Era uma terça-feira fria e, na noite anterior, houve registros de neve em Rancho Queimado, na Grande Florianópolis. O que ninguém esperava, entretanto, era ver neve no Morro do Cambirela, em Palhoça, mas aconteceu, em 23 de julho de 2013, há exatamente dez anos.
Antonio Bitencourt – Foto: Leo Munhoz/NDA raridade, registrada também em 1984 e 1942, desta vez, foi amplamente fotografada, filmada e, claro, ficou guardada na memória dos palhocenses e dos moradores dos municípios da região.
Para alguns, um choque, uma cena inesquecível. Para outros, um evento espetacular e que até hoje motiva a pergunta: será que acontece de novo? Para a meteorologia, se aconteceu uma vez, pode, sim, se repetir.
SeguirJulio Cesar dos Santos, 45 anos, é gerente comercial de um restaurante também no pé do Cambirela. Morador de Paulo Lopes, ele se desloca todo dia de carro ou moto para o serviço. Naquele dia, o frio era tanto, que foi de carro.
“Foi bastante inesperado. Todo mundo ficou em choque na real. Eu estava vindo na BR, e vi que todo mundo estava parando, olhava para o alto do morro admirado com a situação e eu estava sem entender. Na verdade, não estava acreditando. O pessoal olhando para o alto, tirando foto e eu queria entender o que estava acontecendo e, quando vi aquele monte de neve, foi muito surreal”, descreve Julio Cesar.
Julio Cesar dos Santos – Foto: Leo Munhoz/ND“Eu fiquei em estado de choque porque é uma coisa que nunca tinha visto, ainda mais aqui na nossa região, nunca tinha visto nada parecido, a não ser subindo a Serra para poder ver lá no alto, mas eu nunca tive essa sensação de estar perto da neve, ainda mais aqui no Cambirela. Foi uma situação bem inusitada na época”, conta o gerente.
Segundo ele, a neve mudou a rotina do restaurante no dia. “Todo mundo pedia informação, queria saber como aconteceu, mas era uma coisa nova, não tinha muito o que falar. O pessoal estava admirado, parava aqui no pátio, fazia foto”, lembra Julio, que presenciou o evento cedo, por volta das 6h30.
“Foi um acontecimento mesmo. O pessoal parava na BR, ou aqui no pátio e formou fila no dia. Marcou bastante, todo mundo aqui”.
Cenário paralisou quem passava pelo local
O frentista Antônio Bitencourt, 64 anos, natural de Imbituba, vive em Palhoça há 36 anos. Na época, trabalhava num posto de gasolina com vista para o Cambirela e num bar. Ele conta que levantou cedo na manhã de 23 de julho de 2013 e viu o morro do Cambirela todo branco.
“Levantei umas 7h, mas ficou até bem tarde branquinho, porque caiu muita neve. O posto encheu, muita gente parou pra fazer foto, outros subiram. Era perigoso, estava muito gelado, mas alguns aventureiros se arriscaram”, conta Toninho.
O fato foi tão marcante para quem trabalha e utiliza o posto com frequência que os proprietários do estabelecimento resolveram fazer uma foto da neve no Cambirela e incluir na galeria do posto.
Natural de Palhoça, Manoel João Soares, 49 anos, trabalha com serviços gerais num sítio com vista para o Cambirela no bairro Pontal.
Em 13 de julho de 2013, quando viu a neve no morro, ele estava num deslocamento de carro, na Via Expressa, vindo de Florianópolis com outros colegas.
“Eu estava dirigindo o carro da empresa e do nada o cara gritou: ‘olha só, neve no Cambirela’. Para nós, foi uma coisa espetacular, porque era uma coisa que ninguém imaginava acontecer no Cambirela. Marcou bastante”, diz Manoel.
Manoel João Soares – Foto: Leo Munhoz/NDPor conta do trabalho, eles não pararam o carro, mas perceberam muitos veículos estacionados e os motoristas fotografando e filmando o acontecimento.
