Novos relatos sobre creche em Florianópolis apontam ‘tortura’ em crianças com deficiência

Ex-professora conta que a medicação de criança com autismo era jogada fora pela diretora e criança com deficiência auditiva tinha seu aparelho retirado

Foto de Ana Schoeller

Ana Schoeller Florianópolis

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Novos relatos sobre o caso de uma creche em Florianópolis com suspeita de maus-tratos em crianças vieram à tona nesta terça-feira (5). Uma ex-professora da unidade e uma mãe denunciam “tortura” com duas crianças com deficiência, uma com autismo e outra com deficiência auditiva.

O Ministério Público instaurou notícia de fato para apurar o caso e a polícia ainda está colhendo os depoimentos de pais e professores, o que deve terminar apenas nesta quarta (6).

Há suspeitas de que o aparelho auditivo da criança com deficiência era retirado – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/NDHá suspeitas de que o aparelho auditivo da criança com deficiência era retirado – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/ND

De acordo com uma mãe, que pediu para não ser identificada, seu filho de apenas três anos tem deficiência auditiva. A criança utiliza aparelho auditivo, que era supostamente retirado pela diretora da creche particular Bem-me-quer. Além de negar o tratamento escolhido pelos pais, a diretora, supostamente, o xingava de diversas palavras.

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“Fui informada pela ex-professora que meu filho era chamado de sujo, porcalhão, burro e imbecil”, comenta a mãe, aos prantos.

A mãe explica que constantemente a criança estava com a orelha vermelha, segundo ela, motivada por tirar e colocar o aparelho “de qualquer jeito”.

A mãe conta ainda que um dia seu filho fez cocô nas calças e a professora teria batido nele com uma sandália. Os relatos, segundo ela, foram passados pela ex-professora que fez a denúncia para os pais. A criança não fala direito ainda, fato que dificultou para que a mãe soubesse dos acontecimentos.

“Ele apenas dizia ‘dodói’ e eu acreditava que era porque ele brincava muito. Ele adora brincar e crianças até podem acabar se machucando”, diz a mãe.

Intolerância à lactose

A mesma criança com deficiência auditiva também tem intolerância à lactose. De acordo com o site do Ministério da Saúde a intolerância à lactose é a incapacidade de digerir a lactose, o açúcar do leite. Esse problema pode causar dores de cabeça, desconforto abdominal, diarreias e vômitos, por exemplo.

Conforme a mãe, mesmo a escola sabendo que o filho possuía intolerância davam para a criança vitaminas com leite de vaca. A criança tinha diarreias e assim a mãe era chamada para buscar o filho na escola. Em casa, segundo a mãe, a criança não tinha tais reações, pois tinha alimentação diferenciada com restrição à lactose.

Sem medicação

De acordo com a denúncia da ex-professora, outra criança também passava por “tortura” nas mãos da diretora da escola. A criança com autismo teve, supostamente, seu medicamento negado por ela.

“Os remédios que os pais mandavam pra ele tomar eram jogados fora, pois ela dizia que ele cuspia nela quando tomava. Quando ele gritava, ela mandava ele calar a boca, gritava com ele e às vezes batia também”, conta a ex-funcionária.

O relato diz ainda que a criança tinha uma irmã mais nova na escola e, quando ela chorava, ele ficava agitado. Então a diretora dizia para a menina que ela não podia de jeito nenhum chorar. Ainda conforme a ex-professora, quando a irmã ameaçava chorar a diretora batia, puxava a orelha e mandava ela calar a boca para não agitar o menino.

Foto de criança cortada no rosto, a lesão teria sido supostamente feita pela diretora da Unidade – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/NDFoto de criança cortada no rosto, a lesão teria sido supostamente feita pela diretora da Unidade – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Conselho Tutelar já tinha feito visita

O Conselho Tutelar do Continente, responsável pelo caso, disse que essa denúncia chegou no ano passado. A primeira conselheira que atendeu foi até a escola e não conseguiu constatar nenhuma irregularidade. Isso porque, segundo o Conselho Tutelar, é preciso se identificar na portaria da creche.

