‘É meu aniversário de vida’, diz sobrevivente sobre um ano do acidente na BR-376

25/01/2022 às 06h30

A professora Andréa Lédo estava no ônibus que tombou na rodovia causando a morte de 19 pessoas, em janeiro de 2021

Juliane Guerreiro Joinville

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“Eu comemoro todo dia 25, mas agora, neste ano, eu começo a contar que é meu aniversário de vida. É como se eu estivesse completando um ano de vida agora porque, pra mim, a sensação é que eu renasci, tive a oportunidade de permanecer”. A fala emocionada é de Andréa Lédo, uma das sobreviventes do grave acidente na BR-376, na divisa entre Paraná e Santa Catarina, que aconteceu em 25 de janeiro de 2021.

Relógio de Andréa parou exatamente às 8h31, horário do acidente de ônibus – Foto: Juliane Guerreiro/NDRelógio de Andréa parou exatamente às 8h31, horário do acidente de ônibus – Foto: Juliane Guerreiro/ND

A professora universitária, hoje com 46 anos, saiu do Pará com destino a Joinville, onde sonhava em fazer doutorado e viver com o filho mais novo. A cidade tem atraído muitas pessoas do Nordeste e do Norte do país, tanto pelas oportunidades de emprego quanto pela tranquilidade. Assim, como a maioria dos passageiros do ônibus da TC Turismo, Andréa queria vida nova no Sul do país.

O filho, à época com 13 anos, viria junto com a mãe, mas uma confusão antes da saída do veículo fez com que ele ficasse nervoso e mudasse de ideia. Já Andréa seguiu em uma viagem que foi tranquila em todo o trajeto até o Paraná, fez amizades com pessoas que conheceu no ônibus e, como os demais passageiros, fez parte do café da manhã no posto, que simbolizava a chegada ao destino final.

“As pessoas já estavam comemorando que a gente ia chegar, ligando para os seus familiares e, de repente, o motorista falou ‘vamos’? Eu tenho essa memória comigo, de todo mundo ali aliviado que estava chegando e, 15 minutos depois, a memória de as pessoas estarem gritando, de pessoas terem partido, de pessoas estarem muito machucadas, dos gritos”, relembra a professora.

Professora, aliás, foi como Andréa ficou conhecida no ônibus e uma das primeiras palavras que ouviu após o acidente. “Só consigo lembrar da velocidade que o ônibus tomou e de uma curva muito forte. Quando o ônibus pegou assim, mais para a direita, parece que já capotou. E, quando eu desperto, sou chamada de professora, alguém dizia ‘professora, volta, por favor’”, destaca.

Embora não tenha memórias exatas do momento do acidente, os minutos após a tragédia não saem da cabeça. Aliás, vão e vem, quando Andréa nem mesmo quer lembrá-los. “Um rapaz morreu. Ele tinha acabado de me pedir ajuda, chorava e dizia ‘me tira daqui’ e eu não conseguia me movimentar. Eu lembro que dei a mão pra ele e falei algo como ‘Jesus vai cuidar da gente, alguém vai nos ajudar’”.

E a ajuda realmente veio. Antes mesmo de os bombeiros chegarem ao local, dois moradores da região ajudaram a retirar Andréa do veículo. “Um rapaz chutou a porta com força, entrou, viu que eu estava descalça, que meus óculos tinham quebrado, que estava sangrando e foi um anjo, dizia ‘calma, calma, eu vou te carregar’”, relembra.

Ônibus caiu em ribanceira após sair da pista no km 668 da BR-376 – Foto: Ricardo Alves/NDTVÔnibus caiu em ribanceira após sair da pista no km 668 da BR-376 – Foto: Ricardo Alves/NDTV

Já fora do ônibus, ela foi socorrida por outro homem, o guincheiro Cleiton Santos Alves. “Ele ajudou a me carregar e os dois me tiraram porque eram muitas ferragens. Lembro dele falar assim ‘não olha, não olha’ e colocou a mão. Só que é tanta coisa na hora que eu olhei aquilo que estava ali fora do ônibus. São lembranças horríveis”.

Cleiton ainda deixou o próprio celular com Andréa enquanto ajudava outras vítimas, a fim de que ela pudesse tentar contato com o filho mais velho, Antônio Pedro Lédo, que estava no Pará. No celular de Antônio, o contato de Cleiton está acompanhado da frase “salvou mamãe”.

