Santa Catarina trabalha para ser o Estado mais industrializado do Brasil nos próximos três anos.
A busca por investimentos de capital, a qualificação dos trabalhadores e a aplicação de inovação e tecnologia nos processos estão entre as bases para concretizar o objetivo de curtíssimo prazo.
Aposta em inovação e tecnologia, qualificação de trabalhadores, e busca de investimentos estão entre as estratégias para Santa Catarina – Foto: Fábio Abreu/NDDécimo Estado em população no país, Santa Catarina tem o quarto maior parque industrial nacional. A indústria responde por 26,7% de toda a riqueza gerada e oferece 34% dos empregos no Estado. A cadeia produtiva é diversificada com ampla sinergia junto aos setores de comércio, serviços e agro.
Quanto aos postos de trabalho, os setores mais representativos são o têxtil, confecção, couro e calçados; alimentos e bebidas; construção; e produtos químicos e plásticos.
Já o maior valor agregado está nos segmentos de equipamentos elétricos e na indústria automotiva. “Com este histórico, o potencial de inovação é imenso”, diz o presidente da Fiesc (Federação das Indústrias), Mario Cezar Aguiar, que projetou a liderança.
Avanço exponencial
Inovação é, justamente, uma das tendências fundamentais, fortalecendo o ecossistema e transformando o setor em uma matriz que seja referência para o país. O crescimento nesse ramo é exponencial.
Nos últimos 30 anos, o número de empresas saltou de 129 para 12,3 mil. O setor representa 5,6% da economia catarinense e movimenta R$ 15,5 bilhões.
Ciente de que investimentos em ciência e tecnologia trazem retornos efetivos no futuro, a CNI (Confederação Nacional das Indústrias) foi incentivadora para criação de 26 Institutos Senai de Inovação e nove Centros Sesi, no Brasil.
O gatilho foi a evidência de que a universidade e a indústria estão desconectadas. Para interligá-las, as 35 unidades atuam como pontes.
“É um sistema que se retroalimenta”, conforme o pesquisador-chefe do Instituto da Indústria em Santa Catarina, Paulo Violada. “Contratamos das universidades.
Os colaboradores criam inovações para as indústrias. Mais competitivas, elas geram mais empregos e investem em mais pesquisas. Mais profissionais vindos da universidade são contratados”, explica.
O amanhã passa pela aposta em pesquisa e desenvolvimento
Além do retorno econômico, a implementação de novas soluções na indústria permite contribuições para o bem-estar e o equilíbrio social, além de avanços na proteção do meio ambiente
Futuro passa por pesquisa em desenvolvimentos tecnológicos – Foto: Fábio Abreu/NDCada vez que um empresário brasileiro investe 1% do lucro em inovação, o retorno, em no máximo dois anos, é superior a 7%. A informação é da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e traz uma tendência inevitável para os próximos anos.
De Fraiburgo, a Fischer é a maior exportadora de sucos de maçã do Brasil. Em 2018, contratou o Instituto da Indústria para identificar gargalos. Três cérebros foram designados para a missão. A doutora em Matemática, Magna Ferreira, o doutor em Ciências da Computação, Márcio da Silva Arantes, e o engenheiro mecânico, Renan Bonnard, francês. Márcio criou um “clone digital” capaz de tomar 2.000 decisões em cinco minutos.
Para ajustar processos no beneficiamento das frutas foi desenvolvido um algoritmo. Os robôs foram readequados e o desperdício minimizado. O aprendizado virou um banco de dados em nuvem. Como informação é poder, seu armazenamento correto é uma das características da revolução 4.0.
O ganho da Fischer foi de 1% em aproximadamente 300 mil toneladas de maçã por ano. O investimento em pesquisa foi pago em 90 dias.
Benefício macro
Os três profissionais do Instituto da Indústria também trouxeram benefícios para a Audaces. Sócio da empresa, Ricardo Cunha contou que o investimento em inovação, ao longo de 27 anos, além de vantagens financeiras, trouxe contribuições para a sociedade, nos aspectos ambientais e sócio-econômicos.
A Audaces não é uma indústria têxtil, mas é referência mundial em inovação para moda. Vende tecnologia para empresas parceiras no Brasil e em outros 70 países. As possibilidades ainda se desdobram em estofados, embalagens, bancos de aviões, blindagem de carros. Do design à sala de corte, o trabalho é feito por inteligência artificial. Para as fábricas é preciso apenas ter o protótipo do produto, como um vestido, e depois levá-lo para costura.
