Um roubo a mão armada para tirar 17 celulares e R$ 200 de um trabalhador. Tiros em pleno Centro da cidade contra populares e, depois, contra um policial à paisana que tentou cumprir seu dever. Quatro inocentes atropeladas. Milhares de pessoas assustadas com os tiros.
Após 20 minutos de terror, desfecho do roubo em loja de celulares foi na Beira-Mar Norte com um assaltante morto e o outro preso – Foto: Leo Munhoz/NDUm motorista de aplicativo com o carro tomado de assalto. Um morador do Norte da Ilha, que retornava de viagem, com o veículo prensado pelo automóvel dos assaltantes e um caminhão. Um assaltante morto, o outro preso. Este é o resumo do que ocorreu das 12h às 12h20 de ontem no Centro de Florianópolis.
O dono da loja de celular alvo do assalto preferiu não se identificar, mas confirmou que os aparelhos foram recuperados. “Vou abrir a loja amanhã [nesta quarta-feira, (3)] normalmente, está tudo bem. Já passou!”, enfatizou. Vendedor de roupas no Centro, Matheus Ricardo, 25 anos, morador de Florianópolis contou que é amigo do lojista e viu quando ele saiu correndo avisando sobre o roubo.
“Eles [os assaltantes] foram correndo para o Ticen (Terminal de Integração do Centro) e fomos atrás. Vi as pessoas sendo atropeladas com o carro da fuga. No Ticen, conseguimos achar eles, mas atiraram na gente e dispersamos”, declarou Matheus. “Os caras são muito loucos para fazer isso. Não tiveram nem um plano decente”, completou.
Tiros no Ticen
Fernanda Podeleski, 52 anos, desembarcou no Ticen às 12h, vindo de São José. Ao descer do ônibus, entrou no banheiro e ao cruzar a porta, ouviu barulho de tiro e correria. No terminal, segundo ela, a cena foi desesperadora.
Fernanda mandou áudio para o filho falando sobre a efemeridade da vida – Foto: Leo Munhoz/ND“É algo anormal para nós, ficamos bem surpresos”. Ela, que é ambulante, ficou pouco tempo no Ticen e foi trabalhar no seu comércio de meias próximo a loja de celulares roubada. Logo que tudo aconteceu, mandou um áudio para o filho.
“Senti que poderia ter levado o tiro. Mandei para que ele entenda que a vida é rápida demais, a gente está aqui e, num segundo, pode não estar mais. Queria que ele entendesse o quanto é importante estarmos juntos”, desabafou.
Ao menos quatro mulheres foram atropeladas pelos assaltantes na fuga – Foto: Leo Munhoz/NDO vigilante Márcio Cipriano, 37 anos, filho de uma das mulheres atropeladas, uma diarista de 59 anos, disse que a mãe está bem. “Teve algumas escoriações, dois pontos na cabeça, mas teve alta na noite de terça–feira. Temos que comprar um colete, porque machucou a vértebra L1”, registrou.
Segundo ele, outra vítima atropelada foi liberada ontem à tarde. A reportagem tentou atualizar a situação das outras duas vítimas, mas a Secretaria de Estado da Saúde alegou que não pode, seguindo orientação do CFM (Conselho Federal de Medicina), passar informações sobre pacientes.
O bispo Júlio Freitas, 65 anos, é de Santana do Livramento e mora há seis anos na Costeira. Ele ajuda a mulher num quiosque de pastel também no canteiro central da Paulo Fontes.
Bispo Júlio disse que orou por uma das vítimas e evitou que ficasse desacordada – Foto: Leo Munhoz/ND“Estava atendendo e, de repente, atropelaram e levantaram a senhora no ar. Ela caiu, levantou e bateram nela de novo. Perto do poste pegaram outra, que ficou com um ferimento na cabeça. O para-choque do carro ficou aqui. Vi o pessoal correndo e a polícia atrás, um monte de viatura. Uma choradeira, muitos gritos. Mas, graças a Deus, ninguém morreu atropelado.”
Após escapar de atropelamento, ambulante continuou trabalhando
Andreia Ribeiro Brum, 37 anos, vende cocada no canteiro central da avenida Paulo Fontes, perto do Ticen e do Camelódromo. Natural de Rio Grande (RS), mora há 14 anos em São José e trabalha como ambulante. Ontem, na cena do crime, escapou da série de atropelamentos.
