Quatorze dias depois da chacina que matou os três integrantes da família Tuneu em Alfredo Wagner, na Grande Florianópolis, o IGP (Instituto Geral de Perícias), Polícia Civil e Militar trabalharam na reconstituição do crime na tarde desta quinta-feira (22).
Perto das 13h30, os agentes deram início à simulação dos fatos antecedentes ao triplo homicídio ocorrido no dia 9 de agosto e que chocou a pequena cidade de pouco mais de 9 mil habitantes. A perícia durou três horas e foi encerrada às 16h37.
Agentes do IGP e policiais participam da reconstituição na casa da família em Alfredo Wagner – Anderson Coelho/NDSob o olhar atento de vizinhos e imprensa, as autoridades se encontraram em frente à delegacia de polícia. Perto das 12h30 o principal suspeito de cometer o crime, Arno Cabral Filho, 44 anos, chegou escoltado por quatro agentes do Deap (Departamento de Administração Prisional).
SeguirDetido no presídio regional de Lages, na Serra catarinense, desde o dia do crime, o comerciante dono de uma agropecuária não quis descer da viatura e, orientado por advogados, se recusou a participar da simulação.
Enquanto os órgãos de segurança se organizavam para dar início aos trabalhos, moradores assustados se amontoavam próximo à delegacia. Muitos conheciam tanto as vítimas quanto o réu. Um comerciante que rotineiramente jogava dominó e baralho com Arno chegou a dizer que não imaginaria um crime como o que acontece na cidade. Para ele que, por medo, não quis se identificar, a cidade já foi considerada uma das mais seguras e pacatas do país, sofre agora com o crime.
“A gente agora anda assustado com tudo isso. O pior foi matar a criança. Se tinha razão ou não, essa coisa de matar por causa de dinheiro não tá certa nunca”, disse.
Os peritos deram início à reconstituição dos fatos no local em que o argentino Carlos Alberto Tuneu, 67 anos, foi assassinado. Morador de Alfredo Wagner há aproximadamente oito anos, o proprietário da fazenda de 75 hectares estava a cerca de um quilômetro de distância do sítio.
Carlos foi encontrado ao lado do veículo com um corte na testa e, segundo as investigações, foi abordado por Arno, desceu do carro e teria sido atingido pelo mesmo objeto que vitimou a esposa e o filho minutos antes.
A reconstituição do crime foi uma das diligências complementares determinada pelo juiz Edson Alvanir Anjos de Oliveira, da comarca de Bom Retiro. Ao aceitar a denúncia do Ministério Público, feita com base no inquérito policial entregue quatro dias depois do crime, o magistrado tornou Arno réu no processo e adicionou três qualificadoras; meio cruel, motivo fútil e impossibilidade de defesa das vítimas. A expectativa da Polícia Civil é de que o júri popular aconteça ainda este ano.
Bloqueio na estrada para trabalhos das autoridades
A estrada de chão foi bloqueada e, no local, os poucos vizinhos da localidade Águas Frias de Dentro precisaram esperar a liberação. No caminho entre a residência da família, ao menos 20 construções podiam ser avistadas em meio às plantações de milho e cebola.
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O produtor de cebolas Nilton está assustado. Vizinho da família assassinada, o homem de 65 anos aguardava o fim da perícia para voltar ao trabalho. Desde que o crime ocorreu, ele passa no local em que Carlos foi encontrado e relata que o sangue da vítima ainda está visível.
Ao lado do agricultor, a esposa dele Jucelina contava sobre a relação que tinha com os evolvidos no crime. “O Arno tomava chimarrão com ele [marido]. A mulher e o menino eu sempre via. Eles eram bem quietos e foi uma tristeza. Ter que passar na estrada e ver a poça de sangue me doí o coração”, diz a mulher.
Reconstituição sem a presença do réu
Durante a perícia, o réu ficou dentro da viatura do Deap. Em um momento, os advogados da defesa abriram o porta-malas do carro em que Arno estava e conversaram. Minutos depois, o veículo foi fechado e o homem permaneceu sentado na viatura durante o restante da ação. No local, os agentes recriaram a cena da morte e o momento em que a vítima foi encontrada. A imprensa ficou cerca de 50 metros do local e, de longe, viu a movimentação.
Momento em que advogados falam com o réu na viatura do Deap – Anderson Coelho/NDA segunda parte da reconstituição ocorreu no interior da casa. Lá, agentes tentavam desvendar a ordem cronológica das mortes que ocorreram no interior da residência. A paranaense Loraci Matthes, 50 anos, teria sido a primeira vítima da chacina. Ela foi encontrada às 12h30 pelo funcionário da família, Lorival Schäffer, 56 anos, caída próximo da porta de saída. O corpo da vítima estava parcialmente enrolado no tapete da sala.
Segundo o agente Vanderlei Kanopf, responsável pela investigação do caso, Arno teria coberto Loraci para que ninguém a visse do lado de fora da casa. A testemunha que participou da reconstituição estava na propriedade no momento do homicídio, mas não ouviu e viu movimentação da casa. “É horrível voltar aqui e ver a cena oura vez. Muito triste”, disse Lorival.
Ao lado da mulher, os policiais localizaram o corpo do pequeno Mateo Tuneu, filho do casal de apenas oito anos. A criança que nasceu no Paraná e foi naturalizada argentina, vestia o uniforme escolar e, assim como a mãe, estava coberta de sangue e com ferimentos no crânio.
Todos os dias da semana, a rotina da mãe e filho se dividia em almoçar e aguardar a chegada do ônibus escolar que levaria o pequeno até a Escola Básica Silva Jardim, no centro de Alfredo Wagner.
Comida no forno
Na cozinha conjugada, Kanopf diz que encontrou comida no forno ainda quente. Na sala de estar, a mochila da criança estava pronta para mais um dia de aula. Para a polícia, a distância de aproximadamente seis metros entre os corpos levanta a hipótese de que ambos tentaram fugir. Loraci pela porta da frente e o menino no acesso que dá no fundo do terreno. No laudo cadavérico, o IGP atestou que politraumatismo seria a causa da morte de todas as vítimas.
Dívidas motivaram assassinato
No dia da visita do IGP, seis dias depois da chacina, além de quatro armas de fogo sem documentação, a Polícia Civil encontrou um caderno preto com aproximadamente 50 páginas de informações sobre dívidas. Entre elas, policiais encontraram um débito de R$ 50 mil em desfavor de Arno, que seria o motivador do crime. Ainda, um termo de compromisso assinado por Arno garantia o pagamento de R$ 7 mil ao argentino no mesmo dia em que o crime ocorreu. A dívida seria em decorrência de venda de gado.
Uma semana antes da chacina, Arno havia sido ameaçado e registrou um BO (Boletim de Ocorrência) contra o Argentino. A informação que a polícia forneceu é de que Carlos havia dito que “acabaria com a família de Arno”, caso o comerciante não pagasse o débito. “O livro foi enviado para a perícia para atestar a assinatura, mas tudo indica que foi isso que motivou o crime”, disse Kanopf ao fim da simulação.
Localizada a 111 quilômetros da Capital catarinense, Alfredo Wagner tem hoje cerca de 9 mil habitantes e, mesmo fazendo parte da Grande Florianópolis, respira ar de interior. Por lá, as negociações informais, venda de gado e fiado são comuns. Segundo Lorival, não era a primeira vez que Arno e Carlos fizeram negócio e a relação dos dois era próxima. “Aqui é assim mesmo. Um vende para o outro e aqui é na palavra”, disse.