Por volta da meia-noite de 1º de dezembro do ano passado, o representante comercial Maurício Laub, de 47 anos, conta que viveu momentos de terror.
Ele tentou pegar uma corrida ao desembarcar no Aeroporto Internacional Hercílio Luz, em Florianópolis, e foi brutalmente agredido por um suposto motorista de aplicativo. A Polícia Civil prendeu o agressor nesta terça-feira (8).
Maurício conta que foi brutalmente agredido por um suposto motorista de aplicativo – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação/ND“Parecia uma situação de MMA, só que apenas eu apanhava.” Ao solicitar uma corrida, o aplicativo não estava conectando. Ele, então, foi até o primeiro carro que estava estacionado em frente ao saguão do aeroporto. “Perguntei: ‘o senhor é Uber?’ e ele respondeu que sim”, lembra Maurício.
SeguirAo dizer que o aplicativo não estava funcionando, o motorista informou que ali “o teto era baixo”, mas mais adiante haveria conexão. Ainda no aeroporto, depois de cerca de um minuto e meio, a vítima pediu para conectar o aplicativo para definir a tarifa da viagem, que seria até o bairro Campeche.
A partir disso, o suposto motorista se transformou “em um animal de briga”. Ele teria apresentado quatro formas de pagamento e Maurício se sentiu extorquido.
Ao pedir para retornar ao saguão, o representante comercial diz que foi arrancado do carro, jogado no chão, levou chutes por todo o corpo e chegou a chorar de dor.
“Tive lesões no pulso, estou com seis parafusos. Ele dilacerou a cabeça do rádio e meu metacarpo também sofreu uma lesão. Passei dois meses sem movimentar minhas mãos, fiquei totalmente inabilitado para trabalhar e fazer funções normais como dirigir, cozinhar, qualquer coisa”, desabafa.
Pedido de ajuda
Na sequência, Maurício implorou para o agressor parar. O motorista, então, arrancou o carro e fugiu. O representante saiu correndo com as malas e voltou ao saguão pedindo socorro.
A vítima e seu advogado, Wagner Andrade, afirmam que o aeroporto foi negligente e não teve apoio de nenhum funcionário.
A vítima passou por cirurgias e ficou com os braços engessados – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação/ND“Peço ajuda, ninguém se move, ninguém chega perto de mim. Falei para esse senhor que trabalha no aeroporto: ‘amigo, me ajuda, por favor. Chama a polícia!’. E ele respondeu ‘não vamos chamar a polícia, você tem que se acalmar’, e ficou agressivo”, lembra a vítima. “Foi uma completa negligência.”
Na terça (8), o aeroporto de Florianópolis informou ao ND+ que a administradora atua junto aos órgãos de segurança do Estado para coibir o transporte irregular no aeroporto. Ressaltou, ainda, que a concessionária “não tem poder de polícia”.
Além disso, recomendou que os passageiros não usem o transporte irregular e registrem casos de abordagem deste tipo na delegacia da Polícia Civil presente no aeroporto.
Questionada pela reportagem do ND+ nesta quinta-feira (10), a administradora do Floripa Airport, Zurich Airport Brasil, se posicionou, por meio de nota, afirmando que é um caso isolado e que não há registro de procura ou acionamento da equipe.
“A concessionária acrescenta que, de maneira geral e para os mais diversos tipos de atendimento, as equipes da Floripa Airport estão sempre prontas para acolher e atender os passageiros e visitantes com excelência, inclusive com o encaminhamento ao ambulatório do aeroporto, se for necessário”, afirmou.
Também disse que a concessionária dispõe de monitoramento completo por meio de câmeras “com amplitude em todo terminal de passageiros e que funciona plenamente”.
Agressão ocorreu no Aeroporto Internacional de Florianópolis em dezembro de 2021 – Vídeo: Arquivo pessoal/Divulgação/ND
A Uber foi procurada para se posicionar sobre o caso na manhã desta quinta-feira (10), e retornou nesta sexta (11) por meio de nota, informando que “a oferta de viagens fora da plataforma configura uma violação aos Termos e Condições de adesão ao aplicativo”.
Como os dados do suposto motorista não foram revelados pela polícia para preservar a investigação, a Uber não pôde verificar se ele está cadastrado na plataforma. A nota na íntegra está no final da reportagem.
Descaso do aeroporto
Sem conseguir ajuda de funcionários, Maurício diz que precisou ligar para o pai, de 78 anos, para ser socorrido. “Ele teve que ser meu enfermeiro. Fui lá para visitar e ele teve que cuidar de mim”, conta a vítima, que mora no Rio de Janeiro.
Segundo o advogado Wagner Andrade, a Floripa Airport não prestou auxílio a Maurício desde a agressão. Além disso, reitera que não foi um fato isolado e que há outras denúncias.
“O aeroporto disse que deu todo o apoio, mas não. Desde o primeiro momento que ele buscou ajuda a um funcionário, logo em seguida às agressões, ele foi rechaçado, escorraçado. O aeroporto não deu suporte algum, não acompanhou, não quis saber”, reforça.
