Como anda o transporte coletivo de Florianópolis? Usuários apontam pontos positivos e negativos

Floripa 350 embarca nos ônibus da Capital e percorre os terminais da cidade para entender os desafios para Florianópolis ampliar o sistema e avançar na mobilidade urbana

Windson Prado Florianópolis

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Quando se pensa nos acessos à Ilha de Santa Catarina, o tema da mobilidade urbana logo entra em evidência. Pensando nisso, a equipe do Floripa 350 foi conferir como anda o transporte coletivo da Capital.

Transporte coletivo de Florianópolis hoje tem 174 linhas e 494 ônibus diarios que atendem a 220 mil passageiros todos os diasTransporte coletivo de Florianópolis hoje tem 174 linhas e 494 ônibus diarios que atendem a 220 mil passageiros todos os dias – Foto: Arquivo/ND

Como está o transporte coletivo de Florianópolis nos dias de hoje?

Se por um lado a integração dos terminais, as facilidades do aplicativo Floripanoponto e as condições das estruturas dos pontos de ônibus nas ruas são elogiados pelos entrevistados, a falta de estrutura dos terminais e a escassez de horário das linhas são desafios para a cidade turística avançar na mobilidade urbana.

Frota do Transporte coletivo de Florianópolis roda menslamente 2.700.000 km pela cidade – Foto: Guilherme Medeiros/PMF/Divulgação/NDFrota do Transporte coletivo de Florianópolis roda menslamente 2.700.000 km pela cidade – Foto: Guilherme Medeiros/PMF/Divulgação/ND

Segundo a Secretaria Municipal de Transportes e Infraestrutura de Florianópolis, atualmente, o SIM (Sistema Integrado de Mobilidade) roda com 174 linhas e 494 ônibus. Juntos, os coletivos percorrem uma média mensal de 2,7 milhões de quilômetros pela cidade. Outro dado que chama a atenção é a média diária de passageiros: cerca de 220 mil. A prefeitura afirma que o número de usuários tem crescido após a pandemia.

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Transporte coletivo de Florianópolis, uma passada pelos terminais

Visitamos cinco dos terminais do transporte coletivo urbano da Capital. Em todos houve algum tipo de reclamação ou constatação de problemas estruturais por parte da comunidade.

No Ticen (Terminal de Integração do Centro), os passageiros reclamam que os bancos para aguardar a chegada do coletivo são insuficientes, sobretudo nos horários de pico. Além disso, não há muita diversidade nos produtos vendidos pelas lanchonetes. Outra queixa é a falta de tomadas ou estações para se carregar o celular, por exemplo.

Visitamos cinco dos seis terminais do transporte coletivo urbano da Capital. Em todos houve algum tipo de constatação de problemas estruturais, ou reclamação da comunidade – Foto: Windson Prado/NDVisitamos cinco dos seis terminais do transporte coletivo urbano da Capital. Em todos houve algum tipo de constatação de problemas estruturais, ou reclamação da comunidade – Foto: Windson Prado/ND

Outro problema apontado no Ticen é o dos banheiros. Em agosto, uma estudante flagrou um homem espiando por um buraco feito na porta do sanitário feminino. Algumas portas e paredes estão avariadas, e paredes pichadas ou rabiscadas. Há limpeza, mas a falta de papel higiênico não passou despercebida pelo usuários do transporte coletivo da Capital.

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    Movimento no Titri no início da manhã de uma terça-feira - Windson Prado/ND
    Movimento no Titri no início da manhã de uma terça-feira - Windson Prado/ND
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    Movimento no Titri no início da manhã de uma terça-feira - Windson Prado/ND
    Movimento no Titri no início da manhã de uma terça-feira - Windson Prado/ND
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    Movimento no Titri no início da manhã de uma terça-feira - Windson Prado/ND
    Movimento no Titri no início da manhã de uma terça-feira - Windson Prado/ND

No Titri (Terminal de Integração da Trindade), a falta de equipamentos de sinalização de emergência no sanitário masculino foi uma das questões apontadas pelos passageiros. Apenas uma grade mostra que um dia ali um dia eles estavam fixados.

Já no Tican (Terminal Integrado de Canasvieiras), Tirio (Terminal Integrado do Rio Tavares) e Tilag (Terminal Integrado da Lagoa), a falta de opções da lanchonete, falta de tomadas e poucos bebedouros foram as principais reclamações dos usuários, além, é claro, da superlotação dos ônibus.

