Depois de notificar a loja Zara do Shopping Villa Romana, de Florianópolis, o Procon de Santa Catarina organiza novas diligências para prosseguir com a investigação, com o objetivo de identificar se o estabelecimento utiliza códigos para discriminação de clientes.
A suspeita se deu após a exposição do caso de racismo ocorrido no Ceará. De acordo com o diretor do órgão catarinense, Tiago Silva, as respostas solicitadas foram recebidas na sexta-feira (5), mas o caso ainda demanda apurações mais profundas.
Procon de SC notificou a loja Zara no Shopping Villa Romana, em Florianópolis – Foto: Divulgação/Procon SCNa ocasião, o Procon estabeleceu um prazo de dez dias para que a loja Zara de Florianópolis respondesse aos seguintes questionamentos:
Seguir- Que a Notificada informe se há algum código utilizado na loja para discriminar os consumidores;
- Que a Notificada informe se a loja utiliza a frase “Zara zerou”, e em caso positivo, em quais situações e por qual motivo;
- Que informe se há algum tipo de tratamento diferenciado para os possíveis clientes.
A loja respondeu ao Procon dentro do prazo, porém, o órgão ainda não irá tomar medidas oficiais sobre o caso.
“Responderam na sexta, está em mãos. Mas vou me manifestar apenas quando tiver outras diligências”, informa o diretor Tiago Silva.
Silva cita ainda a conclusão da investigação feita pela Polícia Civil do Ceará, que indiciou o gerente da loja pelo crime de racismo.
O Procon optou por não divulgar as respostas recebidas antes de concluir a investigação sobre o caso.
“É muito pouco, devo me manifestar daqui uns 10, 15 dias. Estamos buscando elementos, para saber se o que ocorreu no Ceará é um padrão. No momento, fazemos diligências e estudamos o inquérito da polícia que indiciou a empresa”, conclui o diretor do Procon de Santa Catarina.
A reportagem do ND+ tentou contato com a loja Zara do Shopping Villa Romana, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria. O espaço continua aberto.
Relembre a polêmica do código ‘Zara Zerou’
A Polícia Civil do Ceará abriu uma investigação contra a varejista, depois de uma delegada ser vítima de racismo em uma loja da marca em Fortaleza, capital do Estado.
O assunto ganhou repercussão nacional pela denúncia da delegada Ana Paula Barroso, que registrou um boletim de ocorrência após ter sido barrada na entrada da loja no dia 14 de setembro. Ela denunciou o gerente por racismo.
A mensagem “Zara Zerou” era transmitida pelo sistema de som para que a equipe ficasse em “estado de alerta”, explica o delegado-geral da Polícia Civil do Ceará, Sérgio Pereira, que ouviu de ex-funcionários da loja que havia orientações para identificar pessoas que “tivessem estereótipos fora do padrão da loja”, clientes negros e vestidos com “roupas mais simples”.
Lojas Zara são acusadas de utilizar padrão de código racista – Foto: Heitor Pergher“A partir daquele momento aquela pessoa não seria mais tratada como cliente, mas como uma pessoa nociva ao atendimento normal”, acrescenta.
“E, a partir dali, aquela pessoa deveria ser acompanhada de perto por funcionários”, detalhou Sérgio Pereira em entrevista coletiva.
A delegada Arlete Silveira, diretora do Departamento de Proteção a Grupos Vulneráveis, classificou a orientação como um “código de conduta de abordagem”.
“Quando chega alguém fora do perfil do consumidor da Zara, alguém diz Zara Zerou. É como se aquela pessoa deixasse de ser um consumidor para se tornar uma pessoa suspeita dentro do estabelecimento”, afirmou.
Indiciamento de gerente no Ceará
Com a conclusão das investigações da Polícia Civil cearense relacionadas ao inquérito policial que apurava o caso, ocorrido no dia 14 de setembro, em uma unidade da loja Zara em Fortaleza, o gerente foi indiciado pelo crime de racismo.
O suspeito indiciado no artigo 5º da Lei de Crimes Raciais – por recusar, impedir acesso a estabelecimento comercial, negando-se a servir, atender ou receber cliente ou comprador.
As imagens analisadas pela Perícia Forense do Estado do Ceará e pelo Departamento de Inteligência Policial demonstram a atitude discriminatória do suspeito.
Durante o curso das investigações, além das imagens captadas, a Polícia Civil tomou depoimentos de oito testemunhas, além da vítima e do suspeito.
Entre as pessoas ouvidas, está uma mulher negra, de 27 anos, que relatou, em redes sociais, ter passado por situação semelhante, no final do mês de junho deste ano, na mesma loja.
Ainda foram ouvidas duas ex-funcionárias do estabelecimento que relataram episódios de assédio moral e procedimentos discriminatórios na forma de atendimento a possíveis clientes.
Também foram ouvidos três seguranças do shopping onde a loja funciona, bem como o chefe de segurança do local, que voltou à loja com a vítima minutos após a expulsão.
O material visual obtido por meio do circuito interno da loja revela o tratamento diferenciado dado pelo funcionário da loja à vítima.
Nas imagens, é possível ver quando a vítima é expulsa do local, quando minutos antes, o mesmo funcionário atendeu uma cliente que, mesmo não consumindo nenhum alimento, não fazia o uso correto da máscara.
A cena foi observada em outras situações onde outros clientes também não foram retirados da loja ou abordados para que utilizassem a máscara de forma correta.
O que a Zara diz sobre o caso
Na ocasião em que o Procon de Santa Catarina notificou a loja do Shopping Villa Romana, de Florianópolis, a administração informou ao ND+ que o posicionamento seria feito pelos representantes nacionais da varejista e que a franquia catarinense não tem um parecer oficial.
A Zara Brasil emitiu uma nota sobre o caso em que diz que não teve acesso ao relatório da autoridade policial até sua divulgação nos meios de comunicação e afirmou que vai colaborar com as autoridades para “esclarecer que a atuação da loja durante a pandemia se fundamenta na aplicação dos protocolos de proteção à saúde, já que o decreto governamental em vigor estabelece a obrigatoriedade do uso de máscaras em ambientes públicos”.
Após a publicação de uma reportagem pelo UOL sobre as investigações do “alerta”, a varejista negou “a existência de um suposto código para discriminar clientes”. A marca diz, ainda, que conta com mais de 1.800 pessoas “de diversas raças e etnias, identidades de gênero, orientação sexual, religião e cultura.”
“Zara é uma empresa que não tolera nenhum tipo de discriminação e para a qual a diversidade, a multiculturalidade e o respeito são valores inerentes e inseparáveis da cultura corporativa. A Zara rechaça qualquer forma de racismo, que deve ser combatido com a máxima seriedade em todos os aspectos”, finaliza a nota.