Estas são as principais características percebidas na indústria 4.0, produtividade, economia e até mesmo contribuições sociais com o uso de inteligência artificial nos negócios.
Da Ilha do Silício surgem novas soluções para todo o mundo
O setor de tecnologia cresceu quase 10.000% nas últimas três décadas, e em Santa Catarina abocanha uma fatia expressiva do mercado: 5,6% de sua economia.
Conforme a Acate (Associação Catarinense de Tecnologia), 56% das 400 empresas do Estado estão em crescimento contínuo há cinco anos e 46% delas faturam mais de R$ 60 mil por ano.
A pesquisa mostra que a maior parte das empresas catarinenses deste segmento atuam com serviços de tecnologia da informação e comunicação: 20,64% prestam serviços por meio da tecnologia e 75,16% atuam diretamente na produção de softwares.
Fundada em 1986, a Acate contribui no projeto de fortalecer o setor de tecnologia e apoiar o surgimento de novos negócios. Iniciativas como essas tornam a Grande Florianópolis uma referência internacional enquanto ecossistema de inovação. Não é de graça que a região já recebeu o nome de Ilha do Silício.
Apostas promissoras
Seis startups catarinenses estão na lista das empresas mais promissoras do ecossistema de tecnologia do Brasil, conforme o ranking Startups to Watch. Elas atenderam exigências como inovação, crescimento, maturidade e potencial de mercado.
- JetBov desenvolveu plataforma para gestão de fazendas de pecuária de corte. Atende mais de 900 clientes espalhados em todos os Estados do Brasil e iniciou sua expansão internacional.Asaas é uma conta digital para empreendedores, alternativa aos bancos e serviços de crédito.
- Exact Sales é referência em marketing, com mineração de dados da internet para gerar leads. Adotado por mais de 2.000 empresas, clientes são negócios de todos os portes.
- EpHealth facilita trabalho de agentes comunitários de saúde. Aplicativo tornou possível reportar informações sobre casos confirmados, suspeitos e descartados de Covid-19 à enfermeiros e médicos. Se tornaram usuários, 51 prefeituras, distribuídas por 10 Estados.
- Kiper cria soluções de hardware e software para condomínios, como portaria remota, armários inteligentes para recebimento de encomendas e até solução para assembleia virtual.
- Geekhunter deseja se consolidar como principal plataforma para contratação dos talentos de TI, conectando desenvolvedores às empresas mais desejadas do mercado.
Caminhada da inovação é construída em conjunto
Existe um quarteto fantástico que move o ciclo virtuoso do progresso tecnológico.
Os Institutos Senai de Inovação desenvolvem protótipos, os Certi (Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras) produzem hardwares de alta capacidade, a Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial) e a Finep (Financiadora de Inovação e Pesquisa) podem colaborar financeiramente a empresa que compra a pesquisa e os produtos.
A Embrapii injeta 33% do valor em projetos aprovados. Para a criação dos Institutos Senai no Estado, por exemplo, investiu a fundo perdido, sem necessidade de devolução.
Já a Finep é pública e já apoiou, desde 2002, mais de 700 projetos de empresas e instituições de Santa Catarina.
Os Institutos Senai de Inovação em Santa Catarina têm 70 pesquisadores, 10 administradores e encabeçam 203 projetos, estimados em R$ 228 milhões. Com vanguarda tecnológica, estão entre os melhores do mundo.
Têm parcerias com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, as Universidades de São Paulo e do Rio Grande do Sul, além de alianças com entidades da França e do Canadá.
No caminho contrário, a falta de pesquisa traz empecilhos ao progresso, como ser reféns de commodities em vez de produtos de alto valor agregado. Vender soja em grão ao invés de um biscoito de soja, por exemplo.
Uma pesquisa publicada pela USP mostra que a participação das atividades industriais no PIB brasileiro vem apresentando decréscimos alternados desde a década de 1990, mas que se intensificaram desde 2016, com queda anual de mais de 1%.
Um dos motivos é a escolha dos governos brasileiros em fabricar e vender produtos de baixo valor agregado. Na contramão, os produtos com grande valor agregado, como os bens duráveis, são produzidos fora do país. Quando muito, apenas a montagem final é realizada internamente.