De olho no mercado de voos elétricos – o próximo passo da busca pelo transporte aéreo autônomo -, a Flapper pode ser apresentada como um Uber das ares. No comando das ações está o diretor-executivo Paul Malicki, que emplacou na lista de 2017 da Forbes no segmento abaixo dos 30 anos. O CEO agrega a experiência acumulada na atuação em mais de 40 países no mercado de tecnologia e a passagem pelas startups unicórnios Nubank, Farfetch e Easy Taxi.
Entre temas “que ainda não sabemos”, segredos que “não podemos revelar” e informações estratégicas, Malicki apresenta um panorama sobre os complexos movimentos para colocar no ar novas tecnologias. Até 2026, prevê comercializar 25 mil horas de voos nos aviões de nova geração da Embraer, movidos por eletricidade.
Depois disso, entende que o modelo de negócios que chefia pode ser uma evolução no conceito de transporte individual e público que temos hoje. Nesse meio tempo, prega que as cidades precisam se adaptar para o que está por vir, e vai vir.
Paul Malicki, CEO da Flapper – Foto: Divulgação/NDO imaginário popular sempre nutriu um futuro em que embarcaríamos em um carro e sairíamos voando por aí. O dia que teremos veículos voadores autônomos está próximo?
Hoje não é uma questão “se vai ter”, mas “quando vai ter”. Uma série de fatores vão afetar a data de lançamento desse produto no mercado, e nós estamos observando certa sequência de diferentes modelos, não necessariamente de carros autônomos, mas começando com as novas formas de voar, até que, eventualmente, chegue no formato de carro autônomo.
Em junho, uma empresa europeia fez os primeiros testes bem sucedidos de um carro voador [o Air Car Prototype 1, da Klein Vision, que voou entre Nitra e Bratislava, cidades da Eslováquia. O modelo 2 está em fase de desenvolvimento e poderá alcançar a velocidade de 300 km/h]. Simultaneamente, tivemos diferentes testes de drones autônomos de passageiros. Obviamente, estamos falando de empresas que estão autorizadas só para testar e não ainda para comercializar, mas pensando sobre futuro, a maioria das empresas estão colocando como meta 2025 como ano de referência para lançar voos nos drones autônomos, carros autônomos e etc. Antes disso, a gente pode ter como expectativa para 2023 os voos elétricos. Os aviões comerciais vão voar de modo elétrico, primeiramente na aviação original, depois na aviação comercial, principalmente turbo hélices.
Quais os desafios para viabilizar a tecnologia de motorização elétrica para aeronaves?
O principal problema continua sendo a capacidade das baterias. Vamos tomar os celulares como exemplo, provavelmente você carrega diariamente. A gente pode fazer a mesma referência nos mais de 200 projetos de carros e drones autônomos no mundo. Evoluímos muito em relação à programação e tecnologia, tecnologia de hélice com materiais leves, mas a bateria continua sendo um desafio. Uma empresa dos EUA fez um teste em que percorreram 150 milhas sem parar, num avião que só tinha baterias elétricas. Então, acho que é um marco importante dessa evolução, porque até agora o que a gente estava ouvindo eram voos de até uma hora de duração. Isso é suficiente para conectar você com viagens curtas, mas não para ser recorrente entre cidades e longas distâncias.
A Flapper se apresenta como uma empresa que oferece serviço de aviação executiva sofisticado, seguro e confiável. Qual é o diferencial no modelo de negócio da Flapper em relação à concorrência?
Nós não somos desenvolvedores de carros autônomos, nós somos uma empresa/plataforma independente para compra de voos executivos. Hoje nós trabalhamos com táxi aéreo, você pode comprar um voo fretado ou um assento individual para sentar. No futuro, a tendência é que uma parte desses voos sejam operados por aviões elétricos. Até 2026, prevemos comercializar até 25 mil horas de voos nos aviões da nova geração de elétricos da Embraer. A Flapper vai construir uma interface para as empresas conectarem-se com o consumidor final, hoje estamos vivendo no mundo das marcas, sem a marca você não conquistará o consumidor exigente, ainda mais com um produto tão inovador. Então a Flapper, através do aplicativo, principalmente, vai conectar uma, duas, três, pode ser cinco soluções diferentes com o consumidor final, esse é nosso papel. É importante mencionar que a gente não possui frota própria, trabalhamos com empresas certificadas de táxi aéreo, de uma maneira parecida com o que o Uber faz com os carros, não é dona de carro, mas ela trabalha com vários tipos de oferta.
Quais detalhes da parceria com a Embraer já podem ser revelados, o que levou à opção?
