‘Um verdadeiro dossiê’: empreendedora cria serviço para combater golpes em apps de namoro

De acordo com a psicóloga, Vanessa Gebrim, geralmente esses golpistas são pessoas com um perfil manipulador

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Redação ND Florianópolis

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Um homem conhece uma mulher, ou vice-versa, em um aplicativo de relacionamento, troca mensagens e em seguida eles marcam um encontro. Ao chegar ao local, o homem ou a mulher são sequestrados por um grupo armado. E o que seria um momento especial, se transforma em um pesadelo que pode durar dias. A vítima sofre tortura psicológica e algumas vezes até física enquanto têm suas contas esvaziadas.

Mulher cria verdadeiro “dossiê” para não cair em furada em apps de namoro — Foto: Pexels/Divulgação/NDMulher cria verdadeiro “dossiê” para não cair em furada em apps de namoro — Foto: Pexels/Divulgação/ND

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) afirma que mais de 90% dos sequestros registrados em São Paulo são feitos a partir de relacionamentos formados por perfis falsos criados em aplicativos como o Tinder ou Inner Circle.

Atenta a essa realidade, Sabrina de Cillo, detetive particular, formada em Comunicação Social e Direito, teve a ideia de criar o SPC do Amor (Serviço de Proteção ao Coração — Investigações), uma ferramenta digital que fornece o relatório completo sobre uma pessoa, tais como antecedentes criminais, números de telefone, endereços, patrimônios, se tem filhos, estado civil, processos judiciais, comprovação de renda lícita, dentre outros dados. “É um verdadeiro dossiê para que as pessoas saibam se estão caindo em um possível golpe”, declara Cillo.

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Alguns dossiês chegam a ter mais de 100 páginas e para ter acesso ao documento basta fornecer o nome completo da pessoa, CPF ou número de telefone.

Cillo ressalta que o serviço serve também para casais que estão se relacionando e que desconfiam estar sendo extorquidos pelo parceiro. Essa é uma das modalidades mais comuns, onde o golpista manipula emocionalmente sua vítima para lhe enviar dinheiro, presentes ou informações pessoais.

“No ano passado fornecemos mais de 40 relatórios desse tipo e mais da metade eram pessoas que estavam tentando aplicar o golpe do Tinder. Conseguimos evitar que 23 pessoas caíssem na lábia desses infratores/golpistas”, revela Cillo.

Golpes do amor são amplos

Segundo uma pesquisa realizada pelo Dfndr lab em 2022, laboratório especializado em segurança digital da PSafe, uma em cada cinco mulheres já foi vítima de golpes ou ameaças virtuais. Além disso, 75% das entrevistadas relataram ter muito medo de terem suas informações e intimidades vazadas.

De acordo com a psicóloga e especialista em Psicologia Clínica pela PUC- SP, Vanessa Gebrim, geralmente esses golpistas são pessoas que têm um perfil manipulador e prática de colher o máximo de informações possíveis para cometer os crimes.

O modus operandi geralmente segue um roteiro padrão – Foto: Pexels/Ilustrativa/Reprodução/NDO modus operandi geralmente segue um roteiro padrão – Foto: Pexels/Ilustrativa/Reprodução/ND

“Eles têm no seu repertório emocional a arte de estabelecer relações com a dó, a caridade, a piedade ou, no outro sentido, pela ganância. Ou seja, ou é o coitadinho ou é o esperto. Mas o ponto em comum desses tipos sentimentais é que ele sensibiliza a vítima para obter vantagem”, alerta Vanessa.

Ela acrescenta ainda que é fundamental, ao estabelecer contato com perfis no ambiente virtual, suspeitar sobre solicitações de valores financeiros, pagamentos de contas ou transferências para não cair em golpes.

“É muito comum no golpe de romance a pessoa pedir dinheiro para o pagamento de viagens, de forma que os encontros virtuais possam acontecer pessoalmente. Para não cair nesses golpes o ideal é não passar informações pessoais”, complementa Vanessa.

Mayra Cardozo, especialista em Direitos Humanos, Penal e stalking também alerta que abusadores e estelionatários geralmente “moram longe” e cultivam na vítima o anseio pelo encontro, mas mantendo um distanciamento presencial para que permaneça a idealização.

“Os golpistas enchem a vítima ‘de amor’ até que elas estejam apaixonadas. A partir de então executam as manobras financeiras. Muitas vezes sugerem uma viagem a dois e, para isso, solicitam o cartão da vítima ou pedem ajuda financeira para alguma coisa. Os golpistas “mais aperfeiçoados” geralmente passam a imagem de ricos e milionários e dão desculpas de que o cartão não passou por algum motivo específico, por exemplo”, explica.

Mayra reforça que abusadores elaboram “jogos” de manipulação até que a vítima ceda. Em casos de forte resistência, eles ameaçam terminar o relacionamento virtual porque estão “chateados” em razão da desconfiança das vítimas.

O modus operandi geralmente segue um roteiro padrão: após conseguirem o que querem, eles bloqueiam a vítima e desaparecem deixando um rastro de angústia e de traumas emocionais e patrimoniais”, conta.

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