Em um dia como esta quarta-feira (2), mas há 20 anos, o Manezinho Guga Kuerten, no auge dos seus 24 anos, em Lisboa (POR), se preparava para chegar ao topo do ranking da ATP Finals, liga que reúne os tenistas mais bem classificados do mundo. Além da sua conquista individual, a subida no pódio, no dia 3 de dezembro de 2000, serviu para representar o Brasil, pela primeira vez, na Era Aberta, desde 1968.
Guga relembra os 20 anos da chegada ao topo do tênis mundial – Foto: Reprodução/Twitter/ATP/NDMaior tenista brasileiro de todos os tempos, número 1 do mundo e tricampeão de Roland Garros, Guga relembra como se a distância para aquela data fosse apenas 20 dias por conta dos detalhes ao contar toda a sua luta, trajetória e dos duelos diante dos americanos Pete Sampras e Andre Agassi – dois dos principais jogadores de sua geração.
“Guga, vamos ser o número 1 do mundo?”
O Manezinho conta que a frase foi dita pelo seu treinador, Larri Passos, na sua viagem de volta do Masters de Miami, quando perdeu para Pete Sampras. No entanto, o capítulo serviu para fortalecer o tenista.
Seguir“Após quatro horas de partida, vendo o Sampras com gelo nas costas e nos ombros, eu vi que ele era um humano, que seria possível vencer porque ficou por um detalhe”, relembra.
Larri Passos foi o treinador de Guga durante sua carreira – Foto: Reprodução/Instagram/NDAssim como ao longo de toda sua carreira, Larri Passos foi uma peça fundamental para a construção de toda a sua história, ou seja, em 2000 não seria diferente.
Guga detalha que a forma de treinamento era ímpar, sempre inserindo informações, mas sem entregar o ouro.
“Ele foi dando o retoque final para eu ser o número 1, desde a forma do saque cruzado, de avançar na rede e me fazer entender que não precisava atacar o tempo inteiro porque a quadra era rápida”, conta o tenista.
Era questão de tempo para alcançar o primeiro lugar do ranking. Sempre chegando em finais. Porém, a certeza de que o topo chegaria começou a jogar contra o tenista de apenas 24 anos.
Guga relembra que o sentimento de pressa, a necessidade de alcançar de uma vez por todas, consumiu o sorridente brasileiro, toda a harmonia construída ao longo dos anos de trabalho e foi contagiada pela impaciência que afetou o restante das pessoas ao seu redor. Diferente do habitual, com uma expressão mais séria, o ex-tenista relembra que o carinho da sua mãe foi fundamental para conseguir passar por este momento.
“Dentro de casa, no meu quarto, enquanto eu não conseguia dormir, ela ficava ao meu lado, conversando, me dando carinho e afeto. Foi literalmente aquilo que me trouxe de volta. O meu estado de espírito havia ido embora, mas foi ali, novamente, regado, que foi trazendo a esperança e brotando o sentimento de apenas aproveitar o momento em quadra, é esse o Guga de sempre”, detalhou.
Com o emocional reconstruído, Guga precisou superar as dores nas costas para chegar na virada do ano como o número 1 do mundo. A lesão veio diante da derrota, de virada, para Andre Agassi, no primeiro jogo da competição. Porém, contou com aces – ponto por saque direto – para se recuperar, sendo 19 na final e 62 no total de toda a competição.
Guga enfrentou o norte-americano Pete Sampras, na semifinal, e conseguiu conquistar a sua primeira vitória. Já na final, o tenista relembra que a sensação era de vitória, mesmo antes de entrar em quadra.
“Nós estávamos prontos para sair vitoriosos e a final com o Agassi me parecia que era um simples protocolo. Esse foi o nível de performance que eu consegui, eu senti que estava treinando e tudo que fazia estava dando certo”, detalha.
Veja os principais lances da final
O tênis na atualidade
Exatos 20 anos depois, Guga acredita que os tenistas evoluíram e, por conta disso, é um desafio ainda maior “arrancar” Novak Djokovic (Sérvia), Rafael Nadal (Espanha) e Dominic Thiem (Áustria), por exemplo, do topo da lista do ATP.
“A experiência e maturidades desses caras, com o esquema atual, cuidados físicos e longevidade deixaram uma grande encruzilhada para quem está esperando uma brecha. Você precisa batalhar muito para tirar esses caras do topo”, explicou Guga.
Após elogiar o desempenho dos tenistas atuais, Guga relembra que o profissional que conseguir “quebrar” o reinado das estrelas, também, será muito lembrado. Quem sabe, um brasileiro para retornar ao topo depois do Manezinho mais conhecido do mundo. Vale a torcida.