Organização criminosa, imprudência e falta de manutenção do veículo. Estes seriam os motivos que contribuíram para a morte de 19 pessoas após o trágico acidente na BR-376, na divisa entre Santa Catarina e o Paraná, em janeiro deste ano.
Além das mortes, outras dezenas de pessoas ficaram feridas na manhã do dia 25 de janeiro, no km 668 da rodovia. Nesta terça-feira (25), que marca os quatro meses da tragédia, a Polícia Civil do Paraná realizou uma operação que tem como alvo os responsáveis pelo acidente.
Ao todo 19 passageiros morreram no trágico acidente que ocorreu em janeiro deste ano – Foto: Ricardo Alves/NDTVSegundo o delegado responsável pelo caso, Edgar Santana, além de conseguir entender toda a dinâmica do acidente, também foi possível encontrar provas que apontam para uma suposta organização criminosa que fazia o transporte clandestino de pessoas do Pará para o Sul do Brasil.
Seguir“No depoimento de vítimas e parentes das vítimas fatais, foi relatado que o motorista vinha dirigindo em boa parte do trajeto de forma agressiva e irresponsável, deixando de observar as regras de sinalização, além de relatos de excesso de velocidade e frenagem brusca em alguns trechos”, explica.
O que aconteceu no acidente?
O laudo pericial constatou que o motorista, minutos antes da colisão, transitava pela rodovia há 114 km/H – no trecho a velocidade máxima permitida é de 60 km/H. Depois, há cerca de 250 metros do acidente, a velocidade teria caído para 96 km/h e, dez segundos antes, ele conseguiu, ainda, reduzir para 54 km/h.
Para o delegado, isso demonstra que o freio estava funcionando durante o acidente, ao contrário do que motorista havia dito no depoimento. Na ocasião, ele alegou que houve falha nos freios.
“Por esse motivo, entendemos que houve o dolo eventual, ou seja, o motorista estava assumindo o risco de causar o acidente, o que se enquadra no homicídio doloso”, salienta o delegado.
Operação cumpriu 15 mandados de busca e apreensão contra os envolvidos – Foto: Polícia Civil/DivulgaçãoAlém disso, Santana diz que a investigação apurou que havia falta de manutenção no veículo e a forma de contratação do motorista foi feita de maneira oral, sem uma legislação firmada. Por conta disso, o dono do veículo também deve responder pelas mortes.
“Dos seis freios, somente um estava em bom estado de conservação. Além disso, o sistema funcionava no máximo pela metade”, complementa.
Transporte funcionava com licença irregular
Por fim, o grupo também é suspeito de integrar uma organização criminosa que transportava de forma clandestina os passageiros. Isto porque a licença de viagem emitida pela ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), autorizava o transporte para o turismo e não era essa a finalidade da viagem.
“Nos depoimentos, os passageiros disseram que saíram do Pará e estavam vindo para Santa Catarina para procurar emprego, o que demonstra que a viagem não tinha finalidade turística, desobedecendo as regulamentações”, enfatiza.
Ao todo, seis pessoas estão sendo investigadas, entre elas o motorista do ônibus e a empresa. “Os investigados, visando o lucro e reduzindo custos, burlam as regulamentações e desobedecem a legislação, junto com a conduta dolosa”, diz Santana.
O ND+ tenta contato com a empresa responsável pelo transporte, mas ainda não obteve retorno.
Operação cumpre 15 mandados de busca e apreensão
Nesta terça-feira (24), foram cumpridos 15 mandados de busca e apreensão nas cidades de São José e Florianópolis, em Santa Catarina, e em Belém e Ananindeua, no estado do Pará, em uma operação que tem como objetivo buscar outras provas sobre o caso.
Nas buscas foram apreendidos documentos, contratos e licenças de viagem, cheques de compra de passagem e celulares. Além disso, uma pessoa foi presa em flagrante por porte ilegal de arma de fogo.
Agora, os documentos serão analisados para que, posteriormente, o inquérito seja concluído. As investigações sobre o caso continuam.
Relembre o caso
O acidente ocorreu no km 668 da BR-376, por volta das 8h30 do dia 25 de janeiro, quando o ônibus saiu da pista, tombou na lateral da via e ficou pendurado em uma ribanceira de cerca de 50m de altura, no trecho conhecido como Curva da santa.
O ônibus saiu de Belém (PA) na sexta-feira (22) e tinha como destino Balneário Camboriú e São José, em Santa Catarina.