“Eu fui abusada pelo meu ex-padrasto, que era marido da minha mãe, e eu me senti muito mal comigo mesma”
“O meu psicológico começou a fica abalado. Ele estava sempre xingando, falando palavrões, deprecidando, daí veio também a agressão física”.
Os relatos acima mostram que a violência doméstica é complexa e dolorosa não apenas para as mulheres vítimas, mas também para os filhos e enteados delas, que muitas vezes também vivem uma rotina de agressões e abusos. Só no primeiro semestre de 2021, foram contabilizados quase 25 mil registros de violência contra crianças e adolescentes no país, ou seja, ao menos 136 casos por dia, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Ainda segundo o levantamento, nos primeiros seis meses do ano passado, SC liderou os casos de maus-tratos e de lesão corporal contra crianças e jovens de 0 a 17 anos em uma análise que somou informações de doze estados brasileiros. Ao todo, foram 784 notificações de maus-tratos e 638 de lesão corporal dolosa praticados no Estado. As principais vítimas são do sexo feminino e têm pele branca.
Santa Catarina também encabeça o ranking de uma triste realidade. O Estado alcançou o segundo lugar entre os que registram as maiores taxas de estupro de crianças e adolescentes entre 0 e 17 anos (77,8) ficando atrás apenas do Mato Grosso do Sul (189,4). A taxa aumentou 5,5%, quando comparada com o primeiro semestre de 2020. Em números absolutos, foram 1.282 ocorrências de estupro e estupro de vulnerável contra pessoas nesta faixa etária.
O Estado também ocupou a segunda posição na lista de estados em que há os maiores índices de exploração sexual contra crianças e adolescentes. Com taxa de 1,2 por 100 mil habitantes, o Estado ficou novamente atrás apenas do Mato Grosso do Sul, com 4,0, no período analisado.
É preciso estar atenta
Para Ana Maria*, não conseguir verbalizar os abusos cometidos pelo padrasto era motivo de muita angústia. “Eu me odiava por não conseguir contar pra minha mãe e pro meu pai”, diz a menina.
Segundo a coordenadora das DPCAMIs (Delegacias de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso) em Santa Catarina, delegada de polícia Patrícia Zimmermann D’Ávila, é de extrema importância que os pais e responsáveis legais fiquem atentos às mudanças comportamentais dos filhos que possam indicar algum tipo de abuso.
“Geralmente as crianças e adolescentes não têm condições de denunciar sozinhos os abusos sofridos. Muitas vezes eles são ameaçados pelos agressores e isso faz com que mantenham o silêncio, mas geralmente apresentam mudança comportamental. As pessoas devem acolher a criança e procurar ajuda (denunciar) quando tiverem alguma suspeita de que esteja ocorrendo o abuso”, alerta a coordenadora das DPCAMIs.
Projetos oferecem novas perspectivas de vida às vítimas da violência
A fisioterapeuta e equoterapeuta Ana Beatriz integra o Projeto Liberdade e trabalha com adolescentes vítimas de violência sexual. A iniciativa busca uma forma de conexão com a natureza como suporte ao tratamento por meio da equoterapia. Com o auxílio de cavalos, é feita uma abordagem interdisciplinar nas áreas de saúde, educação e equitação para o tratamento emocional. Nos encontros, as meninas recebem acolhimento e tentam expressar as emoções reprimidas.

“O fato de estar guiando, liderando o cavalo traz a analogia de que elas podem guiar e liderar as próprias vidas”
Neuropsicopedagoga e psicanalista, Andréia Brandão Garcia destaca a evolução emocional e comportamental das meninas, que rotineiramente chegam traumatizadas pelas violências sofridas.

“Elas chegam muito tímidas, não querendo falar nada, instrospectivas, mal convervam umas com as outras. A gente foi construindo uma relação. Hoje elas são mais animadas. Gostam de brincar, criaram um vínculo em grupo, o que as fortalecem, porque elas sabem exatamente o que cada uma viveu e compreendem as dores umas das outras”
É o caso de Ana Maria, que vê na terapia semanal um resgate de vida. “Eu fiquei muito empolgada quando soube que viria pra cá. Nao achei que iria gosta tanto, que ia achar um motivo para me alegrar. Eu fico esperando a semana toda porque é algo que realmente me faz muito bem”, vibra.