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    Paredes pichadas, portas com avarias e sistema de luz de emergência inexistente. Flagrante no banheiro masculino do Titri - Windson Prado
    Paredes pichadas, portas com avarias e sistema de luz de emergência inexistente. Flagrante no banheiro masculino do Titri - Windson Prado
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    Gradil quebrado mostra que um dia ali havia sinalização de emergência - Windson Prado/ND
    Gradil quebrado mostra que um dia ali havia sinalização de emergência - Windson Prado/ND

Um ponto positivo destacado pela comunidade foi a qualidade dos pontos de ônibus que, em sua maioria, tem estrutura bastante satisfatória, principalmente na região central e nos eixos entre os terminais.

‘Horários das linhas são insuficientes’

Em todos os pontos visitados e nas principais ruas do Centro de Florianópolis, os dois principais problemas do transporte coletivo da Capital se concentram na quantidade reduzida de horários das linhas e a superlotação. Moradores do bairro João Paulo, por exemplo, aos domingos, precisam esperar quase quatro horas para a passagem da linha Saco Grande via João Paulo, que sai do Titri às 18h10, 19h30 e depois só volta a circular às 23h20 e 00h30.

“Fim de semana é um dilema, porque temos ônibus apenas, praticamente, a cada três horas”, Luis Fernando Macedo, auxiliar de manutenção – Foto: Windson Prado/ND“Fim de semana é um dilema, porque temos ônibus apenas, praticamente, a cada três horas”, Luis Fernando Macedo, auxiliar de manutenção – Foto: Windson Prado/ND

A falta de horário também afeta até quem mora no Centro. É o caso do auxiliar de manutenção Luis Fernando Macedo, 28 anos. Ele mora na rua 13 de maio e todos os dias pega o coletivo para ir ao trabalho, no Morro da Cruz.

“Os horários das linhas são muito ruins, insuficientes. Às vezes, passam dois ônibus quase em seguida e aí temos um espaço de tempo de 40 minutos durante a semana, em horário comercial, para um outro ônibus que faz a linha, passar pela rota”, comenta.

Luis Macedo destaca também que “ao final do expediente comercial, o ônibus já sai do ponto inicial, no topo do Morro da Cruz, com sentido ao Ticen, completamente lotado. Fim de semana é um dilema, porque temos ônibus apenas, praticamente, a cada três horas. E olha que a linha leva a um dos principais pontos turísticos da Capital. É inadmissível”, desabafa Macedo.

A aposentada Euzimaria da Rocha, 68 anos, também mora no Centro de Florianópolis. Ela usa frequentemente o transporte coletivo e faz apontamentos bons e outros a serem melhorados.

Euzimaria pontua falhas nos horários das linhas – Foto: Windson Prado/NDEuzimaria pontua falhas nos horários das linhas – Foto: Windson Prado/ND

“No meu caso, duas linhas passam próximo a minha casa. Sempre vem um ônibus na cola do outro, passam juntos praticamente, e aí fica um longo período sem passar outro. Não entendo o porquê de os responsáveis não distribuírem melhor o horário a fim de ofertar mais opções pra gente”, destaca a carioca que há 22 anos trocou o Rio de Janeiro pela capital catarinense.

“Aqui é um paraíso, somos turísticos, temos que ter um transporte coletivo de qualidade”, ressalta a Euzimaria.

Ela elogia a bilhetagem eletrônica, o atendimento dos motoristas e dos poucos cobradores que ainda atuam no sistema e sugere que a cidade implante linhas especiais para os estudantes. “Vejo, muitas vezes as crianças sozinhas, meio que perdidas nos ônibus, eles deveriam ter uma condução exclusiva para garantir a segurança e melhor servir às pessoas”, finaliza.

A assessoria da Aresc (Agência Reguladora de Serviços Públicos de Santa Catarina) informou que, atualmente, o gerenciamento do transporte coletivo urbano de Florianópolis está a cargo da prefeitura. Eles também informam que, caso se tratasse do transporte intermunicipal, entre os municípios da Grande Florianópolis, por exemplo, – que também é alvo de inúmeras críticas dos usuários – conforme a “lei complementar nº 741/2019, que trata da extinção do Departamento de Transportes e Terminais, o Deter” e que segundo o artigo 99, “ficam transferidas para a SIE todas as competências do Deter, excetuadas as de regulação e fiscalização do transporte intermunicipal de passageiros, que serão desempenhadas pela Aresc.”

Neste sentido, “à Aresc caberá o exercício de todos os poderes de fiscalização do transporte intermunicipal de passageiros, de que eram competências do Deter, e também a competência para cobrança das taxas previstas na Lei nº 17.221, de 2017”.

A assessoria da Prefeitura de Floripa afirma que monitora a demanda do transporte coletivo diariamente, adicionando mensalmente linhas e horários conforme necessidade percebida, porém a demanda existente na pré-pandemia ainda não foi atingida. Para solucionar este problema, novos horários são adicionados à grade desde 2020 de forma mensal.

