Medo de choque e desespero: veja os relatos e prejuízos de moradores da Grande Florianópolis

População das cidades atingidas pelas fortes chuvas de quarta (30) em Santa Catarina tentam voltar à normalidade, enquanto contabilizam prejuízos

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Redação ND Florianópolis

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As cidades da Grande Florianópolis registraram nesta quinta-feira (1º) uma tentativa de volta à normalidade após a chuva, com a limpeza de casas e contabilidade dos prejuízos.

A mudança no cenário era evidente até para quem não foi atingido, como na abertura do rio do Brás, em Canasvieiras, e os trajetos que ficaram interrompidos ou retidos em diferentes localidades.

Morador tira as coisas de casa com auxílio de um bote em meio a água – Foto: Leo Munhoz/NDMorador tira as coisas de casa com auxílio de um bote em meio a água – Foto: Leo Munhoz/ND

No Jardim Eldorado, em Palhoça, o casal José Alencar Dutra, 56 anos, e Jussara Stertz, 53, teve muitas perdas, inclusive de máquinas de serralheria que trouxeram para montar uma empresa na Palhoça.

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José Alencar, veio de Santa Maria (RS), e nunca tinha vivido uma situação semelhante, além de contabilizar prejuízos – Foto: Leo Munhoz/NDJosé Alencar, veio de Santa Maria (RS), e nunca tinha vivido uma situação semelhante, além de contabilizar prejuízos – Foto: Leo Munhoz/ND

Eles passaram a tarde fazendo faxina na casa. Estavam desconsolados, pois nunca passaram por algo parecido. “Nós viemos há dois meses de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, onde nunca aconteceu algo parecido. Agora, se eu tivesse problema cardíaco, com certeza estaria mal. Minha esposa não para de chorar”, contou Dutra.

A moradora do bairro, Maria Eduarda Mendes da Cruz, se machucou caindo em um buraco escondido pela água. Muito triste, ela contou que a família pegou carona com um veículo grande para sair de casa com as crianças até um trecho do trajeto, pois o carro precisou voltar para buscar um casal de idosos.

Erôncio Silva Ribeiro carrega um dos três filhos: a família perdeu todos os pertences na enchente – Foto: Leo Munhoz/NDErôncio Silva Ribeiro carrega um dos três filhos: a família perdeu todos os pertences na enchente – Foto: Leo Munhoz/ND

Em sua casa, onde mora com o marido Erôncio Silva Ribeiro e os três filhos, de 9, 7 e 2 anos, foi tudo perdido, até o portão quebrou. Na rua Pedro Álvares Cabral, o morador Victor Farias, 31 anos, teve muito prejuízo, pois só conseguiu tirar alguns eletrodomésticos, como a TV, mas perdeu a geladeira e o freezer. Salvou o cachorro Folgado, companheiro há sete anos.

Victor Farias, 31 anos, teve muito prejuízo, pois só conseguiu tirar alguns eletrodomésticos, como a TV, mas perdeu a geladeira e o freezer. Salvou o cachorro Folgado, companheiro há sete anos – Foto: Leo Munhoz/NDVictor Farias, 31 anos, teve muito prejuízo, pois só conseguiu tirar alguns eletrodomésticos, como a TV, mas perdeu a geladeira e o freezer. Salvou o cachorro Folgado, companheiro há sete anos – Foto: Leo Munhoz/ND

O pai e quatro irmãos foram ajudá-lo a retirar o que era possível com o auxílio de um bote e colchões infláveis.

“A rua não está no nível correto e já tentamos muitas vezes pedir providências. Entra e sai gestão na prefeitura e ninguém resolve. Como temos outros familiares que moram aqui, a gente sabe que às vezes enche, mas hoje foi muito intenso. Por isso muitos comerciantes acabam desistindo de manter seus estabelecimentos nesta área”, disse o analista de qualidade.

Empresas da região também contabilizaram prejuízos. Mariana Teixeira, 21, moradora do Roçado, diz que na empresa onde trabalha como assistente administrativo os danos foram grandes. “Está tudo alagado, começou a encher na madrugada”, disse.

