Angústia e solidariedade: a virada do ano em São Francisco do Sul em meio à enchente

Com água chegando a 1,80m e forte correnteza, comunidade do Buraco Quente, no bairro São José do Acaraí, contou com a ajuda de vizinhos para superar força da chuva que assolou São Francisco do Sul.

Yan Pedro Joinville

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Os moradores da Travessa Prático Pereira Lima, no bairro São José do Acaraí, em São Francisco do Sul, passaram por momentos de angústia e tensão durante a virada do ano, na noite da última quinta-feira (31). Em meio ao caos, relatos também de solidariedade de quem trocou a festa da virada e as comemorações para ajudar quem mais precisava.

Casas ficaram tomadas pela lama no primeiro dia de 2021. – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND.Casas ficaram tomadas pela lama no primeiro dia de 2021. – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND.

Uma das pessoas que mais teve prejuízo na região do Buraco Quente, como é conhecida a travessa que é lateral da rua Barão do Rio Branco, foi a servente Izabela Izauro da Silva, de 43 anos. Ela perdeu praticamente todos os móveis e eletrodomésticos e contou com o auxílio de vizinhos para fugir da enchente que chegou a 1,80m dentro de casa.

O relógio apontava 19 horas quando a chuva mais intensa começou a cair na cidade. “Não nos importamos muito, porque só parecia ser uma chuva forte, mas passageira”, disse Izabela, que estava em casa com familiares e a neta de um mês para comemorar a passagem de ano.

Apesar do volume, Izabela imaginou que a chuva seria passageira – algo comum nessa época da temporada de verão. Em certo momento, relata a moradora, a água que começava a invadir a residência até deu uma trégua, mas por pouco tempo.

“Quando a água começou a invadir, começamos a levantar os móveis. Não passou meia hora a água já estava na altura do joelho e aí já foi para a cintura”, contou ela, que foi conferir a tábua de maré, que estava “seca”.

Correnteza dificultou saída de casa

Sem ter como ficar em casa, com a água atingindo 1,60m na sala e 1,80m em outros cômodos, Izabela e a família precisaram se abrigar na casa de vizinhos. “Para sair de casa e pegar a rua, a correnteza era demais vinda dos morros, não dava para lutar contra”, contou Izabela. A primeira opção de abrigo foi a casa da prima Emanuelli Cristini Izauro, que também teve a residência invadida pela água.

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“Tudo o que você construiu em um período de 15 anos foi embora. É complicado porque a gente planeja, nós somos muito detalhistas. Demoramos mais de seis anos para terminar nossa casa e deixar do jeito que a gente planejava”, disse Emanuelli. “O que vale é a vida, estamos todos bem, mas é muito doído saber que perdemos tudo”, lamenta.

Solidariedade em meio ao caos

Foi Margarete Lucas de Oliveira, de 55 anos, que recebeu toda a família de Izabela, Emanuelli e os outros vizinhos da rua. No total foram cerca de 25 pessoas abrigadas pela cozinheira.

“Na hora nem pensei duas vezes. Fui para a cozinha e o que eu tinha feito coloquei tudo na mesa. Não importa se ia sobrar ou não. Pessoal fez cada um o seu prato, foi comendo e ainda sobrou. Graças a Deus deu pra todo mundo”, relatou Margarete.

Os filhos e o marido ajudaram a salvar os animais de estimação da vizinhança e também crianças que, na tentativa de fugir da enchente, foram levadas pela água – sem ferimentos graves. 

“Ela e a família foram essenciais no salvamento da rua”, diz Izabela, que nesta segunda-feira ainda contabilizava os estragos deixados pela chuva: conseguiu salvar as duas geladeiras e o fogão. “(O resto) ficou tudo embaixo da água”, lamentou a moradora. Margarete também perdeu muitos itens de casa. Desde o armário da cozinha, sofá, até o balcão do banheiro. 

“Na hora da virada, estávamos todos desesperados, mas a gente foi obrigado a rir. O comentário era só ‘adeus, 2020’, e ainda conseguimos um pratinho de comida para crianças, um teto para ficar, e na hora da virada ainda estávamos no conforto da casa da vizinha. Temos o isolamento social, mas não teve como cumprir. Estávamos todos juntos”, falou Izabela.

Ajuda dos vizinhos

Depois que o dia amanheceu, chegou a hora de limpar toda a sujeira e contabilizar os estragos. Parentes e amigos de outras regiões da cidade vieram para ajudar a limpar as casas e a travessa, que ficou tomada pela lama.

Nas primeiras horas de 2021, Margarete conseguiu retornar para casa. “A cena era de guerra. O barro, a lama, as tuas coisas, os móveis. Tudo jogado. É horrível. Toda hora que vou dormir é essa a cena que vem à cabeça”, relatou.

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