Para Andreia, o pior foi ver uma senhora sendo jogada para o alto pelo carro dos criminosos – Foto: Leo Munhoz/ND“Só ouvi o barulho, eles batendo com o carro na grade. O pessoal da vacina estava com a tenda ali e vieram com tudo pelo meio, atropelando todo mundo. A cena mais triste foi a senhora sendo arremessada pelo carro. Depois, eles vieram na minha direção e o que me salvou foi o poste, mas a moça que estava passando na faixa perto de mim foi a última que eles pegaram e se mandaram”, relatou a ambulante.
Apesar do choque e da tristeza, Andreia ficou para ajudar as mulheres atropeladas. Depois, seguiu trabalhando. “Fiquei, porque preciso, mas foi muito triste. Trabalho há dois anos e meio e nunca vi nada assim. Ficou marcado”, comentou.
Engavetamento, morte e prisão na Beira-Mar Norte
Everton Santos da Silva, 33 anos, é motorista de um caminhão que presta serviços para uma rede de supermercado. O veículo foi atingido na traseira por outro carro no desfecho do crime. O carro roubado pelos assaltantes, um Toyota Etios, bateu num Chevrolet Onix, que se chocou com a traseira do caminhão.
Onix ficou prensado entre um caminhão e o carro roubado pelos assaltantes – Foto: Leo Munhoz/ND“Olhei pelo retrovisor, vi o cara sair correndo e o outro ficou no carro. Logo em seguida, PM e guarda foram atrás dele”, contou Everton, morador de São José. Segundo ele, o caminhão não sofreu tantos danos.
O aposentado Sebastião Rodrigues, 64 anos, é do Oeste, e mora em Florianópolis há 30 anos. Ele estava parado com o carro quando percebeu a batida na traseira. Estava vindo de Porto Alegre com minha esposa, onde estávamos passeando. Saí de lá às 7h e, de repente, aqui na Beira-Mar, o carro me atingiu”, lamentou. A preocupação dele é com o conserto do veículo.
Sebastião estava retornando de um passeio no Rio Grande do Sul quando sofreu danos no seu carro – Foto: Leo Munhoz/ND“Vou ter que levar o carro para uma oficina, mandar arrumar e, depois, entrar em processo contra o Estado. Sei que vai demorar”. O veículo dele não tem seguro.
Dupla tem 134 passagens policiais
Os criminosos que assaltaram a loja de celulares têm, juntos, 134 passagens pela polícia, como tráfico de drogas, furtos e estupro. O assaltante morto, segundo a Polícia Militar, tinha 24 anos e desde menor de idade esteve envolvido com crimes, foram 78 boletins de ocorrência contra ele. Era da região do Rio Vermelho, posteriormente foi para o Papaquara, região do Norte da Ilha, comandada pela facção PCC.
O assaltante preso pela polícia tem 25 anos e também foi apreendido pela primeira vez quando menor de idade. Ele tem 56 passagens e, conforme a polícia, era do Papaquara e sempre foi envolvido com furtos e roubos. Ele é suspeito de ter participado de dois assaltos, no dia 25 de julho passado, em Palhoça, onde também roubou um carro para fugir.
“Provavelmente não tinham intimidade com a segurança que o Centro tem. Dois desavisados que vieram a cometer o crime numa das áreas mais policiadas e seguras da cidade. Acredito que seja um ponto fora da curva. Não há histórico recente de crimes como esse na área central e o desfecho mostra porque não há esse padrão. Se tivessem observado mais, teriam percebido que é uma área segura e policiada”, relatou o secretário Municipal de Segurança Pública, coronel Araújo Gomes.
A expectativa do coronel é de que o assaltante detido continue preso, porque tem antecedentes e cometeu um crime de violência potencial bastante grande.
“Quase mataram quatro pessoas atropeladas. Pode ser que o juiz tenha um entendimento divergente, mas aos olhos policiais, é um criminoso que deve ficar contido, porque representa uma ameaça à segurança pública”, afirmou Araújo Gomes.