O amanhã passa pela aposta em pesquisa e desenvolvimento

23/08/2021 às 10h00

Além do retorno econômico, a implementação de novas soluções na indústria permite contribuições para o bem-estar e o equilíbrio social, além de avanços na proteção do meio ambiente

Aline Torres Florianópolis

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Cada vez que um em­presário brasileiro investe 1% do lucro em inovação, o retorno, em no máximo dois anos, é superior a 7%. A informação é da FGV (Fundação Getúlio Var­gas) e traz uma tendência inevitável para os próximos anos.

Novas soluções na indústria permite contribuições para o bem-estar e equilíbrio social – Foto: Arte/Fábio Abreu/NDNovas soluções na indústria permite contribuições para o bem-estar e equilíbrio social – Foto: Arte/Fábio Abreu/ND

De Fraiburgo, a Fischer é a maior exportadora de sucos de maçã do Brasil. Em 2018, contratou o Instituto da Indústria para identificar gargalos. Três cé­rebros foram designados para a missão.

A doutora em Matemática, Magna Fer­reira, o doutor em Ciências da Computação, Márcio da Silva Arantes, e o engenhei­ro mecânico, Renan Bonnard, francês. Márcio criou um “clone digital” capaz de tomar 2.000 decisões em cinco minutos.

Para ajustar processos no beneficiamento das frutas foi desenvolvido um algoritmo. Os robôs foram reade­quados e o desperdício mini­mizado.

O aprendizado virou um banco de dados em nuvem. Como informação é poder, seu armazenamento correto é uma das caracte­rísticas da revolução 4.0.

O ganho da Fischer foi de 1% em aproximadamente 300 mil toneladas de maçã por ano. O investimento em pesquisa foi pago em 90 dias.

Benefício macro

Os três profissionais do Instituto da Indústria tam­bém trouxeram benefícios para a Audaces.

Sócio da empresa, Ricardo Cunha contou que o investimento em inovação, ao longo de 27 anos, além de vantagens financeiras, trouxe contribuições para a sociedade, nos aspectos ambientais e sócio-econômicos.

A Audaces não é uma indústria têxtil, mas é referência mundial em inovação para moda. Vende tecnologia para empresas parceiras no Brasil e em ou­tros 70 países.

As possibili­dades ainda se desdobram em estofados, embalagens, bancos de aviões, blindagem de carros. Do design à sala de corte, o trabalho é feito por inteligência artificial.

Para as fábricas é preciso apenas ter o protótipo do produto, como um vestido, e depois levá-lo para costura.

Estas são as principais características percebidas na indústria 4.0, produtividade, economia e até mesmo contribuições sociais com o uso de inteligência artificial nos negócios.

Da Ilha do Silício surgem novas soluções para todo o mundo

O setor de tecnologia cresceu quase 10.000% nas últimas três décadas, e em Santa Catarina abocanha uma fatia expressiva do mercado: 5,6% de sua economia. Conforme a Acate (Associação Catarinense de Tecnologia), 56% das 400 empresas do Estado estão em crescimento contínuo há cinco anos e 46% delas faturam mais de R$ 60 mil por ano.

A pesquisa mostra que a maior parte das empresas catarinenses deste segmento atuam com serviços de tecnologia da informação e comunicação: 20,64% prestam serviços por meio da tecnologia e 75,16% atuam diretamente na produção de softwares.

Fundada em 1986, a Acate contribui no projeto de fortalecer o setor de tecnologia e apoiar o surgimento de novos negócios. Iniciativas como essas tornam a Grande Florianópolis uma referência internacional enquanto ecossistema de inovação. Não é de graça que a região já recebeu o nome de Ilha do Silício.

Apostas promissoras

Seis startups catarinenses estão na lista das empresas mais promissoras do ecossistema de tecnologia do Brasil, conforme o ranking Startups to Watch.

Elas atenderam exigências como inovação, crescimento, maturidade e potencial de mercado.

  •   JetBov desenvolveu plataforma para gestão de fazendas de pecuária de corte. Atende mais de 900 clientes espalhados em todos os Estados do Brasil e iniciou sua expansão internacional.
  •   Asaas é uma conta digital para empreendedores, alternativa aos bancos e serviços de crédito.
  •   Exact Sales é referência em marketing, com mineração de dados da internet para gerar leads. Adotado por mais de 2.000 empresas, clientes são negócios de todos os portes.
  •   EpHealth facilita trabalho de agentes comunitários de saúde. Aplicativo tornou possível reportar informações sobre casos confirmados, suspeitos e descartados de Covid-19 à enfermeiros e médicos. Se tornaram usuários, 51 prefeituras, distribuídas por 10 Estados.
  •   Kiper cria soluções de hardware e software para condomínios, como portaria remota, armários inteligentes para recebimento de encomendas e até solução para assembleia virtual.
  •   Geekhunter deseja se consolidar como principal plataforma para contratação dos talentos de TI, conectando desenvolvedores às empresas mais desejadas do mercado.

Caminhada da inovação é construída em conjunto

Existe um quarteto fantástico que move o ciclo virtuoso do progresso tecnológico.

Os Institutos Senai de Inovação desenvolvem protótipos, os Certi (Centros de Referência em Tecnologias Ino­vadoras) produzem hardwares de alta capacidade, a Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial) e a Finep (Financiadora de Inovação e Pesquisa) podem colaborar financeiramente a empresa que compra a pesquisa e os produtos.

A Embrapii injeta 33% do valor em projetos aprovados. Para a criação dos Ins­titutos Senai no Estado, por exem­plo, investiu a fundo perdido, sem necessidade de devolução. Já a Finep é pública e já apoiou, desde 2002, mais de 700 projetos de em­presas e instituições de Santa Ca­tarina.

Os Institutos Senai de Inovação em Santa Catarina têm 70 pesquisadores, 10 administradores e encabeçam 203 projetos, estimados em R$ 228 milhões.

Com vanguarda tecnológica, es­tão entre os melhores do mundo. Têm parcerias com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, as Universidades de São Paulo e do Rio Grande do Sul, além de alianças com entidades da França e do Canadá.

No caminho contrário, a falta de pesquisa traz empecilhos ao progresso, como ser reféns de commodities em vez de produtos de alto valor agregado. Vender soja em grão ao invés de um biscoito de soja, por exemplo.

Uma pesquisa publicada pela USP mostra que a participação das atividades industriais no PIB brasileiro vem apresentando decréscimos alternados desde a década de 1990, mas que se intensificaram desde 2016, com queda anual de mais de 1%.

Um dos motivos é a escolha dos governos brasileiros em fabricar e vender produtos de baixo valor agregado.

Na contramão, os produtos com grande valor agregado, como os bens duráveis, são produzidos fora do país. Quando muito, apenas a montagem final é realizada internamente.