Mesmo com a flexibilização das medidas restritivas da pandemia de Covid-19 em Santa Catarina e a permissão do governo do Estado para que comércio e serviços voltem às atividades (com restrições), pequenos estabelecimentos lutam para manter seus negócios vivos.
No Centro Histórico da Capital, a maioria dos comerciantes optou por manter as portas fechadas, mesmo com o afrouxamento do isolamento social adotado a partir de 22 de abril.
Bares da Rua Victor Meirelles no centro leste da Capital permanecem fechados – Foto: Anderson Coelho
Isso por entenderem que não há segurança neste momento em que o número de casos de contaminações pelo novo coronavírus ainda é crescente em Santa Catarina.
Para Rômulo Ceretta, um dos sócios do Vodu Bar, na rua Victor Meirelles, esse ainda não é o momento de reabrir. “Não temos previsão, só abriremos quando sentirmos uma segurança maior em relação à propagação do vírus”, afirma. Ainda que represente prejuízo financeiro, “a saúde é o que importa”, diz o empresário.
Segundo o proprietário, a única medida que ajudou a minimizar os prejuízos foi a renegociação do aluguel. “Negociamos para três meses. Depois desse período, mesmo que façamos nova negociação, vai ficar difícil manter o negócio. Alguns estabelecimentos que abriram estão faturando apenas 10% do que tinham antes, isso inviabiliza qualquer negócio”, diz Ceretta.
Ele diz que ainda espera algum comunicado em relação à flexibilização de pagamentos das contas de luz e água e que qualquer benefício em termos de impostos também seria bem-vindo.
Para não ficar totalmente parado, o grupo faz venda de cerveja toda sexta-feira, através de pedidos antecipados via Instagram. “Garante uma renda mínima, suficiente para pagar alguma conta, nada mais”.
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Situação semelhante vive o Madalena Bar, situado na mesma rua. Uma das sócias, Rose Bär, conta que o estabelecimento ficará fechado até que seja seguro de fato voltar a receber os clientes.
“As medidas de distanciamento são difíceis, visto que nosso bar tem sofás extensos, bancadas e as pessoas ficam próximas, dançam. Então preferimos esperar até sentirmos segurança”, diz Rose.
As sócias negociaram com fornecedores logo no início das medidas de isolamento e pagaram as contas menores, de empresas pequenas. “Tivemos que aderir à medida do governo federal para não demitir funcionário e vamos começar a venda de vouchers para arrecadar dinheiro destinado às contas fixas”, explica.
O coletivo de bares da região fez um manifesto nas redes sociais falando sobre a falta de apoio e estrutura do governo para manter os pequenos negócios. “Não tivemos redução nem suspensão de contas de IPTU, taxa de lixo, água ou luz. Além disso, a redução obrigatória de horários de funcionamento no ano passado, devido a aglomeração de pessoas nas imediações da Avenida Hercílio Luz, representou uma redução de 60% a 80% do faturamento para nossos negócios. Então não temos folga financeira”.
Na opinião de Rose, qualquer redução nos gastos fixos ajuda, mas o apoio na negociação dos aluguéis seria mais efetivo, porque junto com a folha de pagamentos, é o que pesa no bolso dos comerciantes. “Também há dificuldades em acessar linhas de crédito, devido à burocracia”, opina.
Redução de impostos
Para tentar conter os prejuízos no setor, a CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) de Florianópolis reiterou, enviou ofício pela segunda vez ao governador Carlos Moisés da Silva (PSL).
No documento, a entidade reitera e cobra do Executivo a redução urgente da carga de tributos incidentes no consumo e na produção, além do redimensionamento da máquina pública.
Leia a carta na íntegra:
“A CDL de Florianópolis entende que para combater a proliferação do novo Coronavírus no estado de Santa Catarina medidas restritivas foram implementadas para zelar pela saúde da população, porém, tais ações geraram prejuízos no setor produtivo que, se não devidamente enfrentados, resultarão na falência de milhares de empresas na extinção de milhões de postos de trabalho.
Diante deste cenário, a Entidade reiterou, em novo expediente enviado para o governador Carlos Moisés da Silva (PSL), a necessidade urgente de que o Governo do Estado reduza a enorme carga de tributos incidentes no consumo e na produção, bem como redimensione a máquina pública.
No início do mês, o comitê de crise da Entidade contribuiu com os Poderes Executivo e Legislativo expondo uma extensa pauta de reivindicações de ordem fiscal, tributária e administrativa, e solicitou do Poder Público a sua cota-parte de sacrifícios para assegurar o indispensável equilíbrio nas contas públicas, especialmente nesse período inicial de retomada da atividade.
