“Esse foi o ano mais difícil, mais dolorido. É um vazio, uma falta que o tempo não vai acabar”. Entre as famílias que viveram – e ainda vivem – a perda das 19 vítimas do acidente na BR-376, está a de Thiago dos Santos Barros. Aos 33 anos, ele saiu do Pará em busca de novas oportunidades, mas nunca chegou a Santa Catarina para viver o que sonhava.
Thiago tinha 33 anos e queria trabalhar em Santa Catarina – Foto: Arquivo pessoal/NDMorador de Mosqueiro, a cerca de 80 km de Belém, Thiago era conhecido por ser uma pessoa carismática. “Era muito parceiro, muito família”, conta a tia, Maridalva dos Santos Barros.
Pai de uma menina de 10 anos, Thiago vivia com a mãe e queria trabalhar como vendedor de roupas. Para isso, vendeu o carro e comprou as peças para revender, mas a pandemia dificultou os planos.
Foi então que decidiu partir rumo a Santa Catarina, onde seria recebido pelo irmão, que morava em Joinville. “Thiago era um cara que, quando metia as coisas na cabeça, ia em frente”, lembra a tia. Ele ficou sabendo da viagem da TC Turismo por uma amiga que trabalhava como guia para a empresa e, assim, pegou o ônibus com destino ao Sul do país no dia 22 de janeiro de 2021.
Muito presente na vida de toda a família, Thiago se comunicou durante todo o trajeto pela internet. “De manhã, antes de a gente saber do acidente, ele mandou às 7 horas uma mensagem [dizendo] que estava chegando e que ia parar para tomar café da manhã”, conta Maridalva. Foi a última vez que ela falou com o sobrinho.
Um dia de angústia por notícias
As notícias sobre o acidente na BR-376, na região da divisa entre Paraná e Santa Catarina, no dia 23 de janeiro de 2021, iniciaram um dia de angústia para a família de Thiago.
Diante de uma tragédia envolvendo tantas vítimas, ter a certeza sobre quem morreu e quem havia sobrevivido se tornou uma dificuldade, ainda mais para quem estava a mais de 3 mil quilômetros de distância.
Parte superior da frente do ônibus ficou completamente destruída – Foto: Ricardo Alves/NDTVPara a família de Mosqueiro, a ajuda veio de amigos, que ligaram para vários hospitais em busca de notícias. A confirmação da morte, no entanto, veio pela internet.
“Uma mensagem caiu no Facebook dizendo que o Thiago tinha falecido. Até então, a gente tinha muita esperança de encontrá-lo, mas pedi para uma prima minha não procurar mais no hospital, ir para o IML”, lembra Maridalva.
O irmão de Thiago, que estava em Santa Catarina, foi ao Instituto Médico Legal em busca de notícias. “A enfermeira já veio chorando quando pegou a identidade dele porque o Thiago foi uma das pessoas que morreram que a gente não viu. Ele teve a face deformada, perdeu membros”, fala a tia. A confirmação da morte do paraense ocorreu às 23h30, 15 horas após o acidente.
Mala com pedaços humanos e falta de assistência
Para Maridalva, entre as dores que tornaram ainda mais difícil a perda de Thiago, está a de não ter sido atendida pela TC Turismo, empresa responsável pela viagem. “Tudo a gente correu atrás para recuperar. A mala dele veio cheia de pedaços de corpo, de nada disso eles nos pouparam”, relembra a tia da vítima.
As despesas e procedimentos relacionados ao velório, por exemplo, ficaram sob responsabilidade da família. “O irmão dele ficou perdido atrás das coisas, tudo dele se perdeu, a gente recuperou só a mala de mão. Eu sei que são coisas mínimas, mas eles deveriam ter nos dado mais apoio”, destaca.
Ainda mais doloroso é ver as pessoas que trabalham junto à empresa no dia a dia, já que pelo menos uma funcionária mora perto da casa da família. “Eu me controlo muito quando vejo essa pessoa que mora perto de casa bem, passeando, enquanto a gente não tem mais essa felicidade de estar em paz. Faz um ano que eu não tenho paz”, reclama Maridalva.
Família pede responsabilização pela morte de Thiago – Foto: Arquivo pessoalA mãe e a filha de Thiago receberam indenizações, uma vez que o ônibus tinha seguro. Porém, para Maridalva, isso não traz conforto. “O que me traria conforto é ver essa empresa pagando pelo que fez. Eles estão vivendo como se nada tivesse acontecido, postando festas, e a gente, como ficou? A gente sorri, mas é de mentira porque o coração está estraçalhado”, lamenta.
O ND+ procurou a empresa TC Turismo para atualizar as informações sobre atendimento às vítimas e familiares, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.
Esta reportagem faz parte de uma série sobre o acidente na BR-376. Leia também: como foi a tragédia e o socorro às vítimas, o depoimento de quem sobreviveu e o desejo de justiça das vítimas do acidente.