Maria Teixeira, moradora do Roçado, em São José, estava preocupada com a situação da empresa onde trabalha – Foto: Leo Munhoz/NDMaria Teixeira, moradora do Roçado, em São José, estava preocupada com a situação da empresa onde trabalha – Foto: Leo Munhoz/ND

Medo de choque

O casal Bernadete Vidal, 59 anos, e Marcelo Jerônimo Vieira, 52, foi buscar as netas, de 12 e 16 anos, que estavam desde a madrugada ilhadas em casa, com medo da fiação elétrica dar problema. “Elas disseram que estavam de olho nas tomadas, assustadas”, contou o avô.

O casal mora no Morro da Caeira do Saco dos Limões e estava muito preocupado. “Os moradores estavam nas janelas, de repente faltou luz e ficou um breu. A previsão é que continue, mas tomara que não chova mais”, torceu.

Números

  • 1.102 desalojados
  • 29 desabrigados
  • 2 mortes
  • 1 desaparecido
  • 22 cidades em situação de emergência

O último relatório da Defesa Civil, das 18h desta quinta (1º), contabilizava 882 pessoas desalojadas e 195 desabrigadas no Estado. Mas não contava com os dados de Palhoça.

Em comunicado à imprensa pela manhã, a Prefeitura de Palhoça contabilizava 634 desabrigados e 220 desalojados. Assim, o número total de desalojados sobe para 1.102 e de desabrigados para 829.

Joinville tem o maior número de desalojados (520), seguida de São Bento do Sul, que tem 220 pessoas nesta situação. Desabrigadas são aqueles que precisaram sair de suas casas e foram para abrigos instalados pela prefeitura. Já os desalojados foram para casas de amigos ou parentes.

Lama obstrui rua no Córrego Grande

Pelo menos 30 cargas de caminhão caçamba foram removidas com terra, barro, brita e pedrisco vindos da servidão Dorval Manoel Bento até a rua João Pio Duarte Silva e proximidades, no Córrego Grande. O trânsito ficou retido durante o dia.

Segundo Linésio Barcelos, 51, a madrugada e todo o dia foram tensos e precisou de ajuda mútua entre os moradores, especialmente quando a lama começou a obstruir a estrada. “Era madrugada quando viemos socorrer um vizinho, que estava voltando de uma cirurgia na coluna, e precisava ir para a casa na servidão. Tivemos que pegá-lo no colo para poder ajudar a entrar em casa”, afirmou.

Florianópolis teve 34 deslizamentos e 81 pontos de alagamentos

Em Florianópolis, a prefeitura informou em boletim no fim da tarde que houve melhora significativa na previsão de chuva para as próximas 24 horas. Porém, ainda sem descarte de novas pancadas. Áreas de encosta e morros permanecem em alerta, pois o solo está muito molhado e com risco de deslizamentos.

A Defesa Civil da Capital atuou em 34 deslizamentos de terra e interditou nove casas ou propriedades. Foram 81 pontos de alagamentos. O município está com 26 desabrigados e mais de mil desalojados.

As ocorrências já atendidas são de alagamentos, deslizamentos, quedas de muro e quedas de árvores no Norte, Sul, Centro e Continente. A Guarda Municipal segue monitorando áreas com problemas na mobilidade. Na estrada geral de acesso à Praia Brava, um deslizamento de terra permanece bloqueando uma das pistas no morro de acesso à praia. A estrada do Sertão do Peri estava com bloqueio total.

Para esta sexta (2), as aulas estão mantidas na rede municipal até as 14h por causa do jogo do Brasil. As Upas estarão abertas normalmente e as Unidades Básicas de Saúde com atendimentos pela manhã. O transporte público opera com todas as linhas.

A Prefeitura de Florianópolis está auxiliando com itens básicos de higiene pessoal e material de limpeza através da Rede Somar. Os pontos de coleta são: Secretaria Municipal de Assistência Social, na Sede da Fundação Somar e na Secretaria do Continente. A Defesa Civil do Município já fez a entrega de mais de 6 mil metros quadrados de lona para a cobertura de encostas e telhados.