Da interação com os animais para o resgate da autoconfiança por meio das mãos, do artesanato, o projeto Elo de Marias faz com que vítimas de violência domésticas se transformem em artesãs.
O projeto é uma via de mão dupla em que o artesanato gera a inclusão no mercado de trabalho, já que muitas vítimas são impedidas de trabalhar e a renda extra entra como fonte de ânimo e recurso para a realização de novas peças. Todo esse processo traz motivação, autoestima e independência.
“O preenchimento do tempo motiva bastante a gente a participar de feiras e ajudar outras mulheres que têm problemas com o marido e que podem ganhar algum dinheiro”, explica Rebeca, vítima de violência doméstica e participante do Elo das Marias.
Veronice Ramos, uma das fundadora do coletivo, explica como o dinheiro arrecadado com os artesanatos e as feiras se revertem em auxílio às mulheres vítimas de agressão doméstica.
O dinheiro está sendo arrecadado e vamos reservar para as mulheres que entrarem para o projeto terem um aporte financeiro mínimo. Nós temos, na verdade, três braços de atuação no projeto: a dignidade menstrual, o artesanato na realização de feiras e na confecção, e o último, e muito importante, o grupo reflexivo”
Redes de apoio e acolhimento em Santa Catarina
No Sul do país, mesmo com o saldo negativo durante a pandemia no que diz respeito às denúncias e rede de apoio a vítimas de violência doméstica, Santa Catarina é referência em ações de combate a este tipo de violência e de estímulo à denúncia.
“Podemos dizer que estamos muito bem nesta questão porque há estados onde realmente é caótico. Aqui em Santa Catarina temos uma rede de apoio e proteção formada por Ministério Público de Santa Catarina, OAB-SC, Polícias Militar e Civil e Defensoria Pública. Nós trabalhamos em conjunto”
Além dos números 180 ou 181 como canais de denúncia, há também um número de aplicativo de troca de mensagens disponível: contatos são: Telefone para denúncia:
(48) 98844-0011.
Há outros caminhos de combate e denúncia. Em 91 municípios do Estado, existem os CREAS e os CRAS – Centros de Referência e especialização de Assistência Social que prestam amparo a essas mulheres. Também há os centros de atenção psicossocial (CAPS). Para as migrantes vítimas de violência, os aeroportos têm postos de atendimento e há também o núcleo do gênero na casa do migrante.
Dentro das 31 Delegacias de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso, existem também, em algumas cidades, espaços chamados de “Salas Lilás”, que têm o intuito de oferecer atendimento personalizado.
“Nós temos as salas lilás, que oferecem atendimento personalizado, ou seja, disponibilizam uma equipe exclusiva atender a mulher vítima de violência doméstica com as presenças de um delegado, um escrivão e um agente. O espaço ampara toda a situação flagrancial e oferece meios se essa mulher precisa de medida protetiva ou tem dúvidas sobre medidas judiciais”
E não para por aí. Projetos inclusivos, que restabelecem a autoestima e a independência financeira são algumas das iniciativas de integração dos Poderes para diminuir os casos de violência contra crianças e mulheres todos os anos. Ações nacionais que geram resultados positivos motivando outras mulheres a denunciar. É sobre isso que a próxima reportagem da série especial Palavra de Mulher irá tratar.
REPORTAGEM e produção: AMANDA SANTOS • Pré Produção: Vitorya Navegantes • IMAGENS: MARCELO FEBLE e JACSON BOTELHO • Edição de texto: Reginaldo de Castro • EDIÇÃO DE VÍDEO: MARCOS OLIVEIRA • Edição de arte: Lucas Rezende • EDIÇÃO DIGITAL: LUIS DEBIASI e LUCIANA BARROS