Uma das coberturas mais marcantes
O jornalista Henrique Zanotto, hoje apresentador do Cidade Alerta, da NDTV, está há 22 anos na profissão. Para ele, a cobertura mais marcante da carreira foi a tragédia de 2008 no Vale do Itajaí. Depois, o episódio da neve no Cambirela.
Zanotto foi o único repórter de televisão a sobrevoar a área a bordo da aeronave Arcanjo, do Corpo de Bombeiros, acompanhado do cinegrafista Valdir Andrade.
Eles sobrevoaram o local para registrar o fato histórico e verificar se alguém necessitava de socorro no local.
“Quando chegamos para trabalhar na manhã daquele 23 de julho, tínhamos a reportagem da noite anterior de Rancho Queimado da neve, então sabíamos do episódio de neve na Grande Florianópolis. Mas o tempo estava um pouco fechado e, assim que foi abrindo, vimos aquela camada branca em cima do Morro do Cambirela. Num primeiro momento não havia confirmação que era neve, mas mesmo com o sol o morro continuou branco, então aumentou a convicção de neve”, afirma Zanotto.
O jornalista Henrique Zanotto – Foto: Leo Munhoz/NDSegundo ele, depois disso, a equipe do Balanço Geral começou a discutir como realizar a cobertura. “Ir até o pé do morro, ouvir os moradores. Nós analisamos que praticamente todas as equipes iriam por esse caminho. Então, na busca jornalística de tentar trazer algo diferente, decidimos sobrevoar. Não contávamos com helicóptero, mas sabíamos de algumas instituições que poderiam realizar voo”, conta Zanotto.
A primeira opção foi o Arcanjo, do Corpo de Bombeiros, mas esta aeronave só decola se há uma missão, um chamado.
A alternativa foi convencer o comando geral do Corpo de Bombeiros para checar a possibilidade de uma exceção a fim de documentar o fato histórico e, ao mesmo tempo, fazer uma possível busca por conta da atividade de trilha e acampamento frequente no Cambirela e se houvesse alguém com necessidade de sair em meio à neve, o Arcanjo poderia prestar o serviço.
Segundo Zanotto, foram necessárias duas horas de espera e argumentação até a confirmação do comando geral dos Bombeiros, que autorizou o comandante da aeronave de plantão a realizar o voo, que durou aproximadamente 30 minutos.
No local, por segurança, a equipe não desembarcou. Um sargento dos Bombeiros mediu a profundidade da camada de neve, e chegou a cobrir seu coturno.
“A minha sensação foi estar vivendo algo que dez anos depois a gente não viu acontecer novamente e não sabemos se daqui dez, 20, 30 anos vamos ter um outro episódio como este. Assim que a gente pousou a aeronave desceu, eu tinha plena convicção que nós tínhamos testemunhado a história naquele 23 de julho de 2013”, ressalta o apresentador da NDTV.
Episódio é raro, mas pode se repetirConforme a professora de meteorologia IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina), Márcia Fuentes, o que trouxe neve para 2013 para o Litoral catarinense foi um escape de frio direto da região polar da Terra.
“Um ar frio que estava represado na região polar durante muito tempo e um escape muito rápido, que gerou neve. Foi uma neve excepcional em todos os Estados do Sul, e em Santa Catarina especialmente porque foi em 126 municípios”, frisa Márcia.
Segundo ela, antes do primeiro evento era possível duvidar deste tipo de ocorrência na região, mas como já houve um registro, ela acredita que é possível um evento dessa natureza novamente.
Além de 23 de julho de 2013, quando o Cambirela ficou com grandes quantidades de neve, a última grande nevasca no local, que tem mais de 1.000 metros de altura, foi registrada em julho de 1942.
O engenheiro agrônomo Ronaldo Coutinho conta que também viu o fenômeno em 1984, porém, logo se desmanchou.