‘Meu escritório é na praia’: Onda de calor tem prejudicado trabalhadores em Florianópolis

Vendedores contam suas jornadas nas praias e no calor da Capital; médica faz alerta sobre a saúde de quem se expõe ao sol intenso

Julia de Araujo Florianópolis

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O verão de 2022 surpreendeu a população de Santa Catarina. O calor intenso, dos meses de dezembro, janeiro e fevereiro, chateou até quem é apaixonado pela estação e, tem atrapalhado o trabalho e a saúde de quem passa o dia todo embaixo do sol.

Lucas Aragão Vieira, vende castanhas na Praia do Campeche durante toda a temporada de verão. Essa é a quinta vez que ele vem para Florianópolis trabalhar na época de calor.  – Foto: Leo Munhoz/NDLucas Aragão Vieira, vende castanhas na Praia do Campeche durante toda a temporada de verão. Essa é a quinta vez que ele vem para Florianópolis trabalhar na época de calor.  – Foto: Leo Munhoz/ND

As altas temperaturas, que ultrapassaram os 40ºC, em algumas regiões, parecem garantia de um dia de trabalho lucrativo para quem é comerciante nas praias de Florianópolis. Porém, o calor e o vento em excesso na verdade atrapalham o dia-a-dia do trabalhador.

Paola Regina Batista, de 21 anos, trabalha na Praia de Canasvieiras com a sua família desde o começo da pandemia, porém, a sua história ao sol vem de muitos anos. Nascida e criada em Florianópolis, Paola é filha de manezinhos. Seu pai, Paulo Roberto Batista, de 42 anos, trabalha na praia há mais de 20 anos, sempre alugando cadeiras e guarda-sóis.

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Aline, que está a direita na foto, junto da irmã de sua madrasta, trabalhando na barraca da família – Foto: Julia de Araujo/NDAline, que está a direita na foto, junto da irmã de sua madrasta, trabalhando na barraca da família – Foto: Julia de Araujo/ND

Ela diz que já trabalhou em outros lugares, e mesmo na praia, trabalhou em outros quiosques. Porém, com a chegada da pandemia, ajudar o pai foi o que garantiu que ela não ficasse desempregada.

“Meu pai sempre foi autônomo e sempre trabalhou na praia. Durante toda a minha vida, estar aqui faz parte da rotina da minha família e está na minha memória em vários momentos. Eu acho incrível o meu pai ter o próprio negócio e eu, minha madrasta e a irmã dela estamos neste verão junto com ele, na lida ”, conta Paola.

Apesar do tempo firme ser sinônimo de um bom dia de trabalho para quem depende do sol para ter lucro, o calor em excesso traz consigo algumas dificuldades. Paola explica que o chão quente, queima os pés e o chinelo às vezes, atrapalhando na hora de ser ágil e poder atender os clientes.

“Eu passo muito protetor solar, mas às vezes mesmo embaixo da barraca eu me queimo. Queimo as pernas e até os pés. Aí quando tem vento, mesmo que refresque, fica ruim, pois voa muita areia e os guarda-sóis voam também, as pessoas vão embora pois pode chover. Parece ser uma coisa boa mas também atrapalha”, declarou a vendedora mostrando as diferentes marcas que tem, causadas pelo sol.

E se para alguns a praia sempre foi como uma segunda casa, outras pessoas, como Marcos Lima Santos, descobriram em Florianópolis a possibilidade de ter uma vida melhor.

Um lugar de oportunidades

O sergipano, de 25 anos, vendia chinelos, garrafas de água e máscaras, nas ruas de Itabaiana, cidade do agreste do Estado nordestino. Após um tempo, foi trabalhar em uma fábrica, porém, com os cortes de funcionários feitos durante a pandemia, Marcos foi mais uma das vítimas do desemprego.

Marcos veio do Sergipe para melhorar de vida – Foto: Leo Munhoz/NDMarcos veio do Sergipe para melhorar de vida – Foto: Leo Munhoz/ND

“Um amigo meu disse que tinha uma oportunidade de trabalho aqui. Eu aceitei na hora, porque vi nessa proposta uma forma de mudar de vida. No meu Estado, a oportunidade de emprego é pouca, não tem trabalho para a gente, na verdade” disse o vendedor.

Na Praia do Campeche, no Sul da Ilha, Marcos trabalha como vendedor de choripan e anda vários quilômetros por dia, desde o começo da manhã até o fim da tarde. Embaixo do sol forte, ele se protege da forma que consegue, mas precisa lidar também com o calor do fogo, para assar as carnes.

“Quando eu cheguei, nem sabia como começar o fogo. Eu aprendi tudo em um dia e no outro já saí com o carrinho pela praia. Fui aprendendo com a prática também, como me vestir pra não passar calor mas também de um jeito que me ajude a me proteger do sol”, explica Marcos.

Apesar de estar usando protetor solar e vestido com chapéu e mangas longas, ele conta que acaba se queimando apenas com o calor a sua volta e, que o mês de janeiro foi o mais difícil para conseguir suportar o ar quente. Marcos também ressaltou que o vento acaba sendo uma espécie de inimigo dos vendedores de praia, pois atrapalha bastante.

“A gente ora pelo vento para refrescar, daí vem o vento mas tem que proteger tudo da areia e se tiver muito forte, as pessoas vão embora. A gente ganha e perde ao mesmo tempo. Teve alguns dias que tinha que ficar caminhando, porque se ficasse muito tempo parado no sol, parecia que queimava minha cara”, completou o vendedor de choripan.