A parceira prevê que a Flapper irá comercializar até 25 mil horas de voos nos aviões dessa nova geração de elétricos da Embraer até o ano de 2026. A Embraer tem um histórico forte no setor aeronáutico, decidimos que são os parceiros certos, porque eles possuem um histórico de soluções importantes. Como estamos falando de um tipo de oferta totalmente novo, para gerar confiança do consumidor, temos que buscar empresas que estão no mercado há algum tempo.
Qual é o público interessado nas soluções previstas para os novos modelos de transporte aéreo?
Se olharmos o público do taxi aéreo, que faz deslocamentos pelo ar, muitos possuem helicóptero, realizam voo de jato, e podem constituir o público de helicóptero. A transição de um helicóptero para o uso de um drone para passageiro não é tão drástica quanto a de um carro privado para um drone autônomo de passageiros. Aquele cliente que paga por um motorista próprio de carro pode realizar um voo num drone autônomo de passageiro. É mais ou menos isso que a gente está enxergando, que os mercados tradicionais de aviação geral vão continuar crescendo e esse mercado novo ele vai crescer em cima de mobilidade urbana.
Pesquisadores e operadores do mercado de inovação dos carros autônomos sempre citam dificuldades na infraestrutura das cidades brasileiras. Quais serão os desafios nesse sentido?
No futuro, vários modelos de carros serão autônomos. Não faz sentido dirigir carro numa era em que você consegue, através de códigos, prever com melhor eficácia o trânsito. Mas, para isso, precisamos avançar para criação de cidades sustentáveis, incluindo uma rede de helipontos. Por exemplo, nem todos servem para decolagem de drone de transporte de passageiros. Também, soluções de rede elétrica para sustentar o carregamento das baterias, soluções de carros. Então, é algo complexo. Ainda temos as questões culturais. Se a gente pensar bem, quando surge a Uber, era algo novo para o mercado. As pessoas não entendiam como seria possível que um motorista que eu não conheço, com toda segurança, me deixasse em casa. Hoje, no Brasil, temos mais de 600 mil operações de aviação geral.
É possível estimar prazos e realidades mais concretas das opções que devemos ter disponíveis nos próximos anos?
Tem determinadas coisas que ainda não sabemos, outras que não podemos revelar ou simplesmente não queremos confundir o cliente final e tem umas coisas que são mais genéricas, que podemos falar. Primeiro você vai começar voar nos perímetros urbanos, áreas metropolitanas vão ser as primeiras a ganhar esse tipo de serviço. No início, acreditamos que as rotas mais voadas conectam aeroportos internacionais com centros de cidades, porque lá tem muito trânsito. Temos demanda concentrada em muitos horários e podemos conectar esses horários de clientes que estão com pressa. Com certeza estamos falando de um serviço que tem que ser competitivo com helicóptero e carro próprio, não vai ser tão barato quanto Uber, mas tem que ficar entre um e outro. É um ecossistema que vai crescendo, é uma questão que nós vamos ter que acompanhar, tem muita tecnologia que é concorrente.
O primeiro passo dessa inovação passa pela motorização elétrica, a exemplo dos carros?
O que parece que está sendo feito no mercado é que primeiro teremos uma onda de eletrificação de aviões turbo a hélice. E depois vão vir tecnologias novas, o que a gente chama no mundo de aviação de “clean design”, feito do zero. Por exemplo, a solução da Embraer Eve [veículo elétrico que decola e pousa verticalmente, com capacidade para transportar passageiros]. Provavelmente ela também vai ser elétrica, porque nós temos tecnologia híbrida, temos drones autônomos que também vão ser de combustível, mas prometem decolagem vertical por preço menor. Não vai ser de um dia para o outro, é uma evolução que a gente vai acompanhando.
Aquele cenário dos desenhos animados, cada um com seu carro voador, será realidade?
Penso que teremos veículos autônomos de passageiros, operados inicialmente por empresas certificadas, pelo equivalente do táxi aéreo de hoje. Por uma razão muito simples, eu não sei pilotar, você não sabe. Mesmo que eu trabalhe com aviação, se alguém me oferecesse um carro voador, “vai lá e pilota”, eu provavelmente não aceitaria. Vou entrar em uma máquina como se fosse um carro voador, mas, na verdade, é uma máquina que comercializa voos. Essa é a principal diferença. Se teremos veículos autônomos individuais? Não sei até que ponto isso vai ser necessário para o mercado. Se a solução der certo, é um transporte público de outra geração, você não precisa ter transporte privado. O transporte público é mais eficiente. Mas, tudo isso vai depender da demanda e do mercado.