O governo municipal completa dizendo que trabalha em diferentes frentes para a melhoria do sistema, como a ampliação de horários e criação de novas linhas; programas de incentivo ao transporte coletivo, como domingo na faixa, integração ilimitada dentro de 3 horas, entre outros; e a priorização do transporte coletivo por meio de corredores exclusivos, como na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

O Consórcio Fênix, responsável pela operação do transporte coletivo de Florianópolis, informou via assessoria de imprensa, que não conseguiria responder aos questionamentos da reportagem a tempo de publicarmos a matéria. O contato com o consórcio foi feito pela equipe do Floripa 350 ainda na segunda-feira (11). Nossa reportagem está sendo publicada nesta quinta-feira (14). O Consórcio Fênix também repassou à Prefeitura de Florianópolis a fala de interlocução a respeito dos problemas apontados na reportagem.

Uma viagem ao passado

O historiador Rodrigo Rosa contou brevemente como foi o início do transporte coletivo em Florianópolis. Você sabia que a cidade já teve bondes?

“Isso mesmo, Florianópolis viveu a era dos bondinhos no início do século 20. Inclusive, onde houve o achamento arqueológico recente, ao lado direito da praça 15 de Novembro, onde tem hoje a agência dos Correios, passava o trilho do bonde que levava os moradores até a praça Getúlio Vargas, depois distribuía os passageiros até a Agronômica”, conta o estudioso.

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    No primórdio do transporte coletivo em Florianópolis, veículo de tração animal - Coleção Berenhauser/Henrique/Repositório UFSC/Acervo virtual APESC
    No primórdio do transporte coletivo em Florianópolis, veículo de tração animal - Coleção Berenhauser/Henrique/Repositório UFSC/Acervo virtual APESC
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    Cavalos puxavam os coletivos antigamente em Florianópolis - Coleção Berenhauser/Henrique/Repositório UFSC/Acervo virtual APESC
    Cavalos puxavam os coletivos antigamente em Florianópolis - Coleção Berenhauser/Henrique/Repositório UFSC/Acervo virtual APESC

Ele também lembra que o nome da primeira empresa de transporte coletivo, a que operava os bondes, era Companhia de Carris Urbanos e Suburbanos, isso na década de 1880.

“Havia algumas paradas espalhadas pela cidade, era muito moderno para a época. Eles funcionaram sozinhos até os anos 1920 quando chega a primeira linha de ônibus. Tínhamos até um terminal, que ficava na frente onde hoje é o Largo da Alfândega. Mesmo assim os bondes sobrevivem até, ao menos, o final dos anos de 1930”, detalha o historiador.

Rodrigo Rosa acrescenta que, “ainda nos anos 1930, diante da modernidade, foi possível pegar bondes puxados por veículos motorizados, como tratores e pequenos caminhões. As rotas, desde os primórdios, eram até Pedra Grande, atual Agronômica, Praia de Fora (parte de onde hoje está a avenida Beira-Mar Norte e onde hoje é o Centro da Capital). Já os primeiros ônibus foram mais longe, seguiam até o Saco dos Limões, Itacorubi e Trindade”, diz o estudioso.

Imagens dos primeiros ônibus que integraram o transporte coletivo de Florianópolis, no início dos anos 1920 – Foto: Coleção Berenhauser/Henrique/Repositório UFSC/Acervo virtual APESCImagens dos primeiros ônibus que integraram o transporte coletivo de Florianópolis, no início dos anos 1920 – Foto: Coleção Berenhauser/Henrique/Repositório UFSC/Acervo virtual APESC

Por fim, Rosa destaca um fato curioso, registado no jornal O Estado de 26 de setembro de 1934. “O jornal narra um episódio marcante, que é o ataque aos bondes. Foram jogados no mar, onde hoje é mais ou menos o esqueleto do miramar”, finaliza, apresentando a página do periódico.

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    Jornal O Estado, de quarta-feira, 26 de setembro de1934 - Início do transporte coletivo em Florianópolis (1)
    Jornal O Estado, de quarta-feira, 26 de setembro de1934 - Início do transporte coletivo em Florianópolis (1)
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    Jornal O Estado, de quarta-feira, 26 de setembro de1934 - Foto: Início do transporte coletivo em Florianópolis (1) - Um bande destruido por populares
    Jornal O Estado, de quarta-feira, 26 de setembro de1934 - Foto: Início do transporte coletivo em Florianópolis (1) - Um bande destruido por populares

Floripa 350

O projeto Floripa 350 é uma iniciativa do Grupo ND em comemoração ao aniversário de 350 anos de Florianópolis. Ao longo de dez meses, reportagens especiais sobre a cultura, o desenvolvimento e personalidades da cidade serão publicadas e exibidas no jornal ND, no portal ND+ e na NDTV RecordTV.