Florianópolis tem uma ligação forte com o surfe. As praias da capital catarinense têm as condições ideais para surfar as melhores ondas. Mas o esporte tem trazido dor de cabeça e até pesado no bolso de alguns surfistas da cidade.
Reginaldo Gomes Ferreira é um deles. Ele pratica o esporte há mais de 40 anos e foi multado por transportar a sua prancha em um ‘reck’, que fica acoplado à sua moto. Uma prática comum entre outros surfistas e um acessório usado há décadas.
Surfistas são multados por transportar pranchas em motocicletas em Florianópolis – Foto: Reprodução/NDTV RecordTV“Fui parado na blitz. Não tive a orientação exata. Não ficou claro para mim o suporte da moto e, infelizmente, a gente usa moto há muitos anos e nunca fomos parados por causa do reck. É uma prática comum já há muitos anos. Realmente, estamos surpresos com essa atitude recente do comando da Polícia Militar”, disse Ferreira.
O atleta amador Bruno Passos, da Praia dos Ingleses, também foi autuado em uma fiscalização da PM (Polícia Militar). O motivo foi o mesmo: o transporte de pranchas no ‘reck’ da moto.
Passos contou que está “tendo que ir para a praia de bicicleta, nos pontos [mais perto]. Agora, para ir para a Joaquina, Praia Mole, Campeche, eu já nem tô indo”.
“Austrália, Estados Unidos, Indonésia, principalmente Indonésia, alugar pranchas com reck é meio de vida lá. A primeira coisa que tu faz quando tu desce no aeroporto é alugar uma moto com um reck para poder ir pras praias”, destacou o também surfista Jefferson Lopes.
Ferreira pagou a multa de R$ 200 e ainda perdeu 5 pontos na carteira de motorista. Ele está recorrendo da infração, mas acredita que esse tipo de autuação é apenas punitiva.
“Imagina, o surfista chega aqui de viagem, vai alugar uma moto e vai ser ‘presa’ a moto porque ele vai tá com o reck. Ele vai ter uma surpresa. Então, o que isso vai trazer de benefício para a nossa comunidade?”, questionou Ferreira.
Os surfistas sempre usaram esse tipo de acessório nos curtos trajetos até a praia. No entanto, desde o começo deste ano, o número de multas por transitar com esse tipo de equipamento tem chamado a atenção dos esportistas. Assim como em outros estados e países, o ‘reck’ de prancha sempre foi liberado e sem qualquer tipo de punição.
“Principalmente agora nessa época do verão, que tem muito trânsito e a galera usa muito as motos pra poder chegar até a praia. Então, eu acho que isso daí não devia ser proibido de jeito nenhum”, defendeu o presidente da Associação de Surf Praia da Mole, Sandro Salvador.
A PMRv (Polícia Militar Rodoviária) disse que a lei de trânsito não permite a instalação de acessórios, como o ‘reck’ de pranchas, em motocicletas por trazer riscos ao condutor. “O transporte de prancha apenas pode ser feito por veículo automotor, que não seja motocicleta, no rack ou no compartimento de carga. A motocicleta não pode transportar prancha em hipótese alguma, nem mesmo nesses suportes que são comprados especificamente para o transporte da prancha”, explicou o comandante do 1º Batalhão da PMRv, Marcus Vinícius dos Santos.
O comandante destacou ainda que até o transporte de gás e água tem um regramento específico e que, na prática, boa parte dos entregadores também está fora da lei,Já que as estruturas usadas não estão de acordo com a legislação.
“Motocicleta é um veículo instável, que por sua natureza exige muita atenção. A aerodinâmica é muito alterada com a prancha acoplada à motocicleta, gerando muito perigo a segurança de todos os usuários das nossas vias”, afirmou Santos.
Sobre o transporte de pranchas, o consultor de trânsito Murilo Vessling explica que o ‘reck’ não está na resolução e que foge dos padrões de tamanho e formato dos acessórios que são permitidos: “Carga incompatível é aquela que excede os limites de peso, capacidade máxima de tração ou ainda limites laterais, que seria o caso da prancha. E também fala da altura ou comprimento do veículo. Exemplo: caixas, tubos de PVC, prancha de surf, madeira, pacotes, embalagem, botijão de gás em cima da grelha, galões de água mineral em suporte lateral, dentre outros. É exatamente isso que está escrito na explicação que o Conselho Estadual de Trânsito nos traz.”
O que os surfistas querem é um amplo debate sobre as regras de utilização desse tipo de equipamento nas motos. Só com mudanças na lei, o ‘reck’ de prancha poderia se tornar um acessório permitido.
Para o surfista Passos, “seria legal ter uma regulamentação para isso, porque a gente precisa disso, porque a gente mora num ponto turístico onde movimenta a praia, movimenta muito banhista e a gente precisa dessa regulamentação porque a gente não quer andar escondido. A gente quer andar regulamentado”.
Confira mais informações na reportagem do Balanço Geral Florianópolis.