Refrigerante oferecido aos bombeiros estava com corpo no freezer, diz polícia

Socorristas atuaram nas buscas por Valdemir Hoecler, de 52 anos, que foi encontrado morto e congelado no freezer da própria casa em Lacerdópolis, no Meio-Oeste

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Redação ND Chapecó

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Um refrigerante que foi oferecido aos bombeiros que atuavam nas buscas por Valdemir Hoeckler, de 52 anos, estava no freezer onde foi congelado o corpo do homem, em Lacerdópolis, no Meio-Oeste de Santa Catarina. Os socorristas passaram dois dias na Linha São Roque, interior do município e almoçaram na casa da viúva.

Corpo estava congelado em freezer na própria casa. – Foto: Carlos Correa/NDTV/MontagemCorpo estava congelado em freezer na própria casa. – Foto: Carlos Correa/NDTV/Montagem

“Eles levaram marmitas, mas um vizinho que também estava ajudando nas buscas, pegou refrigerante e água do freezer onde estava o corpo para oferecer aos bombeiros”, relata o delegado Gilmar Bonamigo, responsável pelo caso.

Segundo o delegado, no domingo antes do desaparecimento, o vizinho que ofereceu o refrigerante aos bombeiros e a esposa dele almoçaram na casa de Valdemir e Claudia Tavares Hoeckler, de 40 anos, viúva e suspeita do crime.

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“O vizinho disse que no domingo viu que o freezer estava vazio e na quarta-feira viu que ele estava cheio. Ele desconfiou, mas achou que era uma loucura da cabeça. A esposa dele, que estava ajudando a fazer comida para as pessoas que ajudavam nas buscas, teve o acesso ao freezer restringido pela viúva”, acrescenta Bonamigo.

O corpo foi encontrado na noite do sábado congelado dentro do freezer. As buscas por Valdemir iniciaram na terça-feira (15) nas redondezas do local onde teria desaparecido após sair de casa para trabalhar. Policiais militares, Corpo de Bombeiros, moradores e voluntários participaram, porém, o homem não havia sido encontrado.

Na sexta-feira (18), a esposa da vítima foi até a Delegacia de Polícia Civil prestar depoimento. Segundo Bonamigo, algumas lacunas ficaram em aberto, sem respostas plausíveis.

“Em seu depoimento, a mulher de Valdemir consentiu e autorizou a realização de perícia no interior da sua casa para a noite de sábado (19). No entanto, horas antes da perícia chegar ao local, a polícia tomou conhecimento de que a esposa da vítima havia fugido. Alguns moradores informaram que a casa havia sido trancada como nunca havia ocorrido antes”, disse o delegado.

Diante dos fatos, a polícia começou a acreditar de que o corpo poderia estar ocultado na própria casa. Após iniciar as buscas, o corpo de Valdemir foi encontrado congelado no interior do freezer.

Mulher confessa que matou o marido

Claudia afirmou que decidiu tirar a vida do companheiro por não suportar mais ser agredida, perseguida e humilhada pelo homem. Em entrevista ao canal no YouTube do roteirista Roberto Ribeiro, ex-apresentador do Programa Investigação Criminal, a mulher confessou o crime, deu detalhes de como matou o marido, bem como da vida do casal. Ela cita que vivia uma pressão psicológica constante no casamento.

“Ele não me deixava fazer nada, simplesmente eu não tinha vida própria. Eu não podia sair com as amigas. Eu ia ao salão fazer o cabelo e tinha que sair com o cabelo molhado, porque ele estava me enchendo o saco por estar demorando. Tinha que correr contra o tempo, a minha vida sempre foi sob pressão”, afirmou Claudia.

Ainda de acordo com a mulher, Valdemir exigia que ela mandasse fotos e fizesse videochamada para confirmar onde estava quando tinha compromissos do trabalho à noite. “Não podia me arrumar para essas ocasiões, porque não eu ia ta me arrumando para outro”.

Os gatilhos para o crime

Claudia diz que não planejou o crime, apesar de estar descontente com as constantes perseguições do marido e das diárias agressões físicas e morais. Dias antes, segundo ela, o marido apareceu repentinamente em uma confraternização com colegas professoras em uma pizzaria, o que lhe deixou incomodada.

“Ele tinha me dito que ia ficar em casa, fiz uma chamada de vídeo alguns momentos antes e, de repente, ele apareceu lá na pizzaria. Fiquei bem chateada, ficou como se eu não tivesse contado a ele. Mostrei todos os meus passos para ele, fui relatando tudo”.

No domingo (13), momentos antes de matar o marido, Claudia pediu a ele se poderia viajar com colegas professoras para uma excursão.  “Ele me bateu e disse que se eu fosse ele ia me buscar e me matar. Ele disse: se eu acordar e você não estiver em casa, eu mato você”, conta. “Aí eu pensei, se alguém vai morrer, que seja você”.

Sacola plástica para matar

Claudia, que nasceu em Chapecó, mas cresceu em Concórdia, contou na entrevista que fez o marido dormir com um remédio que o sogro, que já faleceu, tomava. “Dei remédio para dormir e o sufoquei, foi tudo repentino. Dei com os outros remédios que ele tomava duas vezes ao dia”.

Ela conta que ficou por cerca de uma hora pensando no que ia acontecer quando o marido acordasse e com medo de apanhar novamente. “Fiquei pensando que eu não aguentava mais aquela vida que eu estava levando”.

Então, sem planejar muito, usou uma sacola plástica para matar o companheiro. “Na hora peguei a sacola de mercado e coloquei na cabeça dele, porque eu não tinha coragem de fazer de outro jeito, machucar. Fechei a boca dele, que não chegou a acordar”.

A mulher diz que tentou parar em alguns momentos, mas sentiu medo e por isso seguiu em diante. “Se eu parasse e ele acordasse, ele ia me matar, aí era eu ou ele”.

A mulher diz que tentou parar em alguns momentos, mas sentiu medo e por isso seguiu em diante. “Se eu parasse e ele acordasse, ele ia me matar, aí era eu ou ele”.

Prisão temporária

Justiça de Santa Catarina determinou, na segunda-feira (21), a prisão temporária de Claudia. O pedido foi decretado pela juíza Flávia Carneiro Paris, da comarca de Capinzal, que, em regime de plantão, também autorizou a quebra do sigilo telefônico e o acesso aos dados de Claudia.

Claudia chegou na delegacia em um carro e acompanhada de vários advogados – Foto: Carlos Correia/NDClaudia chegou na delegacia em um carro e acompanhada de vários advogados – Foto: Carlos Correia/ND

Em nota à imprensa, a Justiça de SC disse que o crime apurado se trata, em princípio, de homicídio qualificado por meio que dificultou a defesa do homem, já que ele foi encontrado com uma lesão na nuca. A esposa comunicou o desaparecimento do marido no dia 15 de novembro.

“A segregação temporária da representada, neste momento, possibilitará também a melhor elucidação dos fatos, pois impedirá que a representada crie embaraços para a apuração da prática criminosa, especialmente para esclarecer os motivos e as circunstâncias do crime e eventual participação de terceiros”, discorre a magistrada na decisão.

A prisão temporária tem o prazo de 30 dias, prorrogável por igual período em caso de extrema e comprovada necessidade. O processo tramita em segredo de justiça.​ Claudia prestou depoimento na manhã desta terça-feira (22).