois têm sido afastados.
“Colocaram uma barreira entre nós e não sei o motivo, merecia uma explicação. Seria importante o meu apoio a ela neste momento. Sei como é estar sozinho numa situação dessas, sou natural de outro Estado também”, afirmou. O companheiro também alega que não está recebendo assistência.
Mãe nega maus-tratos
Em depoimento, a mãe das crianças negou que tratasse mal seus filhos e, com relação ao furto, disse que não pretendia subtrair a bicicleta, mas deixá-la como forma de garantir a compra de alimentos.
A Polícia Civil também encaminhou informações referentes a mulher estrangeira à Policia Federal. Ao ND+, a PF informou que ainda não recebeu, formalmente, nenhum ofício.
Vinda para o Brasil
Conforme ele, a companheira nunca deu muito detalhes da sua vinda para o Brasil. “Ela me disse por cima que se mudou para cá por conta do conflito com a Ucrânia. Tinha medo de criar os filhos lá”. Ele conta que os dois conversavam em inglês, e a estrangeira sabia falar apenas 50 palavras em português.
Chances de deportação são remotas, segundo especialista
O caso ainda segue em investigação e com algumas lacunas em aberto. Segundo a advogada Débora Pinter Moreira, mestre em Direito das Migrações Transnacionais e parecerista internacional, as chances de a família ser deportada são remotas. A palestrante explica que a deportação é um processo administrativo com requisitos próprios.
“Em tese, se for constado que a família, mesmo tendo entrado de forma regular no país, encontre-se irregular por ter extrapolado o tempo de permanência sem formular pedido de prorrogação, estaria preenchido o requisito para ensejar a deportação”, comentou.
Entretanto, Débora vê como improvável essa decisão. “Primeiro, porque a deportação, como todo processo, pressupõe direito ao contraditório e legítima defesa. Segundo porque, caso queiram aqui permanecer, podem solicitar por meio de um processo administrativo a sua permanência. Numa primeira análise, até mesmo amparo para pedido de refúgio eles poderiam ter”, explicou.
Segundo a advogada, as relações diplomáticas entre Rússia e Brasil de 1991 para cá, com o fim da União Soviética, sempre foram amistosas.
“A despeito da recente guerra entre Rússia e Ucrânia – embora tenham ocorrido alterações nas regras do comércio- no que tange ao turismo, não se verificaram alterações. A teor do acordo um cidadão russo tem direito a entrar no Brasil sem necessidade de prévio, com finalidade turística, por um período de até 90 dias, da mesma forma como se aplica ao cidadão brasileiro em viagem à Rússia. Assim, no momento da entrada, é necessário apenas a apresentação de um passaporte válido”, informou.
A reportagem tentou contato com a Embaixada Russa, mas até o fechamento da matéria não obteve retorno.
Permanência em abrigo
Segundo a especialista, as crianças podem seguir em abrigo caso seja constatado, por meio de um processo judicial, que a mãe não tem recursos mínimos para o sustento dos menores, nos mesmos moldes de qualquer processo de perda da guarda quando ocorre entre brasileiros. “Nesses casos, a justiça avalia se houve falta, abuso ou omissão da mãe em relação aos filhos”, afirmou.
Procurado pelo ND+, o Tribunal de Justiça de Santa Catarina informou que, como o caso tramita em segredo de justiça, não é possível fornecer nenhuma informação sobre o processo. O Ministério Público também acompanha o caso, mas preferiu não se manifestar para preservar a privacidade e intimidade das crianças.
Relembre o caso
As crianças russas foram encontradas na última quinta-feira (1º), em uma casa abandonada. A condição em que elas viviam foi considerada insalubre, porque estavam sem roupas e em condições mínimas de higiene.
O caso foi revelado após a mãe das crianças, que também é russa, furtar uma bicicleta no bairro Garopaba do Sul e deixá-la como forma de pagamento em um mercado no local, onde teria comprado alimentos.
Logo em seguida, a Polícia Militar descobriu a casa onde a mulher suspeita morava com os filhos e um companheiro brasileiro, que havia conhecido há cerca de um mês, em Criciúma, também no Sul do Estado.
O casal foi conduzido para a Delegacia de Tubarão. Eles foram ouvidos e liberados por “falta de elementos informativos”, segundo o delegado.