Tudo no Brasil anda esquisito. É proibido“falar mal” das instituições, até mesmo“daquelas”, que falam mal de si mesmas. Talvez a proibição inclua o falar mal da própria primavera.
Que teima em definir-se mediante certos estereótipos, segundo os quais é a estação mais bela, a mais florida e a de céu mais imaculado. Menos. Costumava ser a mais chuvosa – e agora, nem isso. Nasceu dominada pelo fenômeno climático“La Niña” e será seca como um cacto espinhoso.
Chegada da Primavera – Foto: PixabayAntigamente, dizia-se que a “nossa prima”era uma promessa de liberdade, as lãs retornavam às naftalinas dos armários, nada “sobrava ao sobretudo” senão o exílio dos cabides. Aos poucos, restabelecíamos gradualmente o império dos “shorts”, das bermudas e dos biquínis, aqueles trapinhos que dividiam dois hemisférios morenos, um fiapo fazendo as vezes de fronteira.
SeguirHaverá hoje em dia alguma verdade nessas linhas do comportamento coletivo? Devolvemos os nossos agasalhos à naftalina? Desenrolamos do pescoço os nossos cachecóis?
Responda o leitor, se não estiver resfriado, com os pés gelados, a garganta irritada,ou – o que é pior – recuperando-se de uma indesejada visita do tal “vírus” bandido. Revelo aqui deste canto um segredo guardado a sete chaves: a primavera austral “não existe”, é apenas uma jogada de marketing. Pior: é um exercício de imitação colonial.
Celebra-se a primavera como a mais bela estação do hemisfério sul não porque ela seja mesmo a mais“formosa”, mas simplesmente por espírito de imitação, assim como aqui vestimos terno e gravata nos trópicos. A primavera é bela lá nas auroras boreais e setentrionais, nos nortes do mundo. Aqui no sul, a bela estação – de verdade – é o outono. Céu de azul profundo, lavado de nuvens e impurezas.
Habituados à imitação, aqui comemos as calorias de nozes e avelãs no Natal, já em pleno verão– e, por que não? – assistimos suas excelências, os nossos ditos “representantes”, gozarem de escandaloso recesso parlamentar em dezembro, janeiro e fevereiro. Sim, esse recesso é pura imitação do parlamentarismo bretão.
Quando Cromwell fez uma revolução pelo fim do absolutismo dos reis, no século 17, nasceu a moderna democracia parlamentar, que exigia representantes das “nações unidas”do reino: Escócia, Irlanda, Gales e Inglaterra, todos reunidos na Câmara dos Comuns, à beira do Tâmisa. Em dezembro, janeiro e fevereiro, a sessão legislativa era suspensa por causadas pesadas nevascas do inverno.
E aqui, por acaso neva em janeiro? Como calorão da época, suas excelências tinham a obrigação de dar o ar de sua desgraça em plenário. Mas é exatamente quando se concede mas férias de verão, de janeiro a março.
Só então declaram aberto o ano legislativo e começam a votar…o aumento do próprio salário. Coisas desse mundão perdido, em que nada mais é certo ou bem definido. Primavera, no hemisfério sul, costuma ser de chuva e céu cinzento. Agora, nem isso. Só para ser do “contra”.