As chuvas do dia 31 de dezembro e desta quinta-feira (7) trouxeram a tona um problema que Joinville, no Norte do Estado, já convive há anos: os alagamentos. Em questão de segundos, ruas ficam alagadas e famílias, muitas vezes, perdem móveis, roupas e mantimentos.
Chuva forte do último dia do ano deixou diversas ruas alagadas em Joinville – Foto: Redes Sociais/ReproduçãoO problema na cidade ocorre desde sua fundação: de acordo com o livro História das Inundações em Joinville, de Wivian Nereida Silveira, Masato Kobiyama, Roberto Fabris Goerl e Brigite Brandenburg, os primeiros relatos de inundações na cidade são de 1851.
Um dos motivos, que podem contribuir para que o fenômeno ocorra, principalmente nesta época do ano, é a grande quantidade de chuva. Segundo o professor e mestre em Geografia, Naum Santana, no verão, o município chega a registrar entre 200 e 250 mm² por mês, o que faz com que encha os canais de escoamento de água, rios e córregos.
Seguir“Na natureza, os canais estão condicionados pelo fluxo de água que circula pelo local. Se a precipitação ultrapassa os níveis médios, ela acaba vazando, o que faz que ela escorra para outros lugares”, explica.
Em 12 horas, o acumulado das chuvas superou os 166 milímetros em Joinville durante o fim do ano – Foto: Redes Sociais/ReproduçãoOutro fator seria a intervenção humana. O processo de urbanização acaba alterando o regime de circulação da água. Santana relata que com as construções urbanas, os canais não tem mais a “liberdade” de expandir ou estreitar o curso.
“Na urbanização, a gente tem a impermeabilização com telhados, piso e concreto. Por exemplo: se temos um local com grama, ela vai absorver parte da água que circula durante a chuva e vai demorar muito mais tempo para ela chegar no canal. No asfalto isso não acontece, porque como não tem essa absorção, ela vai direto para o canal, que enche rapidamente e aí acontece o alagamento”, conta o professor.
Joinville também convive com outro fenômeno que contribui para os alagamentos: a alta da maré, principalmente no Centro da cidade.
“Quando chove muito e a maré está alta ou começando a baixar, as ruas alagam e isso gera um problema ainda maior”, reforça Santana.
Reter a água que chega aos canais é uma das soluções
Segundo Santana, existe algumas soluções que podem ajudar a reter a água da chuva e, assim, diminuir os alagamentos na cidade.
“Uma possibilidade é reduzir a taxa de impermeabilização. Ou seja, não asfaltar tanto e com isso ter mais pontos em que o solo possa absorver a água. Mas isso é mais difícil de fazer, devido a expansão urbana”, pontua.
Mas, uma das soluções viáveis é a retenção da água por meio de reservatórios. Parte da chuva, que chegaria aos canais, ficaria armazenada para que, posteriormente, haja o escoamento. Com isso, eles não encheriam tão rapidamente.
“Por exemplo, se eu conseguir reter 70% da chuva que cai naquela primeira hora, apenas 30% iria para os canais, o que faria com que ele não vazasse. Então, daria tempo para que o sistema de drenagem pluvial e de macrodrenagem dos rios se estabilizassem e, depois, a água escoaria sem causar prejuízos”, explica.
A forte chuva que atingiu Joinville na noite desta quinta-feira (7) voltou a causar alagamentos em várias ruas, principalmente da região Central da cidade – Foto: Ricardo Alves/NDTVPrefeitura estuda fortalecimento de sistema de monitoramento
Para tentar conter os alagamentos, o secretário de Proteção Civil e Segurança Pública, Paulo Rogério Rigo, informou em entrevista ao ND+, que a Defesa Civil já vem discutindo projetos que envolvem um sistema de monitoramento mais moderno.
“Precisamos fortalecer mais a Defesa Civil no que envolve equipamentos e projetos. Nós estamos em busca de tecnologia até porque a natureza não avisa muito tempo antes. Também pensamos em aumentar efetivo, mas são ações que estão se costurando”, pontuou o secretário.
Sobre obras de longo prazo para diminuir o fenômeno, a Prefeitura informou que ainda analisa a situação.
E as obras do Rio Mathias?
Com grande expectativa de conter os alagamentos da região Central, a obra de macrodrenagem do Rio Mathias permanece inacabada após sete anos.
Iniciada em 2014, ela já teve a previsão de conclusão adiada várias vezes. O projeto prevê a construção de uma galeria de condução e conduto forçado de aproximadamente 2.500 metros de extensão, por baixo de ruas na área Central da cidade, para ajudar na drenagem da água.
Obras do rio Mathias estão paralisadas após rescisão do contrato com a empresa responsável – Foto: Reprodução/NDTVAlém disso, ela também prevê um sistema de contenção e escoamento do rio Mathias, para diminuir as cheias causadas pela alta da maré no rio Cachoeira.
Em 2020, após inúmeros impasses com a empresa responsável pelas obras, a Prefeitura rompeu o contrato e os trabalhos foram suspensos até que uma nova licitação seja lançada. Ainda não há data de quando o processo ocorra. Vereadores também preparam uma CPI para apurar o andamento das obras.
Sobre as obras, a Prefeitura afirma que foi montado um grupo de trabalho para avaliar o processo e, então, as medidas cabíveis serão tomadas.