Pés no chão e vivendo “um dia de cada vez”, a skatista Yndiara Asp, de 23 anos, natural de Florianópolis, se prepara para sua primeira Olimpíada. Com início no dia 23 de julho, a jovem e a modalidade, estreiam no que, naturalmente, é o sonho de todo atleta de alto nível.
Yndiara Asp é uma das representantes brasileiras em Tóquio – Foto: Anthony Acosta / Red Bull Content PoolEla conversou com a reportagem do ND+ e falou sobre a ansiedade para a competição, o drama vivido por lesões, o medo de ficar fora dos jogos e a importância da modalidade entrar no quadro olímpico.
Confira a entrevista completa:
Representar Santa Catarina nas Olimpíadas
Yndiara: A ficha está caindo aos poucos. Essa semana fiquei um pouco emotiva, emocionada, sentimental. Vou viajar agora no domingo (3) e vamos ficar um mês nos Estados Unidos e já vamos para o Japão. Vai passar voando. Minha família ficou muito orgulhosa, vibrando comigo em cada momento. Eles são os que mais sabem de toda a minha história e como tudo aconteceu.
SeguirTrajetória e lesões
Yndiara: Eu vinha em um ano excelente em 2019 até me lesionar. Na época era a 6ª do mundo no raking, a primeira brasileira classificada. Porém, com essa lesão acabei perdendo um dos eventos que valia mais pontos para as Olimpíadas. Sem participar dele, acabei caindo para o 13º lugar do ranking, como a terceira brasileira. Em 2020 teríamos outros eventos, porém, veio a pandemia e tudo parou. Quando as coisas começaram a voltar relativamente ao normal, já no fim de 2020 me machuquei de novo na lesão mais séria que já tive, uma fratura no pé, me obrigando a fazer uma cirurgia. Consegui me recuperar em três meses, voltando a andar em fevereiro de 2021.
Skatista passou por período difícil com lesões – Foto: Mark Clavin/Red Bull Content PoolCampeonato nos EUA definiu classificação
Yndiara: O campeonato classificatório final para as Olimpíadas foi o primeiro que eu consegui competir esse ano. Ele aconteceu em maio nos Estados Unidos. Foi o mais tenso da minha vida. Eu me senti de uma forma que nunca havia me sentido antes. Primeiro porque eu competi a eliminatória e nela nós tínhamos apenas duas voltas para valer uma, normalmente eram três. Dei a primeira e acabei errando. Só que começou a chover e a minha volta foi adiada para o dia seguinte. Foi um dia inteiro de tudo passando na cabeça, todas as sensações, fiquei realmente com medo, porque eu só tinha uma chance para definir o meu futuro. Fiz todo um trabalho mental, encontrando tudo o que pudesse fazer eu me sentir bem para acertar aquela volta no dia seguinte. Graças à Deus consegui acertar, consequentemente conseguindo a minha vaga. Ter passado por isso com certeza me deixou muito mais forte e confiante.
Controle da ansiedade para as Olimpíadas
Yndiara: Eu sou uma pessoa que gosta de viver um dia de cada vez, isso faz a gente lidar com a ansiedade bem, nos mantendo presente. Quando eu estiver lá em Tóquio eu quero estar totalmente lá. E para isso acontecer eu preciso estar presente no meu dia a dia hoje.
Yndiara Asp, manezinha é uma das melhores skatistas do mundo – Foto: COB/divulgaçãoEm algum momento se imaginou uma atleta olímpica?
Yndiara: Quando eu ganhei meu primeiro skate do meu pai eu tinha 7 anos. Até os meus 15 foi muito só uma brincadeira, eu não sabia nada sobre o mundo do skate, nem que existiam campeonato. A partir dos 15 anos quando comecei a andar para valer e a realmente entrar para esse mundo, começou a criar em mim o sonho de poder fazer isso todos os dias da minha vida. Eu quis viver daquilo. As coisas foram acontecendo naturalmente, virei profissional, o skate entrou nas Olimpíadas. Eu estava vivendo meu auge quando foi anunciado que o skate seria esporte olímpico. Então um sonho que eu nunca imaginei que aconteceria meio que se criou vendo essa oportunidade.
Protocolos contra a Covid-19 nas competições
Yndiara: Tem sido tudo muito diferente, mais restrito, fazemos testes a cada dois dias. Nesse último evento, por exemplo, os skatistas da Austrália não puderem competir porque o treinador deles testou positivo. A maior questão é você saber se cuidar, se manter saudável para poder estar ali. Esse medo é que nos deixa assustados. É adaptar e lidar com o que temos. Nos Estados está um pouco mais tranquila a pandemia, comparando com Brasil. Tem vacina sobrando. Todos os skatistas brasileiros se vacinaram lá.
Importância do skate ser considerado esporte olímpico
Yndiara: O que mais pesa é o respeito que isso traz para a modalidade. Muitas vezes o esporte foi discriminado. O skate é transformador na minha vida, ele dá um proposito, um motivo para eu acordar todos os dias sabendo o que quero fazer da minha vida. Ele é minha escola da vida, como aprendo a lidar com meus sentimentos, como aprendo a me relacionar com as pessoas e me conectar com o mundo.
Atletas mulheres do skate e principais adversárias
Yndiara: O skate brasileiro é forte, poderoso e único. Com certeza vamos representar o país muito bem lá no Japão. No momento, na minha modalidade no parque feminino, as skatistas que estão com o nível mais alto que eu vejo são as japonesas, com certeza.
Yndiara Asp durante competição – Foto: Teddy Morellec/Red Bull Content PoolPreconceito dentro da modalidade
Yndiara: Sempre me senti tão bem andando de skate, tão focada em mim que ofuscava qualquer coisa que fosse contra. Eu meio que fechava os olhos para isso. Olhares e comentários já aconteceram na minha vida, mas nunca dei bola porque eu sabia que aquilo me fazia bem independente do que as outras pessoas achassem.
Projetos futuros
Yndiara: Depois das Olimpíadas quero aproveitar o momento. Tomara que surjam outras coisas a partir disso. Quero atingir tudo que eu puder, chegar a todos os lugares possíveis e viver tudo o que o skate me proporcionar. Depois disso quero fazer um vídeo com as minhas melhores manobras, ficar um ano todo filmando e me dedicando a isso.