Andréa foi levada ao Hospital Municipal São José, em Joinville, de onde ganhou alta três dias depois. Ela teve três costelas e um dos arcos costais quebrados, além de três fraturas na lombar, o que fez com que perdesse dois centímetros de altura.

Como resultado, sente dores, não pode carregar mais do que 5 kg e não consegue ficar mais de uma hora parada em pé. “Fisicamente eu ainda vou me recuperando, com dificuldade em algumas coisas, mas estou bem. Me considero bem, em recuperação, porque tudo o que eu vi, tudo que eu vivi, é complicado demais de esquecer”, desabafa.

Andréa ganhou alta na mesma semana do trágico acidente – Foto: Arquivo pessoal/NDAndréa ganhou alta na mesma semana do trágico acidente – Foto: Arquivo pessoal/ND

Lembranças que insistem em ficar guardadas

Passado um ano do acidente, as lembranças insistem em surgir. Ainda pior foram os dias logo após a tragédia: “durante muito tempo eu tive dificuldade para dormir. Quando eu começava a dormir parecia que eu estava ouvindo as pessoas me pedindo ajuda, os gritos, alguns procurando filho, outros [procurando] a mulher… Eu acho que vai ser sempre difícil lembrar desse dia”, conta Andréa.

Acidentes semelhantes também fazem com que as memórias resistam. Um exemplo é o acidente com um ônibus que também vinha do Pará para Santa Catarina com 55 passageiros e que acabou pegando fogo na mesma rodovia, mas em Ponta Grossa (PR). Para Andréa, a situação funcionou como um gatilho que a fez lembrar do próprio acidente e da impunidade relacionada ao caso.

Diante das lembranças, a professora recorreu à terapia ao perceber que não conseguia sair daquele estado. “Eu sou muito sorridente e sentia que eu mesma não sorria. É como se eu não sentisse a alegria de novo”, lembra. Com as sessões, conseguiu apaziguar as emoções ruins, como a culpa que acabou sentindo por ter viajado no ônibus.

Com o tempo, também conseguiu entrar em um veículo como esse novamente e até passar pelo km 668 da BR-376, trecho onde ocorreu o acidente. “Na primeira vez que passei, foi muita angústia, foram muitas lembranças. Depois elas foram mais sutis: é aquela angústia, tristeza, que vai ficando mais branda”, conta.

Como outras pessoas envolvidas no acidente, Andréa sente falta de uma responsabilização a quem organizou a viagem. “Creio muito seriamente que, se houvesse punição de fato, isso traria não só o senso de justiça para nós, mas seria um movimento de cadeia que impediria que outros fizessem a mesma coisa. Hoje eu tenho ciência de que vim numa situação extremamente perigosa”, destaca.

Andréa vive com o filho mais novo e os dois gatinhos da família – Foto: Juliane Guerreiro/NDAndréa vive com o filho mais novo e os dois gatinhos da família – Foto: Juliane Guerreiro/ND

Joinville como nova casa

Na sala do apartamento alugado em que vive desde que ganhou alta médica, uma placa decorativa com a frase “Lar doce lar” simboliza aquilo que Andréa sente pela cidade que a acolheu ainda dentro de uma ambulância. “Quando ela parou e abriram as portas, uma pessoa ficou perto do meu braço e falou ‘calma, maninha, você já está aqui com a gente’ e, para nós, de Belém, o termo maninha é muito carinhoso”, diz.

Acompanhada do filho mais novo e de dois gatinhos, ela aproveita a tranquilidade pela qual sonhava quando deixou o Pará com destino a Joinville. “Mesmo com tudo isso, Joinville é um amor para mim. Eu digo que Joinville cuida de mim como se fosse uma mãe. Aqui eu tenho paz de espírito, sinto que minha casa é aqui”, conta.

Joinville virou o doce lar da sobrevivente Andréa – Foto: Juliane Guerreiro/NDJoinville virou o doce lar da sobrevivente Andréa – Foto: Juliane Guerreiro/ND

Entre os planos para o futuro, estão o de continuar na cidade que a acolheu com o filho e lutar para que acidentes como o que viveu possam ser evitados. “Não penso em um sonho, mas no objetivo de diminuir esse tipo de viagem perigosa. Eu quero, não só por mim, mas pelas pessoas que ficaram e que morreram naquela viagem, que isso diminua, que seja feito de uma maneira legal”.

Esta reportagem faz parte de uma série sobre o acidente na BR-376. Leia também: como foi a tragédia e o socorro às vítimas, o relato de quem perdeu um familiar que buscava nova vida no Sul e o desejo de justiça das vítimas do acidente.