Na cadeira de rodas, longe do trabalho, com sessões diárias de fisioterapia e dor. A vida da enfermeira Karen Saori Kakihara, 31 anos, mudou da noite para o dia por causa de um grave acidente de trânsito em Blumenau no início deste ano. Ela foi atropelada por uma motocicleta na Rua Antônio da Veiga, no bairro Victor Konder, em Blumenau, em cima da faixa de segurança, sofreu muitos ferimentos e não perdeu a vida por pouco.
Karen está na cadeira de rodas após ser atropelada por motociclista em cima da faixa de segurança em Blumenau – Foto: Divulgação/NDPassados pouco mais de dois meses da batida, a vítima do trânsito, no mês das campanhas do Maio Amarelo de conscientização sobre o assunto, relata como tem sido a recuperação, diz que pretende buscar justiça e manda um recado à população e às autoridade.
Quem vê o vídeo do acidente não acredita que a pessoa atropelada tenha sobrevivido. A imagem é muito forte. O motociclista atinge a ciclista em cheio. Karen chegou a voar a alguns metros com o impacto da batida.
SeguirAcidente ocorreu na manhã do dia 22 de fevereiro na Rua Antônio da Veiga, em Blumenau, próximo a Furb – Vídeo: Divulgação/ND
A ciclista fraturou partes do corpo como pelve, tornozelo, fêmur, punhos e cervical. Passou por algumas cirurgias. Foram 30 dias internada no Hospital Santa Isabel, local onde já havia trabalhado como enfermeira.
Karen reside em Blumenau e trabalha na Unimed, mas atualmente, por causa da recuperação dos ferimentos provocados pelo acidente, está na casa da mãe, em Florianópolis. Ela ficará afastada do trabalho por pelo menos seis meses.
“Todos os dias, quando acordo, são muitas dúvidas sobre minha mente. A única certeza do dia é que vou sentir muita dor. A dor física é inevitável e cruel demais na reabilitação. Mas não posso me dar ao luxo, de um dia sequer, deixar de lutar pela minha melhora.”, comenta.
Há pouco mais de um mês Karen deixou o hospital e a alta foi marcada por muita emoção. Reveja aqui a reportagem do Balanço Geral Blumenau.
A ciclista aceitou responder algumas perguntas da coluna. São 75 dias de uma mudança radical na vida da enfermeira e tudo por causa de um acidente em cima da faixa de segurança.
Como você está após o acidente?
Já perdi as contas de quantas vezes os meus olhos já foram dominados pelas lágrimas em decorrência do sofrimento. Mas, o que me move persistir e insistir na reabilitação é: “você tem alguém para amar, alguém a zelar e sonhos que almeja alcançar, fraquejar, não se torna uma opção”. Não quero que ninguém passe pelo sentimento que meus pais passaram quando souberam do acidente, pois naquele momento o meu estado era crítico, as imagens foram fortes e as incertezas sobre a continuidade da minha vida eram elevadas. Não posso me dar ao luxo, de um dia sequer, deixar de lutar pela minha melhora. Isso seria um desrespeito com todos que me ajudaram de alguma forma, seja doando sangue, na mobilização da “bicicletada” que foi feita ou aqueles que oraram por mim, que acolheram e deram suporte a minha família.
O que mudou na sua vida?
Eu sempre senti a necessidade de ajudar as pessoas, por isso escolhi a enfermagem como profissão e missão de vida. Nunca imaginei estar na posição de “ser paciente” no mais alto grau de dependência, mas ao dimensionar todo o processo do acidente até hoje, nesses momentos revisei valores, crenças e projetos de vida. Um deles, por exemplo, é direcionar parte da minha experiência pessoal e profissional para colaborar e contribuir com instituições ou associações que tenham vínculos com traumas.
Como está sua recuperação?
O processo de recuperação está sendo moroso e exige muita disciplina, além da vontade de vencer e retomar minha vida como era antes. Vai demorar ainda, pois tenho inúmeras sessões de fisioterapia pela frente e uma possibilidade de realizar uma nova cirurgia para a retirada de pino. Isso vai prolongar ainda mais o tratamento e por consequência o sofrimento.
Em plena campanha do Maio Amarelo, o que você pode falar para as pessoas em relação ao respeito e educação no trânsito?
Assim como o álcool gera alterações desfavoráveis para quem irá dirigir, o celular é um causador de distração em potencial para o condutor. A sociedade sabe, porém, há pouca consciência sobre a responsabilidade disto, o que muitas vezes só ocorre quando acontece uma fatalidade. A sensação de impunidade é alta, pois vemos diariamente pessoas que têm suas vidas modificadas, se não ceifadas, por atitudes irresponsáveis de pessoas que permanecem em liberdade e ao final, se condenados, é uma pena desproporcional ao mal que causaram. A classe política precisa se movimentar para atualização da legislação com urgência de modo que seus parâmetros sejam revistos. Dessa vez foi comigo, mas quantos outros que passaram pela mesma situação? Que tiveram a capacidade laborativa impactada de modo a refletir no sustento da própria família e a punição atualmente não é proporcional. É extremamente necessário ampliar, não somente de maneira quantitativa, como também de maneira qualitativa as ações de educação no trânsito com campanhas nas escolas, mídia virtual, movimentação ativa nas ruas para evitar incidentes continuem ocorrendo. Reitero, dessa vez foi a Karen, mas amanhã será outra pessoa e se não nos indignarmos, protestarmos e irmos a luta pelos nossos direitos a nossa sociedade não irá mudar. Precisamos refletir e entender que o mundo está mudando e o trânsito não se resume mais a pedestres e veículos automotores. Hoje temos muito mais ciclistas e optantes por outros modais de transporte que devem ser incentivados, pois trazem benefício à saúde, meio ambiente e sociedade como um todo e as ações mais contundentes no que tange a educação certamente trariam inúmeros benefícios, pois as pessoas se sentiriam seguras a adotar esses meios alternativos de transporte.
Você pretende buscar justiça no caso do seu acidente?
O motociclista em si, até hoje, não me procurou. Diante das sequelas físicas e emocionais que estou precisando administrar, as tratativas serão realizadas via judicial, tanto na esfera cível como criminal. Confio na justiça e nas pessoas por trás do Poder Judiciário para que ao final ele seja devidamente penalizado pelo sofrimento que passo até hoje.
Karen antes do acidente que deixou a enfermeira na cadeira de rodas e com um trabalho árduo de reabilitação – Foto: Divulgação/ND