Enquanto a maioria das famílias se reuniu em clima de alegria para celebrar o Natal no último dia 25, nas casas dos caminhoneiros João Maria Pires, 60 anos, e Marcio Rogério de Souza, 51, provavelmente, a data foi marcada pela saudade. Os dois morreram no deslizamento na BR-376, perto da divisa entre o Paraná e Santa Catarina, que completa um mês nesta quarta-feira (28).
Duas pessoas morreram no deslizamento na BR-376, em 28 de novembro – Foto: CBMSC/DivulgaçãoA chuva que caía intensa e volumosa havia vários dias em Guaratuba deixava o solo encharcado, um cenário que vem se repetindo nos últimos meses em Santa Catarina. Às 15h, um primeiro deslizamento interditou a rodovia. Mas foi às 19h, quando já era noite, que a tragédia aconteceu.
No km 668, a encosta cedeu, fazendo descer a terra que arrastou carros e até pesadas carretas para uma ribanceira. Chovia, estava escuro e ninguém tinha a exata dimensão do que havia acontecido. Não até que o dia clareasse, mostrando o tamanho da destruição.
SeguirCentenas de bombeiros e policiais, além de profissionais da Arteris Litoral Sul, foram mobilizados para ajudar no socorro às vítimas. No início, a projeção era de que poderia haver até 30 pessoas soterradas em meio aos veículos e à terra que os cobria.
Cães de busca e câmeras térmicas também foram usados para tentar encontrar sobreviventes ou mesmo vítimas fatais. Com o término das buscas, quatro dias depois, o Gabinete de Crise instalado pelo governo do Paraná informou que o deslizamento deixou duas pessoas mortas. Seis foram resgatadas e outras seis conseguiram sair sozinhas do local.
Deslizamento na BR-376 mobilizou bombeiros e policiais – Foto: Ricardo Alves/NDTVAlívio aos que sobreviveram, tristeza a quem perdeu alguém
As histórias dos sobreviventes repercutiram após o deslizamento na BR-376. Entre elas, a do prefeito de Guaratuba, que por pouco não foi atingido pela terra, e a do caminhoneiro José Altair Biscaia, que teve o caminhão arrastado para a ribanceira e gravou um vídeo de dentro da cabine.
Já para as famílias de João Maria Pires e Marcio Rogério de Souza, a agonia em busca de notícias se transformou em tristeza após a descoberta de que os dois caminhoneiros haviam morrido no local.
Caminhão de João Maria ficou pendurado em ribanceira – Foto: Ricardo Alves/NDTVJoão Maria dirigia um caminhão de contêiner vermelho que ficou “pendurado” na ribanceira. Uma testemunha do acidente disse ter visto quando o motorista caiu na ribanceira ao tentar sair da cabine. “Hoje ainda eu estava comentando que ele sempre quando chegava de viagem queria assar carne e tomar cerveja. Agora fica a saudade”, comentou à época Maurício Rodrigo Alexandre, ex-genro de João.
Para a família de Marcio Rogério, a angústia começou ao reconhecer que o caminhão do motorista estava no local, horas depois do deslizamento. O corpo dele, contudo, foi retirado na quinta-feira (1º).
João Maria e Marcio Rogério morreram no deslizamento na BR-376 – Foto: Internet/ReproduçãoUm mês depois, o que se sabe sobre o deslizamento na BR-376
Um mês após o deslizamento, a Arteris Litoral Sul, concessionária que administra a rodovia, informou que “qualquer afirmação sobre as causas do deslizamento ainda é prematura”.
De acordo com a empresa, em julho deste ano um laudo atestou que o trecho apresentava a classificação mais baixa de risco. “O documento foi disponibilizado pela concessionária aos órgãos competentes logo após a sua emissão. Além de um compromisso com a segurança dos usuários, a avaliação por consultoria externa atende a requisitos contratuais.”
A concessionária informou, ainda, que conta com um programa permanente de monitoramento de encostas que contempla 1.947 estruturas, inclusive a do km 668,7 da BR-376, onde houve o deslizamento.
Imagens áreas mostram dimensão do deslizamento na BR-376, em Guaratuba – Vídeo: Governo PR/Divulgação
Sobre o apoio às vítimas, a Arteris disse que prestou o atendimento pré-hospitalar e apoiou os trabalhos de buscas, tendo enviado maquinários pesados de escavação, veículos de grande porte para retirada de terra e mais de 100 colaboradores. “As pessoas envolvidas na ocorrência foram procuradas pela empresa, que segue à disposição de todos”, disse em nota.
A Dedetran (Delegacia de Delitos de Trânsito) do Paraná abriu inquérito para apurar as responsabilidades a respeito do deslizamento na BR-376. O portal ND+ buscou contato com a Polícia Civil para saber sobre o andamento da investigação, mas não houve retorno até o fechamento desta matéria.
Após o deslizamento, a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) enviou ofício à Arteris cobrando um plano de ação quanto à estabilização das áreas afetadas, além do acesso a documentos sobre as ocorrências de rompimento e desestabilização de encostas.
Liberação completa da BR-376
A BR-376 segue liberada parcialmente no trecho em que houve o deslizamento. Na pista Sul, foi instalada a tela de alta resistência, que oferece mais segurança e permite a abertura reversível de, pelo menos, mais duas faixas para o trânsito.
Arteris Litoral Sul instalou barreira dinâmica para passagem segura de veículos na BR-376 – Foto: Arteris Litoral Sul Divulgação NDEm 30 dias, a concessionária pretende liberar outras duas faixas na pista Norte, onde uma cortina de concreto também foi atingida pelas chuvas de 28 de novembro. O local já estava em obras de estabilização de talude e o trabalho será totalmente concluído em 180 dias.