Para as empresas do setor de telecomunicação, as contrapartidas para utilização de 5G exigidas pela Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) foram consideradas excessivas.
O edital, apresentado pela estatal, impõe obrigações como a expansão das redes no Norte e Nordeste, o pagamento pelos custos de migração dos canais de TV transmitidos por antenas parabólicas, inclusive o kit para famílias de baixa renda, e a construção de uma rede de uso exclusivo do governo para conectar a administração pública federal em todo o país.
vice-presidente de Relações Institucionais da Claro, Fábio Andrade, afirmou que as obrigações são “estranhas” – Foto: Pixabay/NDPara o presidente executivo da Conexis Brasil Digital, Marcos Ferrari, a transferência dos canais que utilizam uma faixa adjacente ao futuro 5G para outra banda satelital vai custar R$ 3,5 bilhões.
Seguir“Isso retira recursos que poderiam ser usados em antenas e redes do 5G. Queremos que os investimentos sejam direcionados para o próprio 5G”, disse, em audiência pública na Câmara dos Deputados.
Ferrari afirma que o mesmo objetivo – evitar interferências entre o sinal de quinta geração de tecnologia e os canais transmitidos por parabólicas – pode ser alcançado com o uso de filtros que mitiguem o problema, o que seria uma solução mais barata.
Prazos acelerados
O vice-presidente de Relações Institucionais da Claro, Fábio Andrade, afirmou que “obrigações estranhas” existentes no edital vão drenar investimentos das operadoras.
Ele criticou o fato de que a portaria com as contrapartidas foi publicada no Diário Oficial da União em uma sexta-feira, três dias antes da reunião da Anatel em que o voto foi apresentado, e pediu mais tempo para discussão desses termos. “Os prazos estão açodados [acelerados]”, afirmou.
O diretor Institucional da Vivo, Enylson Camolesi, afirmou que as obrigações previstas no edital devem ser revisitadas. “É preciso mais clareza e equilíbrio entre o preço da faixa e as obrigações. A única forma é entendendo melhor as obrigações para que elas não excedam o custo e comprometam a expansão e universalização da rede”, disse.
Rede para uso do governo
Outro investimento questionado pelas teles foi a construção de uma rede de fibra ótica de uso exclusivo pelo governo, que, depois, seria entregue para operação da Telebrás.
O vice-presidente de Assuntos Regulatórios e Institucionais da TIM, Mario Girasole, questionou a medida e disse que os critérios de segurança que o governo almeja não serão alcançados por uma rede de fibra óptica, mas por criptografia.
“Não estamos discutindo a necessidade de ter um padrão de segurança mais robusto para comunicações de governo. Isso todo governo tem. A pergunta é: para ter esse tipo de garantia, é preciso uma rede de fibra dedicada a essas obrigações? Ou seria suficiente uma robusta camada de criptografia? Essa é a pergunta”, disse.
Pequenos provedores
Já os pequenos provedores, que, juntos, representam de 35% a 40% do mercado de banda larga fixa no País, elogiaram os termos do edital proposto pela Anatel. O presidente da NEO, Alex Jucius, disse que o fato de o leilão primar pelas obrigações, e não pela arrecadação, vai permitir a inclusão de novos entrantes e a universalização do serviço.
O presidente executivo da Associação Brasileira das Prestadoras de Serviços de Telecomunicações Competitivas, Luiz Henrique Barbosa, defendeu a criação de um mercado secundário de frequências para promover o uso eficiente antes do prazo previsto no edital, em 2026.
Já a consultora da Abrint (Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações), Cristiane Sanches, disse que o leilão, por não ser arrecadatório, vai exigir investimentos maiores de todas as operadoras, o que pode reduzir vantagens históricas de algumas delas. “Isso vai ao encontro da regra de promover mais competitividade no setor”, afirmou.