Segurança que agrediu cliente em supermercado é indiciado em Florianópolis

Segurança foi indiciado por lesão corporal; crime de injúria racial teria sido descartado pela polícia por falta de provas

Foto de Felipe Bottamedi

Felipe Bottamedi Florianópolis

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O segurança que agrediu um estudante no supermercado BIG em janeiro deste ano, em Florianópolis, foi indiciado por lesão corporal. O crime de injúria racial, levantado pela defesa da vítima, foi desconsiderado no inquérito concluído na última sexta-feira (31).

O caso ocorreu na unidade do supermercado BIG localizada no shopping Iguatemi, no Itacorubi.

O segurança prestava serviços por meio de uma terceirizada. O supermercado se manifestou por meio de nota e informou que interrompeu os serviços com a empresa de segurança e afirmou repudiar “qualquer violência e desrespeito”.

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Renan Rodrigues foi agredido dentro de supermercado em Florianópolis – Foto: Divulgação/NDRenan Rodrigues foi agredido dentro de supermercado em Florianópolis – Foto: Divulgação/ND

Na ocasião dos fatos, Renan Rodrigues, 25 anos, foi ao supermercado após terminar o expediente da loja de produtos naturais onde trabalhava, localizada no mesmo shopping.

Ao sair do local, ele foi abordado pelo segurança, que o segurou violentamente pelo braço e o carregou para dentro da loja. Renan foi acusado pelo segurança de supostamente roubar carne e por “formação de quadrilha”.

O jovem levou uma ‘chave de pescoço’. Suas roupas ficaram rasgadas e seus pertences jogados no chão, até que uma pessoa teria pedido para o segurança parar.

Investigação

Segundo o advogado de Renan, Eduardo Herculano Vieira de Souza, a investigação se baseou no boletim de ocorrência aberto por Renan na ocasião dos fatos. Foram analisadas também imagens de câmeras que registraram o momento da agressão, assim como um exame de corpo de delito que atestou as lesões no corpo dele.

Conforme Herculano, duas testemunhas que presenciaram o fato apresentaram relato semelhante ao da vítima. O suposto furto, negado desde o início pelo jovem, não foi identificado pela investigação.

Durante o curso dos depoimentos, Renan e o seu advogado defenderam a prática de injúria racial por parte do segurança, uma vez que Renan é negro. A injúria é considerada crime, com pena prevista de um a seis meses de prisão mais multa.

Porém, o crime não foi levado em consideração no inquérito. Segundo o próprio advogado, como o segurança não verbalizou nada que indicasse a injúria, não houve prova nesse sentido.

“Inobstante a manifestação do próprio Renan tratando dos aspectos silenciosos, inconsciente ou não, que legitimaram o segurança a investir contra a integridade física e dignidade do violentado, são situações difíceis de prova, que não foram verbalizadas de forma explicita. Entretanto, não significa que não tenha ocorrido, são também formas de linguagem silenciosa”, disse o advogado por meio de nota.

Procurado pela reportagem, o delegado Attilio Guaspari Filho confirmou o indiciamento, mas não quis se manifestar sobre o caso.

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Universitário entrará com pedido de indenização

Com o inquérito finalizado, o advogado da vítima entrará com pedido de indenização. Será solicitado que o mercado, a empresa terceirizada em que atuava o segurança e o próprio profissional indenizem a vítima.

“Em face disso, o Renan vem tendo inúmeras dificuldades em seu âmbito de trabalho, haja vista ficar próximo ao local dos fatos e receio de represálias ao sair do trabalho”, afirmou o advogado.

O inquérito foi encaminhado ao Poder Judiciário e e está em análise no Ministério Público. Até a manhã desta terça-feira (5), o órgão ainda não tinha se manifestado. O processo corre em segredo de Justiça.

Contrapontos

A reportagem não conseguiu contato com o segurança para ouvir a versão dele, uma vez que o homem ainda não possui advogado. Já o supermercado BIG se manifestou por meio de nota. Confira na íntegra:

“O BIG informa que, assim que tomou conhecimento do ocorrido em 7 de janeiro na loja de Florianópolis (SC), interrompeu os serviços prestados pela equipe terceirizada da loja na qual o segurança envolvido trabalhava e adotou as medidas cabíveis com relação à terceirizada. O Big repudia veementemente qualquer ato de desrespeito e violência.

A empresa entrou em contato com o cliente que passou por essa lamentável situação, colocando-se à disposição para toda assistência necessária e reforça os sinceros pedidos de desculpas a ele.

O BIG enfatiza que são princípios fundamentais de sua atuação o respeito ao próximo e aos valores éticos e morais.”

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