BR-101 tem velocidade de até 10 km/h e comprometimento da capacidade viária

Estudo da Fiesc aponta problemas na rodovia que corta Santa Catarina com base na ferramenta internacional Highway Capacity Manual (HCM)

Foto de Paulo Mueller, NDTV

Paulo Mueller, NDTV Florianópolis

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A capacidade viária em alguns trechos da BR-101 está no limite. Essa é a conclusão de um estudo da Fiesc (Federação das Indústrias de Santa Catarina) com base em uma das mais importantes ferramentas da engenharia de tráfego. O Highway Capacity Manual (HCM) é uma metodologia internacional para medir a fluidez do trânsito e o comprometimento dos serviços de uma rodovia.

Movimento na BR-101 na região da Grande Florianópolis – Foto: Leo Munhoz/NDMovimento na BR-101 na região da Grande Florianópolis – Foto: Leo Munhoz/ND

O método utiliza variáveis como velocidade, tempo e atraso de uma viagem, liberdade para manobras, interrupções na via, conveniência e conforto dos usuários para calcular se um ponto está ruim ou bom em termos de velocidade.

Técnicos da Fiesc aplicaram o HCM no trecho Norte da BR-101 e evidenciaram que a travessia na Grande Florianópolis, de Penha a Itapema, e na região de Joinville, tem restrições severas de trafegabilidade.

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De acordo com Egídio Antonio Martorano, gerente de logística e sustentabilidade da Fiesc, o método tem uma classificação de A até F. Em média, o índice na BR-101 ficou em C, D e E, mas em alguns dias e horários o ‘Grupo de Estudos BR-101 do Futuro’ encontrou a rodovia no pior nível (F).

“No índice F, ela [a BR-101] chega a ter uma velocidade de menos de 10 quilômetros por hora, em média, na Grande Florianópolis. Isso representa muitas vezes um caminhão paralisado uma ou duas horas, até três horas, em determinados horários”, alerta Martorano.

Rodovia não acompanhou crescimento

Vários fatores influenciaram no estrangulamento do principal eixo rodoviário de Santa Catarina. Entre eles estão o crescimento populacional no entorno da BR-101, o aumento da frota de veículos no Estado, a instalação de novos empreendimentos nas cidades cortadas pela rodovia, e a falta de melhorias na infraestrutura viária.

Crescimento de Balneário Camboriú no entorno da BR 101 – Foto: Acervo FIFESC/DivulgaçãoCrescimento de Balneário Camboriú no entorno da BR 101 – Foto: Acervo FIFESC/Divulgação

Quem paga a conta do trânsito parado por ali é toda a sociedade, impactada direta ou indiretamente pela lentidão no escoamento da produção catarinense.

Para o presidente da Fiesc, Mario Cezar Aguiar, o Estado corre o risco de perder competitividade porque Santa Catarina tem uma indústria e uma economia pujante em exportações, principalmente para os Estados Unidos, e isso depende de um bom corredor logístico.

“Se nós não tivermos essa competitividade que, aliás, já temos um custo elevado logístico, nós perderemos mercado trazendo prejuízo com desemprego e menos geração de impostos”, ressalta Aguiar.

Reflexos no trecho Sul

A preocupação do GT BR-101 do Futuro é de um possível efeito cascata dos problemas do trecho Norte ao longo de toda a rodovia. Um motorista, por exemplo, em deslocamento de Criciúma rumo ao estado de São Paulo, vai ficar engarrafado na região metropolitana de Florianópolis, ou pegar trânsito entre Itapema até Penha, ou ainda em Joinville.

No pior cenário, enfrentar lentidão em todos esses gargalos e, consequentemente, aumentar o tempo e custo da viagem.

Um certo alento está na projeção de investimentos nos 220 quilômetros da BR-101 entre Paulo Lopes e São João do Sul. O trecho foi concessionado em julho de 2020.

A CCR Via Costeira deve investir R$ 7 bilhões nos próximos 30 anos de concessão em obras de recuperação, conservação, manutenção, operação, melhorias e ampliação da capacidade da rodovia. Desse montante, R$ 200 milhões devem ser aplicados no primeiro ano de gestão da rodovia.

A única obra viária prevista no contrato original de concessão no trecho Norte é o Contorno Viário da Grande Florianópolis, que, por sinal, deveria ter ficado pronta em 2012, quase uma década atrás. Os 51 km de pista dupla devem ser uma alternativa para desafogar o trânsito na Região Metropolitana da Capital.

Outras intervenções no trecho foram incorporadas ao contrato, como a construção das terceiras faixas entre Palhoça e São José, as marginais e pontes em Balneário Camboriú, além obras de menor porte.