Já neste segundo documento, além de fortalecer o pleito anterior, a Entidade cobrou do Governo do Estado a redução urgente das alíquotas dos tributos nas matrizes de produção e de consumo, por produzirem efeito imediato na economia catarinense.
De acordo com o presidente da CDL de Florianópolis, Ernesto Caponi, o setor produtivo já fez imensos sacrifícios ao longo dos últimos 30 dias, sem que houvesse uma contrapartida efetiva do Poder Público.
“A CDL de Florianópolis está preocupada com o futuro de Santa Catarina após a crise gerada pelo novo Coronavírus, e com isso exigimos dos governos que cortem gastos e reduzam o tamanho da máquina pública, esse enorme elefante branco mantido com o suor do trabalho de todos nós. O setor produtivo precisa sobreviver”, alerta Caponi.
Campanha
A CDL de Florianópolis colocou no ar nesta segunda-feira (4), uma campanha publicitária com o intuito de cobrar do chefe do governo providências para redução dos impostos. As peças serão veiculadas em outdoor, relógios sinergy, jornal impresso, portais, além dos canais de comunicação da Entidade.”
Contraponto do governo do Estado
Por meio de assessoria, a Secretaria de Estado da Fazenda informou que o Núcleo Econômico, coordenado pelo governo do Estado, se reúne semanalmente com representantes de entidades do setor produtivo, incluindo a Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas (FCDL/SC), para debater estratégias durante a pandemia e demandas dos segmentos.
A carta da CDL Florianópolis deve entrar na pauta da próxima videoconferência do Núcleo, marcada para esta terça-feira (5). Porém, informa que já existem ações voltadas às pequenas empresas.
Entre as medidas estão linhas de microcrédito para financiamento de R$ 5 mil a R$ 20 mil, do BRDE; capital de giro com financiamentos de R$ 20 mil a R$ 200 mil, com juros reduzidos de 0,74% ao mês e 18 meses de carência; ampliação do Programa Microcrédito Juro Zero de R$ 3 para R$ 5 mil, para microempreendedores individuais (MEIs) e prorrogação de 90 dias para recolhimento de ICMS e ISS.
Volta do transporte coletivo
Preocupado com a saúde financeira das empresas e a manutenção de empregos, o Setuf (Sindicato das Empresas de Transporte Urbano da Grande Florianópolis) também emitiu nota, neste domingo (3), afirmando que mantém as atividades suspensas, em cumprimento ao decreto estadual.
Explica ainda que todas as empresas já estão prontas para voltar ao funcionamento, cumprindo as determinações sanitárias vigentes. Além disso, esclarece que como as tentativas junto ao governo do Estado para retomar os serviços não obtiveram retorno, o sindicato deve procurar outras alternativas para voltar a funcionar.
Veja a nota do Setuf na íntegra:
“O SETUF – Sindicato das Empresas de Transporte Urbano da Grande Florianópolis informa à sociedade da região da Grande Florianópolis, que:
1- Em razão da pandemia Covid-19, o governador do Estado de Santa Catarina, por meio do decreto nº 587, de 30/04/2020, manteve a suspensão das atividades do transporte público coletivo de passageiros, POR PRAZO INDETERMINADO;
2- Por 40 dias, as empresas associadas ao SETUF têm cumprido integralmente essa determinação, mesmo diante de grandes dificuldades para a manutenção dos empregos de MILHARES DE TRABALHADORES diretamente impactados;
3- Neste momento, as empresas associadas, em observância às normas sanitárias compatíveis com a viabilidade operacional do sistema e preocupadas com a saúde dos seus trabalhadores e usuários, já se encontram preparadas para o retorno imediato das suas atividades, que tanta falta faz para todos os setores produtivos da região.
4- É importante salientar que o setor de transporte público coletivo de passageiros – além de gerar emprego e renda – é serviço público essencial, conforme artigo 30, inciso V da Constituição Federal, e que se constitui, muitas vezes, como o único meio de locomoção das pessoas mais vulneráveis.
5- Por último, e não menos importante, informamos que fizemos inúmeras tentativas junto ao Governo Estadual, em favor de medidas capazes de viabilizar a retomada sustentável da operação do transporte. No entanto – e infelizmente – não recebemos qualquer retorno oficial. Em razão disso, nos próximos dias nos mobilizaremos em busca de soluções e alternativas que permitam o retorno das atividades. Pedimos ainda aos nossos trabalhadores – e a todos os usuários que dependem do transporte público coletivo de passageiros – a compreensão por este momento tão traumático e alheio às nossas vontades.
Florianópolis, 03 de maio de 2020.”