A voz rapidamente fica embargada e as lágrimas brilham nos olhos e no rosto de Andreza Custódio Silva ao lembrar da irmã e de tudo o que ela perdeu no último ano. “Eu tive um filho agora e ela nem pôde ver o sobrinho”, lamenta.
Casal se conhecia desde a infância e morava junto há cerca de quatro meses – Foto: Reprodução/FacebookA morte de Gabriella Custódio Silva completa um ano em meio à dor da ausência e da espera por justiça. A jovem de 20 anos foi morta com um tiro no peito.
O então companheiro dela, Leonardo Natan Chaves Martins, 21 anos, foi denunciado pelo Ministério Público pelo crime de homicídio com a qualificadora de feminicídio (em contexto de violência doméstica ou por situação de gênero). Ele é acusado, ainda, de fraude processual.
SeguirApós o disparo, o rapaz a colocou no porta-malas do carro, a deixou no hospital e saiu, se apresentando mais tarde à polícia. Leonardo continua preso preventivamente.
Pandemia adia julgamento
Mesmo um após o crime, o julgamento ainda não tem data marcada. “É bem difícil, principalmente nesta data que acaba sendo mais pesada. Desde que aconteceu é tudo muito complicado e esse julgamento está correndo cada vez mais. Isso parece que acaba machucando mais”, conta Andreza.
A data do júri foi alterada três vezes pela Vara do Tribunal do Júri de Joinville por conta da pandemia. Ainda não há previsão para que o julgamento, de fato, ocorra.
As imagens de Leonardo tirando o corpo de Gabriella do porta-malas do carro e a deixando em um hospital de Pirabeiraba, em Joinville, no Norte de Santa Catarina, ainda estão vivas na memória da família. “É horrível. É um sentimento de injustiça”, lamenta.
O casal se conhecia desde a infância. Por isso, o crime chocou tanto os familiares.
“Eles estudaram juntos na escola. O relacionamento era normal, natural, eles eram amigos desde a infância. Depois que eles começaram a namorar, ele agia estranho, não estabelecia muito contato, mas não era um desconhecido. Eu jamais poderia esperar isso”, completou.
Gabriella Custódio Silva tinha 20 anos e foi morta com um tiro no peito; companheiro alega que o tiro foi acidental – Foto: Divulgação/Polícia MilitarGabriella e Leonardo moravam juntos fazia quatro meses. A irmã conta que a jovem pouco falava sobre o relacionamento dos dois com a família.
Defesa contesta qualificadora
Preso desde 9 de agosto, Leonardo Natan Chaves Martins alega que o tiro foi acidental. “Nós vamos buscar o homicídio culposo. Ele não teve a intenção de matar, mas tem que responder por alguma coisa, pois não tinha que estar com aquela arma. Disparou, a vida de uma pessoa se foi. Ele deve responder, mas conforme determina a lei”, defende um dos quatro advogados, Jonathan Moreira dos Santos.
Para sustentar sua tese, Jonathan usa como argumento a afirmação de um dos peritos do caso de que a versão apresentada por Leonardo seria “a mais aproximada da verdade”.
A defesa alega que Leonardo tentou salvar a vida de Gabriella. A ausência dele durante as tentativas de socorro também é justificada. Segundo o advogado, Leonardo teria saído para buscar documentos em casa e foi orientado pelo pai, Leosmar Martins, a sair da cidade.
Leosmar também chegou a ser denunciado pelo crime, mas foi assassinado em fevereiro.
O IGP (Instituto Geral de Perícias) e a equipe da Delegacia de Homicídios de Joinville realizaram a reconstituição dos fatos – Foto: IGP/DivulgaçãoDepois de deixar Gabriella no hospital, Leonardo e o pai foram para São Francisco do Sul. A investigação identificou que pai e filho jogaram a arma do crime no Canal do Linguado. O celular de Gabriella também desapareceu.
A defesa entrou com habeas corpus no STJ (Superior Tribunal de Justiça) com o intuito de libertar Leonardo. O recurso, no entanto, ainda não foi apreciado pelos desembargadores.
Inquérito
Responsável pelo inquérito, o delegado Elieser Bertinotti não tem dúvida quanto ao crime de feminicídio. A investigação iniciou em 23 de julho e foi concluída com o indiciamento de Leonardo. Apesar do esforço da polícia, a arma do crime e o celular da vítima nunca foram encontrados.