O delegado Renan Scandolara, da Dptur (Delegacia de Proteção ao Turista), que lidera as investigações, informou que dois inquéritos foram abertos envolvendo o mesmo suspeito. Um relacionado à agressão sofrida por Maurício; o outro é sobre uma extorsão denunciada por um casal de turistas.
Outras denúncias
A Polícia Civil disse que não pode divulgar mais detalhes para não prejudicar o andamento das investigações, mas o advogado da vítima garantiu que não foi um fato isolado.
Segundo ele, outras denúncias ocorreram no aeroporto ao longo dos últimos meses. Além disso, ele aponta que a concessionária deveria dar um suporte de segurança aos passageiros, já que toda a agressão ocorreu no local.
“O aeroporto também oferece resistência aos nossos pedidos das imagens das câmeras do saguão que mostram ele pedindo ajuda”, diz Andrade.
Maurício desabafa: “Eu fui a ponta do iceberg. As agressões anteriores dele foram dentro do aeroporto. Isso já tinha vindo e explodiu em mim, só que eu não fui o único”.
A vítima também questiona a “abertura que o aeroporto deu para pessoas como essa poderem extorquir turistas, visitantes e moradores”. “É um absurdo o aeroporto não definir controle sobre esse tipo de pessoa”, finaliza.
A orientação da polícia é que usuários de transportes terrestres, como táxis e aplicativos de transportes, tomem cuidados ao solicitar os serviços, especialmente em terminais de grande movimentação, como aeroportos e rodoviárias.
Confira a nota da administradora na íntegra
O procedimento do aeroporto é trabalhar em sinergia constante com os órgãos de segurança, municiando-os do que for necessário para coibir o transporte irregular no aeroporto e acionando-os, em caso de necessidade. Ressalta-se, inclusive, que a operação realizada na última terça-feira é fruto desta parceria de inteligência. Reiteramos ainda que a administradora do aeroporto não tem poder de polícia.
O aeroporto dispõe de delegacias da Polícia Federal, Polícia Civil e posto da Polícia Militar.
Quanto ao acolhimento, para esta ocorrência específica, que é um caso isolado, não há registro de procura ou acionamento das nossas equipes. A concessionária acrescenta que, de maneira geral e para os mais diversos tipos de atendimento, as equipes da Floripa Airport estão sempre prontas para acolher e atender os passageiros e visitantes com excelência, inclusive com o encaminhamento ao ambulatório do aeroporto, se for necessário.
Com relação às câmeras, a concessionária dispõe de um ambiente de monitoramento completo, com amplitude em todo terminal de passageiros e que funciona plenamente. Conforme a regulação da aviação civil, a liberação de imagens em qualquer ambiente do aeroporto só pode ser feita por demanda policial ou por meio judicial.
Reforçamos para que os passageiros não utilizem transporte irregular e que registrem boletim de ocorrência em caso de abordagens de motoristas do transporte irregular.
Veja a nota da Uber na íntegra
Com relação à matéria veiculada pelo Portal ND+ nesta quinta-feira (10/2) sob o título “Agredido por motorista, passageiro relata terror e descaso do aeroporto de Florianópolis”, não foi possível verificar se o suposto motorista do caso relatado seria cadastrado no aplicativo porque, até o momento, não foram fornecidas à empresa informações suficientes para checar.
A Uber reitera que todas as viagens necessariamente só podem ser realizadas por meio do aplicativo, onde o usuário solicita um carro ao toque de um botão e recebe, via app, informações do motorista parceiro que vai buscá-lo, como nome, foto, além de modelo e placa do veículo. Dessa forma, qualquer viagem feita fora desses padrões não é uma viagem de Uber e, portanto, não dispõe das diversas ferramentas de tecnologia e processos de segurança oferecidas pela plataforma, nem é coberta pelo seguro de acidentes pessoais durante viagens na plataforma.
É importante ressaltar que a oferta de viagens fora da plataforma configura uma violação aos Termos e Condições de adesão ao aplicativo. Temos equipes e tecnologias próprias que constantemente analisam viagens suspeitas para identificar violações aos Termos e Condições e, caso comprovadas, banir os envolvidos.
Vale lembrar também que todos os motoristas parceiros da Uber passam por uma verificação de antecedentes criminais antes de ter acesso à plataforma, que inclui a checagem em bases de dados públicos de todo o Brasil. É importante frisar que nosso entendimento de segurança vai além desta verificação inicial, com diversas camadas de tecnologia em todas as etapas da viagem. Como exemplo, ao longo do trajeto, é possível compartilhar, em tempo real com qualquer pessoa, o caminho sendo feito e o horário de chegada. A Uber também possui a ferramenta U-Código, em que o usuário pode optar por receber uma senha de quatro dígitos, que deve ser dita ao motorista para que ele consiga iniciar a viagem no aplicativo, confirmando que os dois estão na viagem correta.