Mesmo com as dificuldades, ele finaliza contando que pretende ficar em Florianópolis, que descobriu aqui que teria uma vida melhor e também poderia ajudar a sua família. “Eu me encantei e pretendo ficar aqui, quero me estabilizar e construir uma família. Já avisei minha “mainha” que não vou voltar, ela vai sentir saudade e eu também, mas é uma oportunidade melhor, né?”, finaliza ele, com um sorriso.

Vendendo minha arte na praia

Assim como ele, a gaúcha Aline Zimmer, de 36 anos, também veio para a Capital catarinense para mudar de vida. Junto com o marido ela se mudou para a cidade há 5 anos e nunca mais pensou em voltar. O casal vende artesanato, na entrada da Praia do Campeche.

Aline Zimmer, trabalha como artesã na Praia do Campeche há 5 anos – Foto: Leo Munhoz/NDAline Zimmer, trabalha como artesã na Praia do Campeche há 5 anos – Foto: Leo Munhoz/ND

“Eu já conhecia Florianópolis, pois meu esposo trabalhava com venda de carros e a gente vinha pra cá buscar eles -os carros- aí um dia ele falou que nós íamos mudar para cá, e eu concordei na hora”, explicou Aline.

A artesã montou uma barraca e começou a vender a sua arte. Aos poucos foi aumentando as variedades dos produtos e hoje já tem duas barracas e também expõe em feiras. Na praia, ela conta que inicia seu trabalho às 7h da manhã e às vezes fica até 20h da noite, ou mais, dependendo do movimento.

Aline disse já estar acostumada com o clima de Florianópolis e está sempre preparada tanto para o calor, como para a chuva. Ela relembrou o calor intenso dos últimos meses e como foi até sufocante em alguns dias.

“Eu uso bastante protetor solar, sempre. Mas como eu sou muito branca, fico vermelha muito rápido, então preciso me cuidar bastante. Tem que beber muita água, até usei uma leque, parecia uma senhora”, contou ela aos risos. “Mas sério, eu estou bronzeada e eu nem pego sol, tenho essa cor só ficando embaixo da barraca, na sombra e mesmo assim, teve dias que foi complicado até para respirar”, relembra Aline.

Ela também explicou o processo para poder trabalhar naquele local e quais as regras para expor vender seus artesanatos, sem fazer parte do sorteio de alvarás do município.

“Eu tenho uma carteirinha, que me permite trabalhar com artesanato, é a carteirinha do artesão. Ela me permite ficar aqui, sempre das pranchas pra cá e não pode passar da rótula. Com a carteirinha eu tenho direito a um espaço público que me autoriza a venda”, explicou a artesã.

Distribuição de alvarás e fiscalização do município

Segundo a Susp (Secretaria Municipal de Segurança Pública) de Florianópolis, foram sorteados 14.111 alvarás aos comerciantes que se inscreveram para a temporada 2021/2022.

Na praia de Canasvieiras, foram 2.227 inscrições, desses, 92 vendedores foram habilitados para trabalhar no local. Na praia do Campeche, eram 666 inscrições e 49 foram sorteados para receber os alvarás.

Praia do Campeche em um dia de sol forte – Foto: Leo Munhoz/NDPraia do Campeche em um dia de sol forte – Foto: Leo Munhoz/ND

São nove categorias, para cada praia da cidade. Cada vendedor tem direito a um alvará, em uma categoria e, para uma praia específica. A fiscalização, para saber se os espaços estão sendo respeitados, é feita diariamente pela SUSP e pela GMF (Guarda Municipal) de Florianópolis.

Cuidados com o sol durante o calor intenso

A dermatologista Angélica Seidel explica a importância de se manter protegido, quando se passa muitas horas com a pele exposta ao sol forte. “A exposição solar por longos períodos, especialmente entre as 10 e 16 horas, pode causar sérios problemas a nossa saúde e entre eles está o câncer de pele. Além disso, podem ocorrer queimaduras solares, surgimento de manchas e fotoenvelhecimento”, disse Angélica.

“É fundamental o uso regular de protetor solar, sempre com proteção UVA e UVB, FPS igual ou acima de 30. Além disso, é importante reaplicar o protetor solar. Quando estamos diretamente expostos ao sol, devemos reaplicá-lo a cada 2 horas”, finaliza a médica.

O cardiologista, Rodrigo Hirsch Machado, lembra que é importante ficar atento a desidratação e problemas cardíacos, que o calor pode causar. “O calor intenso deixa o nosso sangue mais espesso, então quando o trabalhador que está por muitas horas no sol caminhando, não se hidrata, não se alimenta bem e não se dá um descanso, a pressão arterial aumenta e pode causar um infarto ou um derrame”, detalha o médico.

Sinais de podem que podem indicar um infarto ou derrame:

  • Dor no peito que pode se espalhar para o braço, costas ou para o queixo;
  • Sensação estranha na garganta;
  • Tontura ou dor de cabeça;
  • Batimento cardíaco acelerado.

O doutor aconselha que as pessoas fiquem atentas aos sinais que o corpo nos da, caso algo diferente esteja acontecendo. Também é importante procurar um médico para saber se está tudo bem, assim várias doenças podem ser evitadas.