O frio é bom, o frio é belo. Como provam nossos enternecedores fins de tarde. Mas pode significar algum padecimento. Os dedos que empurram os teclados para a produção deste texto estão petrificados como se fossem hastes de gelo puro.
Com uma luva de lã não dá para teclar. As letras acabam trocadas por outras da “vizinhança”, resultando em erros contínuos. O remédio é escrever “a dedo nu”. Logo, estou obrigado a escrever, sofrendo.
O frio é vasoconstritor, obriga a humanidade a recorrer a velhas ceroulas e sobretudos naftalinados – Foto: Leo Munhoz/Divulgação/NDO “friozim” é até bem-vindo, embora obrigue o vivente a encolher os ombros e a refluir o abdômen, como se o homem buscasse dentro de si mesmo um refúgio aconchegante.
SeguirO frio é vasoconstritor, obriga a humanidade a recorrer a velhas ceroulas e sobretudos naftalinados. O único órgão humano a enfrentar a atmosfera gelada é o nariz, que se antecipa ao corpo como o radar de um avião. Quem o tem adunco e proeminente corre o sério risco de vê-lo transformado numa vírgula de gelo, “fumando” pelas narinas.
Já notaram como a ponta do nasal – destemida como a carranca de um barco Viking – costuma ficar tão gelada quanto a ponta visível de um iceberg? Deveriam inventar luvas próprias para o nariz, em apoio à atual máscara sanitária.
Muito me admiro que algum japonês ainda não tenha patenteado um útil “porta-nariz” para os dias de frio que vamos passar. “Luvas” com dois buraquinhos para a respiração, encaixando direitinho entre os olhos e a boca, como se fosse uma “roupa” para nosso apêndice.
Teríamos porta-narizes de tricô, de couro, de látex, de pelica, de lã pura ou até de vidro, combinando com os óculos. Frio no “naso” é que não passaríamos.
A paisagem de Floripa, com suas baías espelhadas, até parece imitar a Suíça, entre os alpes do Cambirela e os lagos de suas duas baías, mansas e envidraçadas.
Agora, só nos falta aquela neve do inverno de 2013. Bem na crista do Cambirela, lembram-se? O homem não foi feito para o frio, dizem seus detratores. Nem para o calor, digo eu. O frio, pelo menos, admite rápida solução. Nada que um bom pulôver ou uma manta de lã não resolvam. No calor, nem ficar em pelo resolve. Só o ar-condicionado.
Com todo esse frio que vem chegando, prenunciando um inverno rigoroso, a paisagem e as emoções mudaram. O frio azula as montanhas e espalha esculturas de gelo na relva. E os manezinhos colecionam suas queixas:– Essa “friáz” vai dá até uma dori nas junta, mo deugi – como reclama o “amarelo” da Lagoinha.
Felizmente as compensações não são pequenas: o nascer do sol, por exemplo, vindo lá do ventre do Atlântico, é sempre um refulgente espetáculo de luz, que só terá rival no raiar da última aurora, antes do Juízo Final.