“Nasci pescador e vou morrer pescador”, declara José Generoso da Silva. Aos 80 anos, hoje, 29 de junho, no Dia do Pescador e de seu padroeiro, São Pedro, um dos pescadores mais conhecidos na Ilha, Zeca, como é chamado por todos, relembra com orgulho sua vida nas águas do Canto Sul dos Ingleses, em Florianópolis.
Uma vida de muito trabalho e orgulho, abalada na segunda-feira (26). Zeca testemunhou todo o resultado de seu trabalho desmoronar diante de seus olhos, quando o rancho de pesca, local presente nas areias dos Ingleses há mais de 40 anos, foi consumido pelas chamas.
José Generoso da Silva, 80 anos, perdeu tudo no Ingleses – Foto: Leo Munhoz/NDEm apenas quatro minutos, tudo o que representava sua história e sustento, incluindo a canoa centenária de um pau só, a Nossa Senhora do Mar, que carregava memórias preciosas, desapareceu em meio ao fogo avassalador. De acordo com Zeca, a canoa tinha mais de 150 anos. Uma perda irreparável.
SeguirA tragédia que consumiu o rancho do Zeca ocorreu justamente em um dia mais do que especial para todos os trabalhadores da região, que comemoravam uma das safras recordes da história catarinense, com 40 mil tainhas capturadas em Naufragados. Mesmo dia em que a categoria também se reunia para reivindicar ampliação da cota de pesca anilhada de tainha neste ano.
“Eu tô ainda abalado. Com certeza não é fácil perder o que a gente tem desde criança, provavelmente faz mais de 40 anos que eu estou aqui nesse canto. Vim com uma canoa e uma rede de arrastão de praia apenas e fizemos uma sociedade de pescadores do Canto Sul dos Ingleses”, conta, ainda muito abalado pela perda.
Rancho de pescadores pega fogo nos Ingleses, na manhã desta segunda-feira (26) – Foto: Reprodução/NDCom os olhos marejados, Zeca lembra de um dos dias mais tristes de sua vida. “Foram noites perdidas, dormir longe de minha esposa, deixando a minha família em casa, para ter um galpão melhor. Faz três anos que reformei ele com a autorização das autoridades e o duro foi perder tudo em quatro minutos”, diz.
Jaison da Silva, filho de Zeca, relatou que o incêndio teve início em um botijão de gás que estava ao lado do fogão à lenha, dentro do rancho de pesca. Segundo ele, um dos pescadores tentou remover o botijão pensando que o gás havia acabado. O fogo, que já estava aceso no fogão à lenha, entrou em contato com o gás e acabou explodindo pouco tempo depois, resultando na tragédia que consumiu o rancho e todas as ferramentas de trabalho de Zeca e dos outros pescadores.
Reconstruir
A tristeza e a sensação de perda são profundas, mas Zeca, cheio de fé e esperança, juntamente com a comunidade de pescadores, família e amigos, espera reconstruir o rancho dentro de poucos meses.
O dano material deve superar os R$ 150 mil, já o dano imaterial jamais será recuperado.
“Tem coisa que nem me lembro que perdi. É incalculável. Mas sei que perdi minha rede de tainha, de mais de 450 metros; dinheiro meu e dos outros pescadores; celular; e a canoa. Já sou o quarto ou quinto que passou por ela. Material de pescador é muito caro e as pessoas muitas vezes nem imaginam”, relata.
Consciente da importância do local não apenas como um espaço de trabalho, mas como um refúgio de memórias e um símbolo da identidade de seu pai, Jaison está determinado a fazer com que Zeca veja o rancho novamente erguido o mais breve possível.
“Iniciamos uma vaquinha já na segunda-feira à noite e percebemos a ajuda de muitas pessoas. Mas o pix está mais forte, acho que é porque as pessoas confiam mais também”, diz Jaison.
Segundo ele, qualquer valor já ajuda. O pix está no nome de Jaison José da Silva, pelo CPF: 033.803.719-55. O valor também pode ser doado no site online “vakinha” ou em contato pelo número (48) 99142-1659.
“Tô bem mais calmo, tranquilo. Mas só vou me tranquilizar mesmo quando eu olhar o meu galpão novamente, reerguido com a ajuda da comunidade. Quero poder dar um abraço de carinho e amor em cada pessoa que está fazendo isso por mim”, reconhece.
Memórias de pescador
Neto e filho de pescadores, Zeca cresceu em meio ao ofício e escolheu viver da pesca aos 19 anos.
“Quando comecei na pesca era pequeno, por viver no meio dos meus pais. Depois, com 16 anos, uma irmã me levou para trabalhar no bar, depois em um restaurante do hotel. Mas depois eu vi que não queria isso pra mim, não fui criado nisso, e voltei para a minha pesca. Aos 19 anos, escolhi viver essa vida, mesmo sendo uma vida sacrificada, que eu sei que é. Passa sem dormir, sem comer, sente muito frio. E eles sabem que eu tô dizendo a verdade”, revela Zeca.
Zera coleciona histórias – Foto: Leo Munhoz/NDNascido em 1943, Zeca também presenciou um dos maiores lanços de tainha na modalidade arrasto de beira de praia da história da Ilha e de Santa Catarina. A data era 5 de junho de 1984, há 39 anos. “Mataram 85 mil tainhas contadas, mas não tem como saber. Era muito peixe”, relembra.
Jaison conta que tinha cinco anos na época, e se recorda do dia marcado até hoje na história catarinense. “Eu tenho memórias fotográficas, sabe? A gente morava aqui na praia ainda e minha mãe veio trazer café. Na hora, lembro que eu vim pela mão com ela e ali onde que ficou o peixe era uma montanha imensa que quem tava embaixo na praia não via quem tava em cima”, relata.
Ensinamento de vida
Com muita sabedoria, Zeca continua grato pela vida, pela saúde e por presenciar a generosidade de pessoas que nem conhece. Nesse Dia do Pescador, a mensagem que ele deixa é: “Amar o próximo como a si mesmo”
“O mais importante é a saúde. Não tem dinheiro nenhum que paga a vida da gente. A vida preciosa que tem que dar valor, que Deus deu para nós para desfrutarmos dela, manter amizade com as pessoas. É como eu sempre digo, amar ao próximo como a si mesmo e hoje eu estou sentindo que o meu próximo está me amando”, finaliza emocionado.