Os relatos chamam a atenção e chocam. Em trecho de um Boletim de Ocorrência registrado na Polícia Civil, uma mãe conta que “o professor propôs às meninas da turma que quisessem ‘melhorar a nota’ que dançassem para ele, sendo que ele trancaria a porta para terem mais privacidade”. A descrição da cena faz parte de uma investigação que corre em sigilo em São Francisco do Sul, no Norte de Santa Catarina. Ao menos três famílias procuraram a Polícia Civil denunciando casos de assédio em uma escola do município.
Pais procuraram a Polícia Civil, que investiga o caso em sigilo – Foto: Reprodução Google Maps/DivulgaçãoAinda segundo os boletins de ocorrência feitos na última semana, os casos aconteciam há semanas. Além de sugerir dança para que as alunas melhorassem de nota, o professor teria assediado uma aluna que estava com o pé machucado. “Estava sentada em um banco, onde o professor sentou ao seu lado e começou a alisar sua coxa de forma inconveniente”, diz trecho do relato dado e registrado em um dos boletins.
Os pais relataram, ainda, outros casos de constrangimento, como buzinas quando as alunas estavam sozinhas e elogios aos corpos que motivaram, inclusive, a mudança na maneira de se vestir de uma das alunas, que “passou a ir de moletom folgado para a escola”.
SeguirRelatos de negligência e afastamento do professor
O advogado Pedro Mira representa as famílias e conta que foi procurado pelas famílias para denunciar os casos de assédio dentro da escola e, apesar de até o momento três famílias terem registrado boletim de ocorrência, a suspeita é de que o número aumente no decorrer das investigações. “Há indícios de que 10 meninas entre 11 e 15 anos foram assediadas pelo professor”, diz.
Mira reforça, ainda, que houve negligência no tratamento do caso. Segundo ele e os relatos das famílias, os casos foram reportados, mas a Secretaria de Educação demorou para tomar uma atitude. “Para mim, há um fato grave. A Secretaria tinha conhecimento da situação há mais de uma semana e as autoridades competentes não tinham sido acionadas. Há indícios de que nem mesmo o Conselho Tutelar foi acionado dessa situação”, salienta.
As alunas denunciaram os casos de assédio à direção da escola. Segundo o município, uma aluna procurou a direção da escola no dia 18 de março e fez a primeira queixa. No dia 25, um grupo de alunas retornou à direção e reforçou a queixa. Então, a diretoria encaminhou o caso à Secretaria Municipal de Educação, que abriu um processo administrativo no dia 28 e afastou o professor, que tem 65 anos. Além das denúncias das alunas, a direção da escola encaminhou atas de reuniões com os pais das adolescentes.
“Com isso, encaminhamos a informação para a Procuradoria Geral do município, para receber orientações de como proceder. O professor foi chamado para apresentar a sua versão e encaminhamos a situação para abertura de Processo Administrativo (PAD). Logo que a Secretaria de Educação recebeu a denúncia, afastou o professor em questão. Agora, com a abertura do PAD publicado no Diário Oficial, ele está afastado por tempo indeterminado pela sindicância, até que os fatos sejam apurados. Após a abertura do PAD, encaminhamos um ofício para o Conselho Tutelar informando sobre a denúncia”, informa o município por meio de nota.
O caso é investigado pelo delegado Fábio Fortes, que apenas confirmou que “existe uma investigação para apuração dos fatos”. Como a investigação envolve adolescentes, todas as informações são mantidas em sigilo.