Para os gargalos nas regiões de Joinville e Itajaí não existe projeto aprovado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres nesta concessão, que vence em 2032 apesar das propostas de soluções terem sido apresentadas e entregues à ANTT pela Fiesc.

Potencial ameaçado

Corporações nacionais e multinacionais estão de olho no entorno da BR-101, para instalar novos empreendimentos. Desde setembro de 2019, quando a Secretaria de Desenvolvimento Econômico passou a controlar melhor a procura da iniciativa privada pelo Estado, em torno de dez empresas tiveram conversas com o governo catarinense para montar negócios por aqui.

A secretaria informou que, somente no entorno da BR-101, existem atualmente 12 empresas com R$ 1,053 bilhões, habilitados por meio do Prodec (Programa de Desenvolvimento da Empresa Catarinense) para instalação ou expansão das atividades, gerando 988 empregos.

A Secretaria da Fazenda de Santa Catarina afirma que toda semana o governo catarinense é procurado por empresários interessados em trazer a marca para o Estado.

Paulo Eli, secretário estadual da Fazenda, entende que as decisões de investimentos são globais e o empresariado só investe em um lugar se houver retorno. Nesse caso, a infraestrutura acaba sendo uma matéria-prima vital para o desenvolvimento sob pena de perder mercado e oportunidades.

“Cada real que o Estado investe hoje em infraestrutura municipal, estadual ou federal, retorna depois várias vezes em tributos. Então, esse é um investimento que o Estado precisa fazer porque senão ele vai ficar estagnado”, admite Eli.

Preocupação com o futuro

Itapoá, no Litoral Norte, tem no turismo, no porto e na construção civil as principais atividades econômicas. Para os 21.177 moradores, a BR é como uma artéria vital do corpo humano.

“Nós dependemos da BR-101 para o acesso dos veranistas, dos turistas, para a nossa cidade, e também de todo o transporte logístico. Sem a BR-101 não se consegue ter acesso ao município e ao complexo portuário da cidade”, lembra o prefeito Marlon Neuber (PL).

A cidade está preocupada com a atual condição da rodovia, que pode comprometer ou até frear o crescimento de toda a região. “Essa preocupação ela é latente, ela é real e não é prospectando o futuro. É uma preocupação desse momento”, conclui Neuber.

O Porto de Itapoá tem um projeto de expansão com investimentos de R$ 1,5 bilhão nos próximos dez anos. Com isso, devem ser abertas 500 novas oportunidades, chegando a 1500 empregos diretos e 5 mil indiretos.

2 milhões de TEU´s serão movimentados por ano com ampliação do Porto de Itapoá – Foto: MARCELO FEBLE/NDTV Record TV2 milhões de TEU´s serão movimentados por ano com ampliação do Porto de Itapoá – Foto: MARCELO FEBLE/NDTV Record TV

Os berços de atracação serão ampliados de dois para três, a área de pátio de 250 para 455 mil m2, e a capacidade de movimentação passará de 1,2 para 2 milhões de TEU´s por ano.

Conforme o presidente do porto de Itapoá, Cassio José Schreiner, a nova condição portuária refletirá no corredor logístico da região, com mais caminhões nas rodovias estaduais de ligação à cidade, como na BR-101.

Se caminhões ficarem parados em congestionamentos, o prejuízo será amargo para os empresários, cidadãos, município, Estado e União. “Se a gente tem um gargalo que não facilita a fluidez do nosso trânsito nas rodovias, certamente nós estamos perdendo dinheiro, perdendo produção, geração de renda, emprego. Certamente é o Estado que mais vai acabar sofrendo as consequências e, no final do dia, a sociedade que acaba perdendo”, alerta Schreiner.

Santa Catarina é o segundo estado no ranking de movimentação de conteiners no Brasil, e supera o volume de toda a Argentina. Em 2019, segundo a Fiesc, os cincos portos catarinenses movimentaram 10,4 milhões de TEU´S.

Sem o modal ferroviário, a única forma de levar de um lado a outro todo esse volume é pelas estradas. No ano passado, 21.096 caminhões circularam por dia pela BR-101 só para fazer o transporte entre os complexos portuários, exportadores e importadores das cargas.

Crescimento em torno da BR 101

Em 2019, o entorno da BR-101 catarinense concentrava 3,5 milhões de moradores.  O número é 20% maior em relação a 2010. Daqui a oito anos, as projeções da Fiesc indicam que devemos superar 4 milhões de habitantes nas cidades cortadas pela rodovia. O aumento da densidade demográfica é facilmente percebido se voltarmos no tempo e observamos imagens como as de Balneário Camboriú e Itapema.

Crescimento de Itapema no entorno da BR-101 – Foto: Acervo Fiesc/DivulgaçãoCrescimento de Itapema no entorno da BR-101 – Foto: Acervo Fiesc/Divulgação

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