Em Canasvieiras, rio do Brás se lança novamente ao mar: “poder da natureza”

Em Canasvieiras, foi aberta a contenção do rio do Brás, instalada em 2018, e ele desaguou no mar mudando radicalmente o cenário tanto no rio quanto na praia, que ficou tomada por uma água de tom escuro e muitas algas.

Moradores olham o rio do Brás voltando a desaguar no mar, como era antes de ser contido – Foto: Leo Munhoz/NDMoradores olham o rio do Brás voltando a desaguar no mar, como era antes de ser contido – Foto: Leo Munhoz/ND

Nativo de Florianópolis, o autônomo Neido Manoel dos Santos, 51, foi conferir o ocorrido. Ele sempre acompanhou o curso do rio, quando naturalmente abria sua foz e fechava de acordo com os eventos da natureza. “Foi a melhor coisa que aconteceu, agora o rio está com vida novamente. Não vamos deixar que fechem de novo”, afirmou.

Segundo o geógrafo e presidente do Instituto Rio do Brás, José Luiz Sardá, há meses a instituição tentava contato com a prefeitura e a Casan para propor a revitalização do rio. “Já estávamos cansados de ter apenas ações paliativas, agora a natureza agiu. Soube que há a intenção de conter o rio novamente, mas já estamos buscando liminar preventiva junto com o Ministério Público”, comentou.

Balneabilidade

Manter a balneabilidade da praia de Canasvieiras é um dos pontos de atenção, mas, conforme o presidente do instituto, existem opções, como a injeção de oxigênio diluído para tratar o rio, que já estava sendo planejada. “Mas a natureza acabou se encarregando. Poderia ter acontecido em janeiro, em pleno verão”, afirmou.

Nas ruas próximas, as casas também encheram de água. Maria Santos, 72, que há três décadas reside no local, disse que foi assustador. “A água foi subindo pelo ralo do banheiro, depois o tanque não dava conta”, disse. Foram horas para limpeza. Ela foi pessoalmente olhar o rio para ver desembocar novamente no mar. “Temos uma natureza tão bonita, este lugar deveria ter mais atenção das iniciativas públicas, como acontece na Europa”, afirmou.

Asfalto cedeu abrindo cratera na região do trevo do elevado do Rio Tavares, no Sul da Ilha – Foto: Leo Munhoz/NDAsfalto cedeu abrindo cratera na região do trevo do elevado do Rio Tavares, no Sul da Ilha – Foto: Leo Munhoz/ND

Bloqueio no Morro dos Cavalos em Palhoça e recomendação de evitar ir para a estrada

O trânsito segue bloqueado, nos dois sentidos, no Morro dos Cavalos, na BR-101, em Palhoça. Técnicos trabalhavam para liberar a rodovia quando identificaram rochas com risco de queda em caso de chuva forte. Está sendo feita a remoção dessas pedras.

A previsão é de que o trecho seja liberado até a manhã desta sexta (2). Equipes da Secretaria de Estado da Infraestrutura e Mobilidade trabalham intensamente na limpeza e na recuperação de trechos afetados pelas chuvas.

No fim da tarde, uma das regiões mais castigadas, a Serra Dona Francisca, que liga Joinville ao Planalto Norte, não tinha mais interdição, mas o tráfego ficou fechado à noite, por questão de segurança.

Na Grande Florianópolis e no Vale, ainda há rodovias completamente alagadas. A recomendação segue sendo a de cautela e de que os motoristas evitem deslocamentos desnecessários.

Casan pede uso consciente de água

A Casan informa que a adutora de 700 mm no rio Imaruí teve o fechamento do registro também pela margem de Palhoça à noite.

O sistema integrado com a adutora de 1.200 mm permite que a região tenha o abastecimento normalizado gradativamente. A nova ligação da adutora danificada pela enxurrada será feita em seguida, sem prejuízo para a distribuição de água.

Com a diminuição do nível do rio, as equipes estão verificando outros problemas nas estruturas da adutora nas cabeceiras das pontes que também vão precisar de reparos. A Casan pede aos usuários que façam uso consciente da água até que os sistemas sejam restabelecidos na totalidade.

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