Menos de três dias após o resultado das urnas escrever história em Joinville, no Norte de Santa Catarina, a vereadora Ana Lucia Martins, do PT, precisou trocar as ruas pela delegacia. A primeira vereadora negra da maior cidade do Estado foi alvo de ameaças de morte em comentários nas redes sociais e prestou depoimento na tarde desta quarta-feira (18).
Ana Lúcia Martins é a primeira vereadora negra de Joinville, com mais de 3 mil votos – Foto: Redes sociais/Divulgação/NDUm perfil anônimo disparou diversos comentários racistas no Twitter e em um dos comentários faz menção ao assassinato da vereadora para que um suplente branco possa substituí-la na Câmara de Vereadores. Além de denunciar toda a situação nas redes sociais, Ana Lucia registrou boletim de ocorrência e foi ouvida na Dpcami (Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso).
“Nós tivemos a eleição de 19 legisladores e eu estou sofrendo esse ataque, somente eu estou sendo ameaçada, somente eu estou sendo impedida ou, estão tentando me impedir de exercer aquilo que é um direito e isso só tem um nome, é racismo”, fala.
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Ana Lucia denunciou os ataques em suas redes sociais – Foto: Redes sociais/Divulgação/NDCom mais de 3 mil votos, Ana Lucia foi a sétima mais votada para ocupar uma cadeira no Legislativo joinvilense e lamenta ser impedida de agradecer a confiança da população nas ruas e, ao invés disso, ser privada de seus direitos. “Isso é o racismo que atravessa estruturas, relações sociais, que faz com que determinados grupos se sintam autorizados e encorajados a impedir que uma mulher negra assuma um lugar de poder nessa cidade”, salienta.
A vereadora foi ouvida durante a tarde e ressalta que as pessoas precisam comemorar o momento histórico que vive a cidade, com a representatividade da mulher negra na Câmara de Vereadores. “É um momento histórico, será um momento histórico com a primeira vereadora negra eleita em Joinville. Isso deve ser comemorado pela cidade, para que a cidade entenda a importância dessa pluralidade, dessa representatividade, como sujeitos e sujeitas de direito, para estarmos em todos os espaços”, fala.
Ana Lucia prestou depoimento na tarde desta quarta-feira (18) – Foto: Alphonsus Stofelli/NDTVAna Lucia admite que esperava resistência à candidatura, mas não a ponto de ter sua integridade física ameaçada. “Nós esperávamos resistência, que tivesse uma crítica à nossa candidatura que, basicamente, visa a defesa dos direitos humanos, dos grupos mais invisibilizados, mais marginalizados na cidade, mas não imaginávamos a esse ponto”, diz.
O pedido da vereadora é pela identificação e responsabilização das pessoas envolvidas nos crimes. “ Amedrontar, ameaçar as pessoas para que elas desistam daquilo que é direito, é crime. Não somos nós que estamos fora do lugar, quem está fora do lugar são esses grupos que continuam impedindo que a democracia, a igualdade racial, a igualdade de gênero sejam realmente efetivadas nas nossas relações pessoais”, finaliza.
De acordo com a delegada Claudia Cristiane Gonçalves de Lima, a Polícia Civil instaurou um inquérito para investigar os crimes de injúria racial e ameaça contra a vereadora. Apesar disso, os autores não foram identificados até o momento.