‘Você não tem cara de que passou por isso’: o que é o estereótipo de ‘vítima perfeita’

"Vítima perfeita": Psicóloga, antropóloga e uma mulher vítima de violência explicam como a imagem de "mulher forte demais para passar por isso" dificultam o combate à violência

Foto de Ana Schoeller

Ana Schoeller Florianópolis

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“Eu tinha 17 anos quando tudo começou. Éramos namoradinhos de infância, todos adoravam ele e acreditavam que ele era o par perfeito. Eu também acreditei, sabe? Por um tempo, ele até foi, até que tudo aconteceu”.

Esse é o relato de *Patrícia, de 25 anos, moradora de Florianópolis, abusada sexualmente pelo ex-namorado ainda na adolescência. O que a jovem não esperava foi o tempo demorado para entender o que aconteceu. No entanto, infelizmente, ela não é a única.

'Vítima perfeita': 'você não tem cara de que passou por isso' - o que é o estereótipo Mulheres vítimas de violência são plurais; aponta pesquisadoras — Foto: Unsplash/Divulgação/ND

O crime é considerado “estupro conjugal” e está previsto na Lei Maria da Penha. Só para se ter uma ideia, dados do balanço “Ligue 180” de 2019 indicam que 0,5% dos estupros foram praticados pelo companheiro e 0,4%, pelo ex-companheiro.

No entanto, os índices podem ser subnotificados, pois 34,5% das vítimas não informaram quem foi o agressor, ou seja, os dados são maiores que os oficiais pelo número de mulheres que não denuncia.

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“A vítima perfeita”

Quando Patrícia falou pela primeira vez sobre o crime que sofreu com uma amiga, cerca de dois anos depois, escutou: “você não tem cara de que passou por isso. És uma mulher tão forte”.

“Isso me destruiu, não era o que eu esperava, mas de fato não contei antes porque sabia que isso tudo poderia acontecer”, relembra com dor.

Outro estereótipo descrito pela vítima é o do próprio abusador. O homem era membro de uma pequena igreja no interior de uma cidade e todos acreditavam que ele era um homem “do bem”. Ao relatar quem foi o autor do estupro, ouviu da mesma amiga que ela não acreditava. “Me desculpa, mas não acredito que ele fez isso”, disse a amiga de Patrícia na ocasião.

Patrícia crê que a amiga acreditaria se a história fosse narrada em um beco escuro, tarde da noite e, de preferência, com um homem desconhecido.

Conforme a psicóloga Maria Cláudia Goulart da Silva, especialista em violência doméstica pela Universidade de São Paulo, estas histórias ainda são muito comuns.

“Infelizmente ainda vivemos muito preconceito em torno desse tema. É ainda muito comum a avaliação das atitudes, comportamento, roupas, reação das mulheres, questionando se elas ‘provocaram’ tal ato ou mesmo se poderiam ter evitado”, conta a especialista.

Carmen Rial, antropóloga, professora e pesquisadora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), tem uma opinião parecida com a da psicóloga.

“A mulher passa por um raio-x  extremamente constrangedor para denunciar esse tipo de violência. Isso porque ela acaba sendo se sentindo culpada, embora vítima, porque a sociedade a culpa”, explica Rial.

Academicamente, o termo “vítima perfeita” é estudado como quando a sociedade julga uma mulher pela forma dela se vestir, falar ou se portar. Se espera, por exemplo, que a vítima seja frágil e esteja sempre chorando, e quando esta mesma mulher sorri, ou tem um alto cargo, o crime parece menos “merecedor de punição”.

'Vítima perfeita': entenda o que é o esteriótipo O termo nas universidades é estudado para entender a visão de “vítima perfeita” descrita pela sociedade – Foto: Unsplash/Divulgação/ND

Afinal, existe um perfil?

E existe um perfil? Segundo a psicóloga Maria Cláudia, não. “O perfil geral das vítimas é estar em situação de vulnerabilidade e isso por si só é independente muitas vezes da vontade da própria vítima”, explica.

“Vemos todos os dias casos de importunação sexual em transportes públicos, por exemplo. O agressor aproxima-se e comete o crime mesmo em local público e que deveria ser seguro. A única condição vulnerável neste caso, foi o fato de ela ser mulher”, completa a psicóloga.

Em 2013, a Pesquisa Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado definiu que a violência atinge diferentes tipos de mulheres, independente de idade, raça, região ou religião. No entanto, ainda segundo a pesquisa, a incidência é maior quando se trata de mulheres negras.

Conforme o estudo, a maioria dos agressores também são conhecidos, geralmente os próprios parceiros são os agressores. No Brasil, estima-se que cinco mulheres são espancadas a cada dois minutos; o parceiro (marido, namorado ou ex-companheiro) é o responsável por mais de 80% dos casos reportados.

Vítimas em todas as camadas da sociedade

A antropóloga, Carmen Rial, acrescenta que os casos acontecem em todas as camadas da sociedade, sejam elas ricas ou pobres. Para elas, todas as mulheres estão sujeitas a este tipo de violência.

“Isso está muito ligado a uma ideia de masculinidade. A sociedade está mudando, já existe uma crítica a padrões, mas ainda existe essa visão patriarcal de que o homem deve ser agressivo, dominador e forte sexualmente”, conta.

Segundo a pesquisadora, o ato sexual deve ser sempre consentido, caso contrário sempre será estupro.

Neste ponto, vale lembrar que a vítima entrevistada para esta matéria, *Patrícia, é uma mulher branca, de 25 anos, que mora em um bairro nobre de Florianópolis e frequenta lugares considerados “badalados” pela classe média alta.

“Eu nunca denunciei”

Patrícia nunca denunciou o crime sofrido. Segundo ela, seu ex-namorado não a estuprou apenas uma vez. Inclusive, após o término do relacionamento passou a mandar mensagens, esperá-la do lado de fora da sua sala da faculdade e tentar contato de diversas formas.

“Ele já namorava, e lembro que a namorada dele me perguntou o que aconteceu. Contei e ela também não acreditou em mim”, fala.

Para a psicóloga Maria Cláudia, cada vez mais os órgãos e instituições têm se voltado para essa discussão e procurado aprimorar os mecanismos para diminuir essa triste estatísticas, mas ainda há um grande caminho pela frente.

Vítima perfeita: o que é?Psicóloga aponta que apesar das mudanças, ainda há muito a ser feito  – Foto: PC/Divulgação/ND

“Locais como a delegacia especializada para mulheres, centros de referência para mulheres em situação de violência são preparados para este acolhimento. As mulheres devem ser incentivadas a denunciar, mas precisam se sentir seguras para fazê-lo. Precisamos melhorar muito nesse sentido”, finaliza.

Segundo Patrícia, há uma crença que rodeia os pensamentos dela de que não haveria como provar que houve estupro, principalmente, porque na época ele era seu namorado. Ainda de acordo com ela, mais de três pessoas para quem contou acharam que a história era falsa.

O crime aconteceu há nove anos, atualmente Patrícia tem depressão e usa remédios controlados.

* Patrícia é o nome fictício usado pela reportagem do ND+ nesta matéria. A reportagem optou em não usar o nome verdadeiro para a privacidade e segurança da vítima.  

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