“É muito difícil pegar no flagrante sem que haja alguma imagem antes. Dificilmente alguém que faz isso continua fazendo na hora que chegamos. Ainda assim, ela entendeu que deveria advertir a creche sobre o que aconteceu em dezembro do ano passado”, explicou o Conselho Tutelar.

De acordo com o órgão, nessa segunda-feira (4) pela manhã houve uma nova denúncia. Motivada pela denúncia, uma nova visita vai ser feita na creche nos próximos dias. A creche, porém, permanece fechada.

Novos vídeos devem ser enviados por uma mãe ainda nesta terça-feira (5) ao Conselho Tutelar, de acordo com o próprio órgão.

Uma equipe da Secretaria de Educação de Florianópolis esteve na unidade educacional na tentativa de fazer uma visita presencial nesta terça, mas a creche já estava fechada. A equipe fez fotos e vai emitir um relatório, para apurar as condições que essas crianças estavam sendo tratadas.

Funcionários também eram “maltratados”

De acordo com uma ex-professora da Unidade os funcionários em sua  maioria, incluindo ela e uma cozinheira, eram maltratados constantemente e o ambiente era de gritos e humilhações.

“Eu não consegui sair de lá antes pois não tinha para onde ir e precisava do emprego. Meu contrato de estágio nunca foi entregue, ou seja, não tenho uma prova documental que trabalhei lá”, explica a ex-professora.

De acordo com o relato compartilhado por uma das mães, a ex–professora se sente culpada por não ter feito nada na época, mas fez o que estava ao seu alcance e tentava manter seus alunos afastados da suposta agressora.

Ajuda do Estado

De acordo com o Conselho Tutelar, aqueles que eventualmente tiveram seus direitos violados têm direito à assistência do Estado. O órgão explica que por meio do Programa de Atendimento Individual Familiar é possível ter acompanhamento multidisciplinar com psicólogos e assistentes sociais gratuitamente.

O serviço pode ser acessado nos CREAS (Centros de Referência Especializados em Assistência Social), mas devem ser enviados pelos Conselhos Tutelares de cada região.

MP começa investigação e Polícia colhe depoimentos

O Ministério Público explica que recebeu uma representação e a partir dela instaurou uma notícia de fato, e agora vai apurar os fatos. No procedimento foi requisitado inquérito policial para apurar as denúncias de maus tratos.

O prazo é de 30 dias, contados da data do seu recebimento, prorrogável uma vez, por até 90 dias.

De acordo com o delegado Luiz Felipe da DPCAMI (Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso) até esta quarta-feira (6) serão ouvidos pais e professores da Unidade. O delegado não deu detalhes sobre os depoimentos até o momento.

Escola diz se tratar de “fake news”

Uma nota enviada pelo escritório de advocacia Koerich & Santos Advogados, que defende a creche, informa que por conta das “fake news” as atividades da escola foram suspensas temporariamente.

Confira o trecho do comunicado:

Considerando as “fake news” divulgadas nas redes socais e os efeitos que as mesmas causarão as atividades da escola, bem como, em face do efeito negativo de sua divulgação, e ainda considerando aos danos financeiros que referida divulgação causará ao regular desenvolvimento das atividades da escola, a direção viu-se obrigada a SUSPENDER TEMPORARIAMENTE as atividades das escola, até a apuração dos fatos, para identificação da parte que vem praticando os atos ilícitos, para retornar as atividades da escola. 

Vale ressaltar que a empresa trabalha desde o ano de 2016, prestando trabalho de excelência na área de educação infantil não possuindo registro de nenhuma suposta infração, prezando pelo excelente atendimento aos pais e alunos e atuando pessoalmente no atendimento e acompanhamento dos alunos.

Florianópolis, 03 de julho de 2022.
CRISTIANO WUNDERVALD KOERICH

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