VÍDEO: Restos mortais que seriam de Dom e Bruno são levados em sacos para perícia em Brasília

Suspeito conduziu policiais até local onde corpos de Dom e Bruno foram enterrados; perícia deve ser concluída na próxima semana

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Redação ND Florianópolis

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Os supostos restos mortais do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira chegarão a Brasília nesta quinta-feira (16) para serem identificados pelo Instituto de Criminalística. Os resultados sairão na próxima semana.

Polícia chega no Amazonas para recolher restos mortais que seriam de Dom e BrunoChegada da Polícia Federal em Atalia do Norte para recolher restos mortais que seriam de Bruno e Dom – Foto: AFP/ND

Os dois trabalhavam em defesa dos povos indígenas e do meio ambiente na Amazônia brasileira onde a investigação sobre o caso continua nesta quinta-feira (16). A suspeita é de que eles foram assassinados.

Após dez dias de intensas buscas, a investigação sobre o desaparecimento de ambos deu um salto na quarta-feira com a confissão de um dos dois detidos, Amarildo da Costa de Oliveira, que conduziu a polícia ao local onde disse ter enterrado os corpos, próximo da cidade de Atalaia do Norte, na remota região do Vale do Javari, na fronteira com o Peru.

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A PF (Polícia Federal) encontrou ali restos humanos, que nesta quinta-feira foram encaminhados a Brasília para identificação. O motivo do crime, bem como as circunstâncias da morte, aparentemente com arma de fogo, ainda não foram apurados.

Eduardo Fontes, chefe da PF, informou ao Portal R7 que o suspeito detalhou que o barco em que viajavam o jornalista e o indigenista tinha sido afundado e que o local onde os corpos foram enterrados era de difícil acesso, a mais de 3 km da margem do rio Itaquaí.

“Demoramos a conseguir chegar ao local. Não há contato telefônico na área. Lá foram encontrados remanescentes humanos, e as escavações ainda estão sendo realizadas”, disse.

Segundo o portal, outro pescador, Osoney da Costa, que é irmão de Amarildo, também está preso, embora não tenha confessado participação no crime. Os dois foram vistos por testemunhas perseguindo a lancha dos profissionais. Uma terceira pessoa, citada por Amarildo, também está sendo investigada.

Indignação

ONGs internacionais e familiares manifestaram sua indignação com o aparente assassinato.

Phillips, de 57 anos, trabalhava em um livro sobre a preservação da Amazônia. Pereira atuava como seu guia nessa região onde vivem 26 povos indígenas, muitos deles isolados, e onde atuam traficantes de drogas, garimpeiros, pescadores e madeireiros ilegais.

O especialista da Funai (Fundação Nacional do Índio) recebeu ameaças desses grupos por seu trabalho em defesa das terras indígenas.

A Amazônia está “à mercê da lei do mais forte, sob a qual a brutalidade é recorrente”, lamentou a WWF nesta quinta-feira, expressando sua “indignação” pelo fracasso do Estado em proteger os “povos da floresta e seus defensores”.

O Greenpeace afirmou que nos últimos três anos o Brasil se configurou como a terra da lei do “vale tudo”, alimentada pelas “ações e omissões” do governo de Jair Bolsonaro.

“Não há problema em invadir e tomar terras, não há problema em proliferar a mineração, não há problema em extrair madeira ilegalmente, não há problema em fazer qualquer conflito territorial… e vale a pena matar para garantir que nenhuma dessas atividades criminosas seja impedida”, denunciou a ONG.

“Crime político”

O desaparecimento de Phillips, repórter do The Guardian, e de Pereira, alimentou críticas ao governo Bolsonaro, acusado de incentivar invasões de terras indígenas com seu discurso a favor da exploração econômica da floresta.

O presidente causou indignação nos últimos dias com várias declarações, quando disse que a incursão de Phillips e Pereira era uma “aventura não recomendada” e que o repórter britânico era “malvisto” na região amazônica por suas reportagens sobre atividades ilegais.

A Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), cujos integrantes participaram ativamente das buscas, qualificou o assassinato como “crime político”, já que ambos eram “defensores dos direitos humanos”. “Sabemos que eles fazem parte de um grupo maior”, acrescentaram.

A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) afirmou que nos últimos anos o trabalho de jornalistas e ambientalistas tem servido para mostrar os “recordes” de crimes ambientais na Amazônia, assim como os assassinatos de ativistas e os cortes nos órgãos de controle ambiental.

Em 2020, 20 assassinatos de ativistas ligados à causa ambiental foram cometidos no Brasil, segundo o Greenpeace. “Paralelamente, o presidente e seus aliados se tornaram protagonistas dos ataques à imprensa”, disse a Abraji.

Falando à AFP em Londres, Jonathan Watts, colega de Phillips no The Guardian, disse esperar que esses assassinatos “monstruosos” incentivem e não impeçam a mídia de continuar seu trabalho sobre crimes ambientais.

“Coração partido”

Eduardo Alexandre Fontes, assegurou na quarta-feira que é muito provável que os restos mortais encontrados no local indicado por Oliveira “correspondam a Phillips e Pereira”, embora para confirmar devam ser submetidos a testes de identificação.

A família de Phillips no Reino Unido disse estar “com o coração partido” ao saber da morte dele e de Pereira e agradeceu aos participantes das buscas, “especialmente aos indígenas”.

A investigação continua para determinar o papel exato desempenhado pelos dois irmãos presos e seus eventuais cúmplices. A imprensa afirma que haveria outros três suspeitos, entre eles um que possivelmente ordenou o crime, informação não confirmada oficialmente pela PF.