A vida de Jesus Cristo não é assunto exclusivo da religião. A História, por meio do método científico e baseada em documentos, também se ocupa de investigar sua vida. Entretanto, os estudiosos do chamado Jesus “histórico” vêm sofrendo perseguições na internet.
É o caso de Juliana Cavalcanti, especialista em História do Cristianismo e professora da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. Nos últimos meses, ela passou a ser ameaçada de morte, ataques que inspiraram o repúdio de professores da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).
Ameaças foram feitas por meio do chat do Instagram – Foto: Montagem/NDAs primeiras ameaças foram feitas no dia 18 de abril. Foi quando mensagens do tipo “sabemos onde mora”, “vai pagar por falar que Moisés não existiu” [em referência a um vídeo feito pela pesquisadora] e “consequências vão chegar”, acompanhando fotos de armas, passaram a bombardear no chat do perfil utilizado pela professora no Instagram.
SeguirPor meio dos perfis, criminosos exigem que ela exclua o canal do Youtube, criado há dois anos, em meio à pandemia. É por meio da plataforma que Cavalcanti divulga estudos referentes ao Cristianismo Antigo, que compreende o período entre os séculos I e IV. Nas gravações, ela divulga ao público mais de dez anos de pesquisa sobre o tema.
Em um dos vídeos mais visualizados, por exemplo, ela questiona a traição de Judas – textos originais e cartas de Paulo evidenciariam erros de tradução, acompanhados de um processo de “alargamento de memórias e tradições” encabeçado por evangelistas entre os anos 80 e 90 do primeiro século, que contribuíram para criar a imagem do Judas “impuro”.
“Para o Cristão da década de 50 não há Judas e nem traição”, explica Juliana; “Até os anos 70, ou 75, os cristãos viveram sem a narrativa da traição”. Questionar a história de Jesus com o método científico, em oposição ao Jesus “da fé”, tem incomodado.
Historiadora registrou boletim de ocorrência – Foto: Montagem/ND“Vida virou de cabeça pra baixo”
Três perfis masculinos passaram a revezar ameaças de morte, inclusive de decapitação, enquanto outros passaram a xingá-la periodicamente. As intimidações também foram destinadas ao marido de Cavalcanti. “São dias difíceis”, desabafa. A ansiedade trouxe insônia, tornando necessário tomar remédios para dormir. “Parei na emergência e com medo de sair”.
“O meu conteúdo não fere ninguém. Eu só falo do ponto de vista da documentação”, defende a pesquisadora. Além de pesquisadores, a comunidade de seguidores é formada por agnósticos, ateus e, inclusive, católicos. “Eles contam que até voltaram para a religiosidade. A história tem teoria e método. A religião tem fé”, diferencia.
A professora registou um boletim de ocorrência na 20ª DP (Delegacia de Polícia do Rio de Janeiro). Agora ela aguarda o avanço das investigações. A Polícia Civil pediu o envio de informações para a empresa responsável pela rede social.
Solidariedade
A pesquisadora recebe apoio de entidades vinculadas à pesquisa de História. “Felizmente estou abraçada pela comunidade”, conta. Para a GTAH (Grupo de Trabalho em História Antiga da Anpuh), que inclui também professores da UFSC, esses grupos de ódio “buscam restaurar sistemas morais e de costumes anacrônicos, que orgânica ou inorganicamente, se associam ao momento violento e reacionário que o País vive há meia década”, informou em nota.
“Tem muita gente que não aceita esse método histórico. Que não pergunta o que foi e como foi escrito, perguntas que são fundamentais para o método”, afirma Fábio Augusto Morales, professor de História Antiga da UFSC. Ele integra o Mitrah (Laboratório de História Antiga Global).
A controvérsia em torno do tema não surpreende tanto. Isso porque o número de pesquisadores que estudam o “Jesus Histórico” cresceu expressivamente desde os anos 2000. “Até então, Jesus era tema principalmente da teologia. Surgiram mais vozes para um debate antigo. A controvérsia é normal”, explica.
Somado a isso, há o surgimento de grupos mais intolerantes dentro das religiões, como cristãos que se associam a grupos de ódios. “Eles veem a pesquisa histórica como sintoma da ‘decadência da cultura”, explica o professor.
“A Bíblia, na história, é uma fonte como qualquer outra. Escrito em um período e por muitas mãos. Interpretamos como um texto escrito por um filósofo ou um político”, afirma. “Tem gente que não aceita esse método histórico e afirma que o texto ‘não tem contradições e fala a verdade absoluta’ . E aí não dá, é contra o método”.