VÍDEO: Grávida é içada de helicóptero às vésperas de dar à luz no RS; ‘Sentimento de incerteza’

16/05/2024 às 11h38

Lurdes Barbosa Gonçalves, que estava grávida, acabou ilhada com a família em uma farmácia em Eldorado do Sul, no Rio Grande do Sul

Foto de Vivian Leal

Vivian Leal Rio Grande do Sul

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Quem cresceu com a casa invadida pelas águas do Lago Guaíba não imaginou que as chuvas que atingiram o Rio Grande do Sul, entre o fim de abril e início de maio, dariam início a maior catástrofe climática da história do Estado.

Lurdes, que estava grávida, o marido e as duas filhasA vendedora Lurdes Barbosa Gonçalves, de 21 anos, é mãe de três meninas e foi criada no bairro Sans Souci — Foto: Arquivo Pessoal/Cedido/ND

A vendedora Lurdes Barbosa Gonçalves, de 21 anos, é mãe de três meninas e foi criada no bairro Sans Souci, na cidade de Eldorado do Sul, na Grande Porto Alegre.

Desde criança, perdeu as contas de quantas vezes viu a mãe chorar e refazer o lar onde moravam. No último dia 4 de maio, foi a vez dela, grávida de 39 semanas, sair às pressas antes da água tomar conta.

“Até dia 10, era o prazo máximo para eu ganhar a bebê. Quando as chuvas começaram, meu marido falou que não iria ficar comigo em casa porque moramos atrás do Rio. Na quinta-feira, ele me convenceu a ir para casa da minha irmã, levamos máquina, geladeira, fogão”, relembra.

O marido, Jessé Gomes da Silva, de 24 anos, foi atrás de um barco para realizar o resgate da família e foi com a ajuda de um vizinho que eles tentaram deixar a área, mas sem sucesso.

“No sábado, às 8h30, a água começou a chegar na frente de casa e meu marido começou a levantar as coisas, mas a gente ficou ilhado. Às 9h, a água já estava dentro de casa, na altura da canela”, conta Lurdes.

Poucos metros à frente, precisaram sair da embarcação, que não conseguiu vencer a força da correnteza. A família acabou desembarcando em outro endereço, um prédio de dois pisos, onde ficava uma farmácia.

Grávida precisou ser içada de helicóptero

O pânico da situação fez com que Lurdes tivesse uma elevação na pressão arterial, algo preocupante, especialmente, no avançado estágio da gestação.

Foi quando o marido e as funcionárias da farmácia começaram a sinalizar para os helicópteros que passavam pela região. Ao mesmo tempo, a central de operações da Polícia Rodoviária Federal, repassava o chamado de que uma grávida precisava de resgate.

O helicóptero onde estavam os operadores aerotáticos Gerson Pagano Galli e Lucas Plentz, junto do comandante Toshio Nagano, e do copiloto Daniel Dias, deslocou imediatamente para o local onde Lurdes esperava o resgate.

“A gente estava muito preocupado com a chegada da noite porque já estava escuro e não fazemos resgate nessas condições. Além disso, o lugar ainda era bem apertado, confinado, tinha fiação elétrica atrás, muros dos lados”, relembra o policial Galli.

“Não foi algo simples, teve todas essas dificuldades a mais. A gente tentou fazer o resgate dela no pairado, mas ela não conseguia nem ficar de pé”, completa ele.

Foi então que os agentes resolveram utilizar a técnica de McGuire, em que a vítima é colocada em uma maca e, posteriormente, içada pela aeronave.

Local do resgate era bem apertado, tinha fiação elétrica atrás e muros dos lados — Vídeo: Arquivo Pessoal/Cedido/ND

“A gente se afastou, procurou um local para pouso e decidiu usar uma maca envelope, é uma maca portátil. Vesti o equipamento nas costas, a aeronave me içou e me colocou na sacada onde a Lurdes estava. A gente colocou ele na maca e içou ela também. Foi um momento difícil de colocar ela deitada, fazer toda amarração na maca, garantir que está tudo certo e depois, em voo, cuidar para não ir em direção à fiação ou aos telhados ao redor”, relata o agente Plentz, que realizou o resgate direto.

Lurdes percorreu alguns quilômetros pendurada a 300 metros de altura do chão, até haver um local seguro para pouso.

“Só lembro que eu desmaiava, voltava e o Lucas falava ‘tá tudo bem, tá tudo bem’. Minha pressão estava alta, eu tava com medo e, mesmo assim, eles estavam mantendo a calma e tentando me acalmar”, conta.

A equipe conseguiu parar em uma área seca de Eldorado do Sul e transferir a gestante para o interior da aeronave.

No vídeo que mostra o resgate, é possível ouvir o desespero dos moradores que acompanham tudo — Vídeo: Arquivo Pessoal/Cedido/ND

De lá, ela foi levada para o hospital de Canoas para receber atendimento de urgência. Graças ao auxílio dos agentes da Polícia Rodoviária Federal e dos médicos que a atenderam, a pressão de Lurdes foi estabilizada e ela teve alta no dia seguinte.

A pequena Isabela veio ao mundo

A família, que estava na farmácia, foi resgatada e levada até Porto Alegre, onde permanecem, até hoje, na casa de familiares.

No sábado seguinte, dia 11 de maio, a pequena Isabela veio ao mundo, com 3.025 kg e 48 centímetros.

Bebê Isabela aparece em foto após nascimentoIsabela veio ao mundo no sábado seguinte ao resgate da mãe — Foto: Arquivo Pessoal/Cedido/ND

Lurdes e o marido não retornam a Eldorado do Sul desde o dia 4 de maio, quando foram resgatados. O casal, que ainda tem as filhas Lorena, de quatro anos, e Sophia, de um ano, saiu de casa com a roupa do corpo e conta com a solidariedade de amigos.

“A gente tá aqui, estamos bem, recebendo carinho e tudo, mas a gente sabe, ao mesmo tempo, que não temos mais nada. Tenho a esperança de baixar a água, que vai ter que baixar, e ver o que restou, a gente vai tentar”, diz a jovem mãe.

Um novo lar para a bebê Isabela e a família; como ajudar?

Nas redes sociais, uma vaquinha virtual tenta arrecadar uma quantia em dinheiro para comprar novos móveis e recomeçar a vida quando for permitido retornar à cidade. Para ajudar, clique aqui.

Foto da Isabela dormindoIsabela veio ao mundo, com 3.025 kg e 48 centímetros — Foto: Arquivo Pessoal/Cedido/ND

“O meu único sentimento é de incerteza. A gente está bem, mas parece um filtro que, quando a gente tira, tudo piora. A gente vai ter que trabalhar o triplo para conquistar tudo de novo”, lamenta Lurdes.

A prefeitura de Eldorado do Sul estima que 100% do município foi inundado pela enchente e ainda tenta contabilizar, além dos prejuízos, o tempo necessário para reestruturar a cidade.