Os relatos da tragédia que assolou a cidade de Presidente Getúlio, no Alto Vale do Itajaí, chocam. São histórias de quem enfrentou a força de uma enxurrada para se manter vivo ou para salvar alguém.
Passado o susto de uma madrugada de pânico, a sexta-feira (18) foi de erguer a cabeça e recomeçar para muitos dos moradores. Mas para outros o pior momento ainda estava por vir: identificar os parentes mortos.
Na porta do Ginásio de Esporte Pereirão, onde foi montada uma base do IGP (Instituto Geral de Perícias) para reconhecimento das vítimas das chuvas, estava Cintia Itamara Bozan.
Cintia carrega fotos do irmão caçula que morreu na enxurrada aos 28 anos de vida – Foto: Talita Catie/NDNo ombro do companheiro, ela chorava após fazer a liberação do corpo do único irmão. Andrei Rangel Bozan tinha 28 anos e morreu ao lado da esposa, Bruna.
O corpo da cunhada, de 27 anos, foi encontrado apenas no final da manhã de sexta (18), a 500 metros de distância da casa onde eles moravam. Era uma foto do casamento do caçula que Cintia segurava nas mãos naquele momento difícil.
Um papel na parede do ginásio traduzia em nomes a tristeza que a jovem expressava em lágrimas. A moradora do bairro Revólver, o mais prejudicado pela tempestade, perdeu nove familiares.
Avó, primos e tios estão entre os mortos. Um deles é o pequeno Ariel, de 5 anos. O garoto era filho de Daniel Wiese, de 44 anos, tio de Cintia.
Ele chegou a sair de casa quando a rua começou a alagar para tentar socorrer a própria mãe, que morava sozinha perto da residência dele. Não conseguiu. A esposa também faleceu.
“A gente escutou eles berrarem na hora que a casa foi levada. Minha avó foi a primeira a ser achada. Os irmãos, os tios, tudo achado longe. Foi desesperador, estamos sem chão”, desabafa.
Na manhã desta terça-feira (22), após sete dias de buscas, o último corpo da última vítima desaparecida desde a enxurrada. Com isso o total de mortes por causa do temporal do Alto Vale do Itajaí chegou a 21.
Óbitos causados por afogamento e soterramento, de acordo com o perito Kenzo Matsubara, responsável pela identificação dos corpos. Não há mais registro oficial de pessoas desaparecidas.
Idoso salvou jovem com lençol
O olhar desolador de Zélia, de 82 anos, comove quem passa pela principal rua do bairro Revólver. É preciso atenção para percebê-la ali, sentada no banco em frente à casa, quase escondida atrás de destroços trazidos pela água. Um carro ficou preso junto ao poste de luz.
Quem está com a idosa de fala gentil é o marido. Alfredo trabalhava arduamente para retirar a lama do pátio da residência na manhã de sexta-feira (18). Como todos os vizinhos, teve prejuízos, mas particularmente também teve uma vitória.
Quando a água começava a subir na rua e invadir as casas, ele ouviu gritos vindos da estrada. A motorista do carro, o que ainda está na frente da casa, precisava de ajuda. Ela estava em cima do veículo, ilhada.
A correnteza era forte para ser enfrentada de peito aberto, sobretudo por um homem de 87 anos. Mas se o corpo já não tem a mesma força da juventude, foi usando a cabeça que ele fez o resgate.
A vítima se soltou do veículo e conseguiu se segurar em um pé de jabuticaba mais próximo à casa da família Rossi. Alfredo então jogou um lençol e pediu para que a motorista se agarrasse. A estratégia deu certo e ele conta aliviado o feito, embora fique com voz trêmula ao lembrar da situação.
FOTOS: veja quem são as vítimas das chuvas no Alto Vale do Itajaí
As marcas da tragédia e as buscas
Ao longo do bairro Revólver as cenas de destruição se multiplicam. Pás não dão conta de tirar o barro que desceu dos morros formando vincos na vegetação. A prefeitura de Presidente Getúlio precisou colocar máquinas nas ruas.
No dia seguinte à tragédia, o barulho dos equipamentos contrastava com o silêncio da perda e da angústia por informações de quem seguia desaparecido.
Valter e Alice Kloth, dois idosos, estavam com mais três pessoas quando a água invadiu a casa da família. O corpo da filha do casal, Vera, de 48 anos, foi localizado na quinta (17). o da mãe dela, no domingo (20). O pai, Walter, foi encontrado apenas na manhã de terça (22), quase uma semana depois da enxurrada. Apenas o genro e a neta dele sobreviveram.
Fabiana Sehnem, vizinha dos Kloth, fala com alegria dos tradicionais “bom dia” vindos dos aposentados todas as manhãs. Na madrugada de quinta-feira (17), ela ouviu os pedidos de socorro da família, mas a água já estava muito alta para conseguir ir ajudar.
“Eles estavam abraçados quando o vidro da janela estourou com a força da água. O Valdemar veio parar aqui fora e depois a gente pegou ele. A menina conseguiu se segurar numa ponte. O corpo da Vera encontraram atrás da casa e os idosos ainda não sabemos”, relata.
Bombeiros de diversas cidades do Estado, inclusive com o apoio de cães farejadores, faziam buscas durante a manhã de sexta (18) no imóvel da família na tentativa de localizar os desaparecidos, mas sem sucesso. As buscas por vítimas seguiram até a manhã desta terça (22), quando o último corpo foi localizado.
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Uma cidade para reconstruir
O prefeito de Presidente Getúlio, Nelson Virtuoso, conta com o apoio dos governos Estadual e Federal para recuperar a cidade. Além das casas particulares, prédios públicos, como Apae, postos de saúde e escolas, foram danificados.
Equipes do 23º Batalhão de Infantaria, de Blumenau, ajudam na limpeza da cidade e devem atuar na reconstrução de pontes levadas pela água da enxurrada. Em visita recente ao Vale do Itajaí, o governador Carlos Moisés afirmou que não faltará auxílio ao município.
O chefe do Executivo Municipal falou ao Balanço Geral Blumenau na edição de sexta-feira (18). Confira: